Um dos artifícios mais utilizados na narrativa cinematográfica e na televisão é a pretensão como modo de distrair o espectador dos problemas contidos na obra. É como um mágico, que enquanto atrai a atenção do público para uma mão, está realizando o truque com a outra.

Tudo está ali, na sua cara, mas pelo direcionamento pretendido por quem comanda a narrativa, você não percebeu.

E em comparação com a premiere, Sam Levinson até que teve boas intenções nesse segundo episódio, mas como diz o ditado: de boas intenções o inferno está cheio.

Em sua cruzada de usar o choque como choque, Levinson chega no já combalido tema do sonho americano.

Esse tema, constante da narrativa estadunidense, já foi retratado nos mais diversos gêneros e possibilidades. Mas no contexto atual, esse sonho já morreu e foi enterrado. Vivemos numa era de pesadelo americano.

Esse segundo episódio trabalha essa questão do sonho através das ambições dos personagens. Existem aqueles que querem mudar de vida, outros querem se dar bem nela e alguns só querem ter uma vida que corresponda à realidade que eles transmitem para os outros.

Mas no universo de Euphoria, o sonho americano é um ritual de humilhação. E apesar de dizerem que os humilhados serão exaltados, aqui fica bem claro que eles continuarão sendo humilhados. Das mais vis e diferentes maneiras.

Esse contexto se encaixa com perfeição nas figuras de Maddy e Cassie.

A primeira sempre teve um faro pra encontrar a oportunidade perfeita, a capacidade de enxergar as fraquezas do rival e explorar isso até o final. É uma característica que casa perfeitamente com as ambições dela de ascender na escada social, de conquistar o poder que ela quer e acha que merece.

Mas ao conquistar isso com algo que bate diretamente com o que a sustenta, ela se vê num dilema entre profissão e moralidade.

Moralidade. Cassie na tentativa de ser aceita joga fora completamente sua moralidade, se humilhando do modo como for possível pra conseguir a validação que ela sempre buscou, seja nas relações familiares (com o pai), nas românticas (com Nate) ou com o mundo (pela beleza).

É interessante ver o modo como a trama prepara o terreno para que Maddy se vingue, mas ao mesmo tempo também ajude Cassie a conquistar o que ela tanto quer. 

Falando em Nate, a humilhação é uma constante em sua vida. Seja pela figura do pai ou, agora na vida adulta, em seu fracasso profissional. Ele passa uma imagem de sucesso, tem a lábia pra conquistar mais um tempo pra colocar seus planos em prática, mas tudo sempre acaba sendo minado pela “incompetência” dos outros. Mas na verdade o incompetente é ele.

Rue continua nessa via crucis de decisões ruins e agora atua como faz tudo num clube de strip. É algo interessante pra mostrar uma certa evolução na personagem, que vê na figura de Angel o que ela era até então.

Mas se no conceito a série começa a acertar, na execução é que ela continua sendo problemática.

Toda a questão do xingamento do porco, uma gordura narrativa que comeu quase 15 minutos dos 50 minutos de episódio, não serviu pra nada. Se o intuito era criar um embate entre Alamo e Laurie, tendo Rue como vértice, falharam de maneira gigante. Tudo poderia ser feito de maneira mais elegante.

Mas é pedir demais que Levinson demonstre elegância narrativa, quando a mão pesada dele está em todos os quadros.

Não há estrutura teatral, fotografia ou trilha sonora que desvie a atenção do público dos problemas em que Euphoria se meteu. Enquanto os personagens se humilham pra conquistar aquilo que querem, nós, o público, também nos humilhamos na esperança de que algo de bom saia daí.

Dose 1: Madre mia, Rosalía! Tinha tanto projeto bom pra começar uma carreira de atuação e tu escolhe logo isso?

Dose 2: Será que Eric Dane será uma presença recorrente durante essa temporada?

Dose 3: Preguiça desse plot sugar baby da Jules. 

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorDrag Race 18: Corrida alcança a maioridade sendo inconsequente e instável
Próximo artigoNa inquisição do BBB 26, venceu a bruxa
Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
euphoria-3x02-america-my-dreamNão há estrutura teatral, fotografia ou trilha sonora que desvie a atenção do público dos problemas em que Euphoria se meteu. Enquanto os personagens se humilham pra conquistar aquilo que querem, nós, o público, também nos humilhamos na esperança de que algo de bom saia daí.