Ana Paula Renault faz história ao vencer a edição 26 do Big Brother Brasil com um jogo cheio de estratégia e carisma. 

Não vamos negar a realidade… O Big Brother Brasil não é um jogo que privilegia estratégia. Ele é um jogo de popularidade. Em outros lugares do mundo, em que o público não tem voz nos resultados, vence quem consegue driblar as eliminações promovidas unicamente pelos participantes. No Brasil não… No Brasil o público é quem toma essa decisão; e em 100% dos casos até hoje, essa decisão nunca foi baseada em razão e sim em emoção. Ansiosa para sair em defesa dos oprimidos, a audiência decide quem é “mau” e dá o milhão para o alvo direto desse “vilão”. 

Foi assim até a temporada 19. Mesmo em edições como a 4 e a 6, em que os vencedores foram pessoas sorteadas que funcionavam como a representação direta do povo; as decisões continuavam no espectro da culpa social. Em edições sem vilões marcantes, o público redirecionava e escolhia aquele que “precisava mais do dinheiro”. Mas a necessidade de se validar moralmente através do programa era tanta, que até mesmo quando a “perseguida” era uma mulher claramente racista, a audiência majoritária escolheu premiá-la. 

As coisas tiveram uma pequena mudança a partir da edição 20, que trouxe a internet de maneira ainda mais massiva para dentro dessa receita. Pela primeira vez, a parte do público que queria premiar pessoas que fugissem um pouco da estratégia do coitadismo tinha uma certa voz. Por isso, não tivemos nem um “heroi” e nem um “vilão” vencendo naquele ano. Telma era a escolha mais justa entre os finalistas, seguindo essa mesma ideia de que ela “merecia mais” porque não era famosa como as outras. Mas, ainda que o raciocínio assistencialista estivesse ali, ele sofreu com o choque entre esses dois lados da audiência (o que quer premiar o coitado e o que quer premiar o transgressor). 

Na edição 21 houve a convergência absoluta de interesses. Juliete não era uma heroína comum, mas ainda era uma perseguida. O “julgamento” do público sobre ela era de que mesmo que fosse uma protagonista constantemente atacada, ela não se comportava exclusivamente de maneira passiva. Contudo, nas edições seguintes, houve uma torção de impressões e ao invés da audiência sofisticar seu pensamento sobre o reconhecimento das estratégias internas, ela escolheu aumentar a dose de moralismo e foi atrás de mais “oprimidos” para proteger. 

O público que acompanha o programa pela internet foi completamente afetado pela “inquisição” moral que ronda as redes sociais. O BBB virou um longo julgamento televisionado, em que os “inquisidores” iam de vila em vila queimando todos os que supostamente iam contra as leis dos bons costumes em um programa de TV. Tudo era motivo para mandar alguém para a fogueira. Nunca os sentimentos dos tuiteiros estiveram tão à flor da pele. Houve quem tenha ido para a fogueira por declarações realmente graves (como Solange Couto), mas também houve quem foi “queimada” apenas por não ter nenhuma autocrítica (como Sarah). A diferença está nos interesses de cada lado. A eliminação de Sarah era positiva para os fãs de Ana Paula, mas não podemos ignorar jamais que uma participante delusional como Sarah é ouro para qualquer reality show que se preze. 

E essa “caça às bruxas” foi absorvida pelos participantes. Com uma gasolina chamada “pautas políticas e sociais”, eles já entravam na casa acendendo o fósforo. Davi Brito – um dos jogadores mais agressivos nesse sentido – mobilizou o país, especialistas e celebridades, usando de maneira simples a culpa sociopolítica de cada um a favor de si. E outro caso emblemático foram as irmãs Camila e Thamiris do BBB 25, que apareceram com um plano estruturadíssimo para conquistar e depois expor Vitória Strada; tentando de TUDO para jogar a atriz na fogueira dos racistas. 

No BBB 26 isso também apareceu de modo fascinante na figura de Babu. Símbolo da luta periférica, Babu entrou sabendo que essa corrente de banalizações de pautas importantes estava contaminando os elencos do programa. Quando Sol Vegas tentou jogar essa carta de maneira inconsequente, ele foi um dos que mais se aborreceu. Tempos depois, quando percebeu o favoritismo de Ana Paula, ele voltou atrás em TODA sua sensatez e começou a fazer com ela o mesmo que ele criticava. A ideia de jogar com a moral sociopolítica do público era sedutora demais. Babu se queimou nesta estratégia e foi para a fogueira levando seus aliados junto com ele. Chaiany foi a vítima mais chamuscada. 

Embora Babu tenha sido o exemplo mais cabal, todo o lado rival acessou essas armas. Alberto, Jonas, Marciele, Jordana, Maxiane, Aline, Sarah, Edilson, Matheus, Pedro, Brígido… Todos eles passaram seus dias no programa tentando moldar as impressões do público sobre Ana Paula repetindo sempre as mesmas coisas, exaustivamente, até que elas se tornassem “verdade”.  Aliás, talvez devamos a Matheus que essa edição tenha se conduzido dessa maneira. Ele entrou com uma agenda tão evidente de tentar “desmascarar” Ana Paula como uma “farsa”, que foi contaminando todos os participantes que também entraram sabendo coisas sobre ela; e conseguiu plantar a “dúvida” na qual se basearam as atitudes de todos eles dali para frente. 

O episódio da “patroa” foi emblemático. Quando Matheus disse com ares de grande sabedoria que Ana estava “usando” Milena, a narrativa que a “trindade” queria usar caiu no colo deles. Sem saber que estava passando uma grande vergonha, tentaram apontar um comportamento de racismo estrutural em Ana, enquanto eram eles quem estavam nessa estrada. Até mesmo Babu usou esse mesmo argumento na tribuna; esquecendo toda a sensatez que havia demonstrado nos primeiros dias. O racha de Ana com o grupo pipoca foi provocado por omissão. Era como se Ana fosse John Proctor e eles fossem a população de Salém, vendo de maneira convenientemente passiva gente inocente sendo “condenada”. 

Será que alguém que entra no programa consegue se dar bem se não quiser acessar essas fórmulas baseadas em jogo externo moralista? Será que uma “bruxa” consegue sobreviver na inquisição do Big Brother Brasil? 

The New Supreme

Assim como nos tempos da inquisição, em que uma mulher que tinha um comportamento fora das réguas da sociedade vigente era considerada bruxa, Ana Paula era “condenada” pelos rivais porque eles se baseavam em uma visão limitada do que ela representava, e não necessariamente do que ela era. De maneira genial, Ana tomou a decisão de não demovê-los de suas impressões e deixou que eles fizessem um julgamento por dia; que eles prometessem o fogo da fogueira a cada novo movimento do jogo; porque, dessa maneira, o público veria de maneira cabal quem eram os “demônios” dessa vila. Uma das estratégias mais brilhantes de qualquer reality show do mundo. 

Ana Paula Renault foi protagonista em um nível que impressiona até os mais céticos. Em grande parte porque tratou seus rivais com mais cortesia do que foi tratada. Enquanto sofria acusações que nunca correspondiam exatamente aos seus atos, ela mantinha os embates dentro do limite do jogo interno. Ela evitava dar adjetivos severos aos rivais e preferia apelidos zombeteiros. Esses apelidos foram tão marcantes que Jonas e Maxiane fazem dinheiro até hoje usando-os. A única vez que perdeu a linha foi quando Alberto tentou usar o pai dela como argumento em uma discussão. E todos nós sabemos como as coisas terminaram para ele depois. 

Numa edição dominada por veteranos, Ana Paula foi a única que não caiu no erro (o deboche, a arrogância fingida e as provocações são parte do jogo). E foi fácil cair no erro dessa vez… Expulsões numa quantidade nunca antes vista; evacuação por motivo de saúde; falas tão problemáticas que poderiam ser eleitas como algumas das piores já ditas em um reality show. Mesmo assim, esse cenário caótico fez parte da razão pela qual a produção decidiu abrir mão do tal “laboratório”, criado somente para garantir que eles pudessem mexer no elenco caso as coisas não funcionassem. Era um elenco tão comprometido, que nós conseguimos até mesmo acabar com o imbecil twist do “na mira do líder”. 

Do começo ao fim, foram os veteranos que ditaram como a narrativa se desenvolvia. Ana como alvo; Alberto como catalisador da rivalidade. Jonas como braço direito e Sol e Sarah como soldados. Babu até tentou correr por fora, mas acabou – como já dissemos – traído por si mesmo. Os camarotes nos entregaram a lealdade de Juliano; mas com Edilson e Solange o saldo foi apenas terrível. Aline saiu assim que começou o programa e Henri nem chegou a participar efetivamente. Mas, mesmo que os veteranos tenham dominado a narrativa, os pipocas esse ano nos presentearam com Tia Milena; uma das pessoas mais fascinantes e maravilhosas que já pisaram naquela casa. 

No VT sobre ela exibido na segunda-feira, ficou extremamente claro como esses 100 dias amadureceram Milena ao ponto de não reconhecermos mais quem era aquela menina que regia tão intempestivamente a tudo. A ligação com Ana Paula foi marcante sim, mas Milena existiu individualmente de uma forma tão intensa. Aos poucos, foi demonstrando mais controle do jogo, mais coragem, mais humor, mais personalidade que qualquer pessoa lá dentro. Mas, é claro que a transgressão em seu DNA também a faziam uma “bruxa” ainda mais condenável que Ana Paula. Milena viveu o BBB como uma pessoa sem preocupações com como seria vista, sem medo de errar, com toda a vontade de alguém que está diante da oportunidade mais valiosa de sua vida. Ela merece o mundo. Se tivesse vencido, teria sido tão lindo quanto. 

Depois de ter conseguido derrubar cada um de seus inquisidores; Ana Paula se viu numa semana em que os pontos de tensão pareciam deslocados. Milena e ela entraram num embate porque Milena estava entregue ao contentamento de ter vivido o programa; e Ana deixava de entender que não era mais hora de tensionar mais o jogo. Nos últimos dias o público gosta de relaxar. Aqui fora, nas redes, duas torcidas extremistas se matavam para demonizar uma contra a outra; sem contar que o BBB 26 teria um reta final que honraria os significados mais castiços da palavra “imprevisibilidade”. 

Sabemos que Ana Paula tem a dor dela acima de qualquer panorama televisivo. Mas, ela mesma se questionava: “que roteirista é esse?”. No domingo, seu pai faleceu e o que vimos no episódio seguinte foi uma das experiências mais catárticas da televisão brasileira. A conversa com Juliano; a troca de afeto com Milena sem Milena saber de nada; a explosão depois da saída de Boneco; ali mesmo, no jardim… e a entrada emocionada de Tadeu Schmidt que revelou para eles ter perdido o irmão Oscar no dia anterior. Os Eternos tinham chegado até o final, mas a jornada da protagonista era tão poderosa, que chegava aos momentos derradeiros da narrativa vivendo a dor e o sacrifício, tal qual as grandes heroinas da literatura mundial; trazendo para si a empatia e a admiração de toda uma nação. 

Os efeitos foram inesperados. A dor da perda do pai aproximou Ana dos amigos ainda mais; a fez ver a final pela ótica apegada de Milena; e terminou de DESTRUIR as falácias de seus rivais; que passaram meses acusando-a de “desumanidade”. Um ciclo completo. Inquisidores aniquilados; “bruxa” salva da fogueira… vimos a ascensão de uma nova suprema. 

O BBB 26 foi sim a edição mais especial até agora. Ela mostrou que o elenco é o mais importante nessa receita, porque a estrutura estava lá, atrapalhando como sempre, mas eles fizeram um programa brilhante apesar dela. Vai ficar difícil para as próximas… mas achamos a mesma coisa depois da edição 21. Pode demorar, mas sempre pode acontecer. 

Para terminar quero dizer para Ana Paula, Milena, Juliano, Boneco, Jordana, Marciele, Gabi, Samira, Chaiany, Breno, Marcelo, Maxiane, Paulo Augusto, Jonas, Alberto, Babu, Sol, Aline, Sarah, Edilson e até Matheus e Solange; que vocês fizeram história e que para o bem ou para o mal, serão inesquecíveis. Ana Paula só foi o que foi porque os rivais ajudaram. Os rivais só foram o que foram porque tiveram Ana Paula como inimiga. 

 

Mas, o BBB 26 sempre foi dos Eternos. São eles que vão nos emocionar nas nossas memórias; e na nossa fuga constante das porradas da vida, fica a gratidão pelos momentos de escape. 

Ana Paula, você foi a maior. 

Um abraço virtual (e espero que um dia presencial) cheio da minha mais pura admiração. 

Que venha o 27.

BBBNotes:

  • Reclamei muito do Tadeu e acho realmente tudo que falei. Mas, o carinho por ele foi renovado diante de momentos tão ternos nos últimos dias. 
  • Acabamos com Na Mira do Líder. Não custa sonhar com menos patrocinadores. Se não ouvir a palavra “cupom” por um tempo eu tô de boa. 
  • Feliz pelos pós da Maxiane e do Jonas. Torço para que Jordana seja igualmente inteligente. 
  • AMEI o Bate Papo BBB e acho Ceci uma apresentadora competentíssima. 
  • Milena votando… Como vou viver sem isso? 
  • Como será que teria sido se Henri Castelli tivesse continuado? 
  • O FanFic BBB segue sendo o melhor quadro do programa. As edições de terça-feira são irretocáveis. 
  • Nunca mais o mesmo participante ganhando líder consecutivamente. 
  • Discurso do Tadeu… poderia ser melhor.
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