Big Brother Brasil 20 tem as duas primeiras semanas mais intensas dos últimos anos e estreita sua relação com o público como nunca vimos antes.

Vamos começar esse texto dizendo adeus, de uma vez por todas, ao julgamento do Big Brother como mero aquário de superficialidades humanas. Ah, mas ele não é isso? Sim, claro que ele é. Mas, ele não é só isso. Sempre digo que se houvesse uma edição só com filósofos ou membros da Academia Brasileira de Letras, não demoraria muito a vermos que o que muitos chamam de superficialidade não passa de reflexo e impulso. Ninguém está livre disso. O BBB explora tudo de ruim que uma pessoa pode revelar, mas todo o resto vem junto.

Há muitos anos que o programa tem servido como um espelho do que é a vida quando não estamos vivendo-a e sim observando-a. Isso explica, por exemplo, porque muita gente rejeita tanto os extremos que as edições mostram, com brigas, traições, barracos e mentiras. Isso explica porque famílias acusam os produtores de manipulação, já que ninguém está preparado para observar um ente querido quando ele está inserido numa outra realidade. Somos, todos os dias, um grande processo de edições constantes e mesmo que brademos “eu sou eu mesmo o tempo todo”, reside na declaração a maior mentira da nossa existência. Se fôssemos nós mesmos o tempo inteiro jamais seríamos capazes de viver em sociedade.

Quase como se pretendesse provar esse ponto de vista, a edição número 20 pegou as pessoas mais editadas do mundo e colocou-as à prova de edições que eles não são capazes de controlar. O plot dos influenciadores foi uma grande sacada, não só porque eles têm milhões de seguidores que representam números de audiência, mas porque eles têm muito a perder. Se A Fazenda, da Record, se construiu destruindo reputações de “famosos”, o BBB, pela primeira vez entra na dança, depois de anos destruindo – ou melhorando – reputações de gente que entrava ali em busca da fama. A dinâmica definitiva está montada: anônimos querendo parecer melhores do que são e famosos tentando mostrar que estavam sendo “autênticos” o tempo todo em seus perfis. Ninguém realmente ciente das impossibilidades disso.

A presença dos influenciadores também estreita a relação entre público e programa. Já faz tempo que as redes sociais (principalmente o twitter) tem um papel forte nos resultados e com tanta gente que é cria da internet lá dentro, o espectador nunca foi tão determinante. A saída de Petrix (dias antes da data de um depoimento que o expulsaria de qualquer jeito) foi outra evidência de que o programa leva sim a debates comportamentais que são relevantes socialmente falando, assim como aconteceu diversas outras vezes, mesmo que em resultados negativos como o da vitória de Paula, no ano passado. Entre os exageros comuns no julgamento das situações, está uma argumentação válida sobre até que ponto não estamos sendo negligentes com questões culturais que estão enraizadas e imperceptíveis para a maioria da população.

Heterolândia 

A seleção desse ano foi também uma homenagem aos BBBs de outrora: muita juventude heteronormativa das academias do país. Naturalmente, então, Pyong, o ilusionista asiático, vira o alvo inicial. Essa repulsão tem raízes na dificuldade de aceitar diferenças, mas ninguém lá é capaz de compreender isso. O jogo, pelo menos, anda. E como anda. Em poucos dias, a reputação do ginasta Petrix se desgasta com frequentes demonstrações do quanto ele também não entende que está passando dos limites. E não entende mesmo. Do outro lado, está uma casa inteira que não tem condições de assistir pelo nosso ângulo e que acredita piamente nas edições pessoais que ele promove instintivamente. As mulheres, inicialmente, são as mais fervorosas na defesa ao participante.

Hadson, o ex-jogador de futebol, é a exemplificação maior do ‘hetero topzeira” que entope academias e baladas das grandes capitais. Com mais dificuldades de mascarar seus preconceitos e machismos, entra no radar de participantes mais atentas, como Thelma e Marcela. Marcela, sobretudo, passa a enxergar completamente como a natureza dele é a de ver a mulher como um objeto de entretenimento. E ele, como todos os outros, não tem a menor noção da gravidade do próprio comportamento. Como todo “superhetero” que acha que toda mulher só está esperando a hora de ser domada, Hadson acha que jogar com a carência e fragilidade delas é um privilégio e um objetivo. Que ele, é claro, renega. A partir do ponto que vem à tona, ninguém quer ser rotulado de “macho escroto”.

Fica mais claro quando focamos no comportamento de Flayslane. Ela é uma participante valiosa porque está fora da bolha dos posts milionários, mas está tão dentro da bolha do machismo cultural que chega a ser alarmante. A personalidade dela se constrói a partir de como ela é vista pela perspectiva masculina. Então, ela investe em se aproximar dos homens, já que com as mulheres ela se sente insegura por comparação. Isso resulta numa cegueira absoluta sobre eles. Enquanto todas as outras mulheres estão na sala especulando o papel de Hadson no andamento do jogo, ela é a única entre os rapazes, do lado de fora, defendendo-os. E com os mesmos argumentos típicos do universo da heterolândia: “ele tem um ótimo coração”, “ele é maneiro demais” e por aí vai…

Com duas semanas apenas, o programa mostrou os participantes sendo chamados à atenção mais vezes que em qualquer outra edição e isso também é sintomático. Com metade da casa formada por pessoas acostumadas à celebração constante, a imposição de regras e obrigações esbarra na maneira como eles se condicionaram a agir conforme os próprios interesses. Escravizá-los aos interesses do programa tem sido uma experiência das mais interessantes.

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Fica minha torcida por aquele anônimo que driblar popularidades ou pelo influenciador que conseguir sair ileso. Esses sim, serão os reis da festa.

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