Caro leitor, se você chegou a este ponto da história, devo lhe pedir que pare por aqui mesmo. Os órfãos Baudelaire sobreviveram a todo tipo de infortúnio, passaram pelas mais desesperadas desventuras, e fizeram tudo isso de forma estoica – palavra que neste contexto significa: “foram muito mais longe do que qualquer trio de irmãos jamais conseguiria ir”, mas não há qualquer motivo para você ser estoico. Não será vergonha nenhuma e ainda não é tarde demais para você largar essa história terrível e ir acompanhar séries mais furtivas que existem no catálogo deste serviço de streaming que se encarregou de disponibilizar a história dessas crianças.

Enquanto avança substancialmente na trama de C.S.C. e a busca por respostas (e um certo açucareiro) chegam ao seu auge, os irmãos se veem salvos por um submarino que está ligado à organização secreta e lá dentro encontram a jovem comandante Fiona, que chama a atenção de Klaus. É interessante notarmos que nas primeiras linhas de diálogos já temos subtextos complexos e atuais, como o feminismo, quando Fiona questiona se o motivo do estranhamento dos irmãos em ela ser a comandante é por ela ser mulher, e Violet explica que é por ela ser jovem, subtexto que fica ainda mais claro quando o diálogo é replicado mais para a frente com o Conde Olaf e Esmé e eles deixam claro que ao contrário dos irmãos, eles estão surpresos pelo fato sim de ela ser mulher (mesmo Esmé se considerando a comandante do Carmelita até momentos antes e isso ser usado como piada), demonstrando a agilidade do roteiro em fazer sacadas rápidas e sem medo nenhum do autodeboche.

Assim como acontece nos livros, conforme a trama avança, as situações vão ficando mais complexas e personagens outrora secundários, que aqui significa “que não tinham muitas camadas nem background”, vão também sendo aprofundados, como é o caso do Homem Com Mãos de Gancho, que agora sabemos se chamar Fernald. Não apenas o capanga ganha diversas nuances como protagoniza uma das reviravoltas do arco e ainda solta um discurso para os órfãos demonstrando que não existe preto no branco, e o mundo não é uma dicotomia de contos de fadas. Claro que para os Baudelaire se sentirem em um conto de fadas, eles teriam que ter um final feliz, e conforme você vem sendo avisado desde o começo, caro leitor, isso não acontecerá. Se você está em busca de uma história com final feliz, sugiro ler sobre uma princesa presa no alto de um castelo que jogava suas longas tranças para que o príncipe subisse na torre, ou então uma história sobre uma jovem que come uma maçã envenenada e vai morar com sete homens de tamanhos diminutos. Aviso novamente que se você prosseguir com esta história, sua recompensa ao final será apenas lágrimas nos olhos e sentimentos de desespero constantes.

Não apenas o capanga do Conde Olaf ganha mais camadas, mas os próprios protagonistas também evoluem, e podemos sentir isso em especial na Sunny, que passou de uma bebê mordedora esperta para uma bebê cozinheira esperta. Para além de suas habilidades notáveis, podemos perceber também sua inteligência, demonstrando o mesmo nível de raciocínio que seus irmãos mais velhos e mais inteligente que muitos adultos que ela encontra. Além de elaborar planos por conta própria, seus dotes culinários também a salvaram de morrer envenenada por um fungo extremamente mortífero.

Quem também vem ganhando bastante destaque é Carmelita Spats, e não há como não elogiar a performance de Kitana Turnbull, que abraçou a personagem e consegue imprimir todas suas nuances. Carmelita é a típica personagem bisbórria, aquela que amamos odiar. Suas interações com Esmé e Olaf também são dignas de nota e a química entre ela e os seus pais adotivos é inegável.

> FRIENDS, a série que ajudou no meu INGLÊS!

A série continua apresentando um ótimo valor de produção, se destacando principalmente no departamento de arte. Os figurinos e locações têm se mostrado incríveis e de suma importância para que possamos embarcar (sem trocadilho intencional) em todo esse universo criado. E eles construíram tão bem a identidade visual da obra que mesmo quando a Sunny é visivelmente um boneco no colo da Violet, esse detalhe não nos afasta da série nem causa estranhamento.

Muitas coisas podem causa ataques de pânico e fazer com o que até mesmo os mais corajosos acordem no meio da noite, gritando de agonia e desespero e suando frio. O fungo Mycelium medusóide que quase tirou a vida de Sunny é um deles. Um ator de teatro que pratica incêndios e que tem como filosofia de vida combater fogo com fogo é outro. Uma outra coisa ainda pode ser uma enorme criatura marinha em formato de interrogação, mais perigosa do que tudo que já apareceu até aqui, chamada de O Grande Desconhecido. Porém nada causa mais arrepios do que a própria história dos irmãos Baudelaire. Considere este seu último aviso: Não avance mais, pare por aqui mesmo. Eu fiz o juramento de comentar os aspectos desta série de televisão horripilante, e ainda devo escrever a crítica d’O Fim. Espero, do fundo do meu coração, que você não esteja lá para ler, pois terá abandonado tão desgraçada história. Se você prosseguir até O Fim, será o fim de sua alegria.

Comentário Sobre Celebração: Era aniversário de Violet, e praticamente passou batido. Assim como o aniversário de Klaus, a órfã nem percebeu que dia era. Violet agora tem 15 anos.

Cumprimento à Sagaz Caracterização: Os vestidos da Esmé Squallor são um arraso. Ela, como sempre, muito in. E a piada da troca de roupa foi muito oportuna também.

Conhecimento Solene de Codinome: A terceira irmã Snicket foi oficialmente apresentada. E assim como Jacques, na segunda temporada, ela teve muito mais ação para ter sua importância salientada na trama.

Crítica Sensata do Contraste: Na série, o Capitão Widdershins (traduzido nos livros como Capitão Andarré) está desaparecido e Fiona toma conta do Submarino, não aparecendo fisicamente em nenhum momento. No livro, o personagem está presente e desaparece, junto com Phill, no meio da história.

Caçadores Solidários de Citação: Conforme explicado por Klaus, o nome do fungo, medusóide, faz referência à criatura da mitologia grega Medusa. Mas essa nao é a única referência ao mito grego: o nome da gruta é uma referência à Górgona, que era o nome dado ao tipo de criatura que a Medusa pertencia, monstros de aspecto feminino e com serpentes no lugar de cabelos, que petrificavam qualquer um que olhasse em seus olhos.

Caçadores Solidários de Citação [2]: O nome do submarino do padrasto de Fiona e Fernald, Queequeg, é uma referência à obra Moby Dick. Lembrando que o livro foi escrito por Herman Melville, que era a imagem usada no uniforme de tripulação do submarino.

REVISÃO GERAL
Nota:
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desventuras-em-serie-3x03-04-a-gruta-gorgoneaA história se adensa e chega e estar próxima ao seu clímax. Fuja enquanto há tempo, pois nada de bom acontecerá nos próximos capítulos.