Caro leitor, esta é a última review, de uma longa série de reviews que se dedicaram a contar os aspectos pavorosos deste verdadeiro show de horrores. Se você chegou até aqui, peço que pare. Se você ignorou todos os avisos – e tenho certeza de que eles não foram poucos – e assistiu até o último episódio desta história repleta de perfídia (palavra que nesta frase quer dizer “cheia de maquinações grotescas para prejudicarem três crianças órfãs”), não há motivo algum para prolongar seu sofrimento. Sugiro que feche esta aba de seu navegador e vá procurar coisas mais agradáveis, como testes online para descobrir como será seu novo ano.
É provável que alguém já tenha lhes contado o ditado que diz “filho de peixe, peixinho é”. É um ditado que diz que muitas vezes os filhos herdam costumes ou manias de seus pais. Após descobrirem o motivo da cisão de C.S.C., e que mesmo o lado nobre da cisão pode cometer atos questionáveis (incluindo sua própria mãe), a bússola moral dos órfãos já não sabe exatamente para qual lado está apontando. Bússola, como você bem deve saber, é um aparelho usado para saber qual a direção certa a se seguir. Logo, “bússola moral” é aquela vozinha na nossa cabeça que nos diz como agir em determinadas situações. Tentar empurrar Olaf em alto-mar já no início do episódio exemplifica bem o caso.
Em um episódio que traz apenas um dos personagens secundários, notamos que os novos introduzidos não fizeram muita diferença, com exceção, claro, do Ishmael. O facilitador da ilha tem uma participação relativamente breve, mas serve principalmente para amarrar algumas das principais pontas soltas da trama, conectando o início de C.SC., alguns de seus objetivos primários e fazer relação entre a ilha e os pais dos Baudelaire. Aliás, essa é a principal função de todo o último episódio em si, terminar de amarrar algumas pontas soltas e trazer O Fim para essa história.
Existe um outro ditado, que você também já deve ter ouvido, que diz que “sempre há uma primeira vez para tudo”. A ambientação do episódio, pela primeira vez, se torna um problema. Tudo bem que a série não possui um dos maiores orçamentos já vistos, mas isso nunca impediu que ambientações mais complexas fossem feitas de forma crível (vide os submarinos de A Gruta Gorgônea, tanto interna quanto externamente, por exemplo). A tempestade, as águas do mar e o croma key do fundo estavam particularmente falsos nesse episódio, mesmo para o padrão da série, e dessa vez isso me tirou um pouco da história e do que estava acontecendo.
Também pela primeira vez, não tivemos um episódio duplo. Normalmente as séries encerram com episódios em two-parts para poderem amarrar todas as pontas soltas e dar o encerramento final sem precisar ser muito apressado, e Desventuras em Série vai pela via oposta, trazendo um episódio único para encerrar a história. Quando li que o series finale não seria duplo, achei que ele fosse ter uma duração maior para compensar, mas isso tão pouco aconteceu. E olha que o ritmo saiu surpreendentemente bem, sem ficar corrido demais e sem cortar nenhum acontecimento que não fosse essencial para o encerramento da obra. Algumas passagens, como a morte de Olaf e Kit Snicket poderiam ser um pouco menos apressadas para potencializar ainda mais o momento dramático dessas cenas, porém isso implicaria em embarrigar o episódio caso o formato padrão se mantivesse.
Muito antigamente, no teatro grego, era comum no final de uma tragédia vir um personagem divino, descendo de um pesado maquinário, resolver a problemática da peça, um recurso que ficou conhecido como deus ex machina, que, bem, literalmente significa “deus surgido da máquina”. Sempre que uma solução mirabolante aparece do nada, dizemos, portanto, que se trata de um “deus ex machina”. Muitos espectadores podem reclamar que a ilha que os órfãos Baudelaire naufragaram, entre tantas, ser justamente uma ligada à C.S.C. é um deus ex machina. Outros podem observar que Ishmael, um personagem que nunca apareceu antes, dar o fim definitivo ao Olaf para que as crianças não tivessem que cruzar essa linha, se trata de um deus ex machina. E há ainda outros que podem se queixar de ter uma planta híbrida de maçã com raiz-forte plantada pelos Baudelaires pais justamente para enfrentar o Mycelium medusóide naquela ilha também se tratar de um deus ex machina. E nenhuma dessas pessoas estaria errada. O final abusa demais do recurso, mais do que o limite tolerável para qualquer um que tenha aversão a finais preguiçosos, mas para essas pessoas, devemos lembrar do velho ditado que diz que “a viagem é mais importante que o destino”. Mas em se tratando dos Baudelaires e sua trágica história, a viagem tem um Mau Começo, com um terrível meio e um apavorante final. E você foi avisado desde o início, e escolheu estar aqui mesmo assim.
A forma como o episódio trabalha suas sub-tramas é sutil porém eficiente. Não precisa de muito para nos mostrar que apesar do seu jeito calmo e aparentemente pacífico, Ishmael governa a ilha com mão de ferro, privando que os ilhéus pensem por conta própria ou tomem alguma decisão por si mesmos. O cordial de coco é um opiáceo usado para manter todos servis, algo que pode ser lido como analogia moderna aos diversos facilitadores que nos mantém nas rédeas e dentro do sistema. Além disso, seja pelo opiáceo ou não, podemos novamente perceber um certo comportamento de manada nos ilhéus, algo que a série já explora faz um tempo. Uma das principais características que envolvem nossos protagonistas – e também os membros de C.S.C. – é que apesar de seus altos e baixos, eles sempre mantêm uma postura crítica quanto aos acontecimentos ao seu redor, produzindo linhas de pensamentos próprios. Desventuras em Série se trata, em última instância, de uma ode à todxs aquelxs que produzem conhecimento, através de especializações em áreas de interesse. Cada membro de C.S.C. tem um talento muito particular que é utilizado em prol da organização e do mundo (ao menos idealmente falando). Tanto que personagens que não tem interesse em literatura, arte ou algum tipo de ciência ou são os vilões da história ou são personagens demasiados obtusos que apenas repetem chavões e clichês, sem um pingo de senso crítico, como o Sr. Poe, por exemplo.

Algumas pessoas que tenham chegado até o fim de O Fim, além de chorosas e tristes, podem ficar um pouco frustradas por nem todas as perguntas terem sido respondidas. A principal que fica é: Afinal de contas, o que aconteceu, depois de toda essa trajetória, com os órfãos Baudelaire? Não sabemos. E embora possa parecer um final preguiçoso, devemos nos lembrar de que faz sentido com o que vem sendo contado pela trama desde o começo, afinal, a história é das crianças, mas ela está sendo contada pela perspectiva de Lemony Snicket, e a gente só recebe as informações que ele tem. Como podemos esperar ter a imagem completa quando o contador não tem todas as peças do quebra-cabeça? Essa é mais uma forma inteligente de Daniel Handler quebrar o padrão de contação de uma história. Ao transformar seu autor/narrador num personagem atuante da história, permite que ele não seja o típico narrador que sabe cada aspecto daquilo que está contando. Há desinformação, há detalhes que podem não ser confiáveis pois a memória muitas vezes pode ser traiçoeira. Lemony Snicket é, em suma, o narrador mais humano que poderíamos ter para essa história, com qualidades e defeitos como todos nós. Tanto que um dos aspectos que mais nos prende na obra e gera identificação é exatamente esse tom de conversa que ele usa desde o início. Podemos, facilmente, nos imaginar ao redor de uma fogueira com ele, ouvindo cada detalhe de todas as desventuras vividas por Violet, Klaus e Sunny.
Prezado leitor, há um outro ditado que diz que nada é eterno. Nem nossas alegrias, nem tão pouco nossas tristezas. Muitas vezes embarcamos numa jornada totalmente no escuro, sem sabermos como ou quando ela irá terminar. Há três anos, eu me voluntariei, junto a outros nobres reviewers, a escrever as críticas desta série. De lá para cá foram muitas noites sem dormir, chorando copiosamente pensando na desgraçada vida que os órfãos Baudelaire levaram desde a trágica notícia da morte de seus pais naquele fatídico dia, na Praia de Sal. Mas depois de tanto tempo, o sofrimento finalmente chegou ao fim, pois nada é eterno, e tudo um dia acaba. Incluindo nossas desventuras em série.
Comentário Sobre Caracterização: Pela primeira vez na série, ninguém caiu no disfarce ridículo do Conde Olaf.
Condolências Solene das Covas: No lugar onde Kit e Olaf foram enterrados foram deixados uma pedra com a inicial de cada um para identificar os “túmulos”. Nos livros dos universos estendidos da obra, principalmente em Autobiografia Não Autorizada e o spin-off Só Perguntas Erradas, Lemony Snicket frequentemente se refere a personagens da saga principal apenas pela inicial dos nomes. Na árvore genealógica de sua família, cada membro é representado por uma letra, sendo seu Irmão J (Jacques), sua irmã K (Kit) e ele L (Lemony). Olaf também é mencionado por vezes pela letra O.
Curiosidade Sutil da Criação: Todas as dedicatórias que Lemony fez à Beatrice eram dísticos, poema de dois versos também usados por Isadora Quagmire.
Constatação Sobre os Capítulos: Tanto o livro quanto a série termina com um epílogo (embora o da série seja muito mais otimista) chamado de “Capítulo 14”. Isso porque a série é composta de 13 volumes, de 13 capítulos cada.
Constituição da Similaridade da Concepção: Com exceção de O Fim, todos os demais volumes da série, em inglês, possuem nomes com aliteração (mesma inicial de letras): The Bad Beginning, The Reptile Room, The Wide Window, The Miserable Mill, The Austere Academy, The Ersatz Elevator, The Vile Village, The Hostile Hospital, The Carnivorous Carnival, The Slippery Slope, The Grim Grotto, The Penultimate Peril, e por fim The End que quebra o padrão.
Caçadores Solidários de Citação [1]: Ishmael também é uma referência a um personagem de Moby Dick, de Herman Melville. A obra foi referenciada em A Gruta Gorgônea com o nome do submarino e a imagem do autor nos uniformes.
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Caçadores Solidários de Citação [2]: Já Sexta-Feira é uma homenagem a um personagem do livro Robson Crusuoé, que também trata de naufrágios.















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