Vitória de Renata na final do BBB 25 vem carregada de uma dúvida inconveniente: 1 pessoa votando 20 vezes tem o mesmo valor que 20 pessoas votando individualmente?
Quando o Big Brother estreou, em 2002, ele tinha um sistema de votações que permaneceu o mesmo até o BBB 17, onde ainda era possível fazer ligações telefônicas ou enviar mensagens de texto para escolher quem você queria ver fora da casa. Como a ligação gerava um custo, era seguro dizer que a proporção de paredões afetados diretamente por torcidas organizadas era menor. Os favoritos ainda existiam, mas representavam um consenso geral.
Mesmo assim, o primeiro sinal de organização assumida surgiu bem antes disso, no BBB 10, protagonizado por Marcelo Dourado (que tem o mesmo nome do atual diretor do programa). Marcelo era escudado por uma torcida que se autodenominava Máfia Dourada; e que ganhou até reportagens na TV para falar de seus planejamentos de votação. Na época era possível votar pela internet também, mas estamos falando de 2010, quando smartphones ainda nem eram populares no mercado.
A Máfia Dourada funcionou; e anos depois, Pedro Bial chegou a dizer em uma entrevista que aquela organização chocou por seu discurso agressivo e fascista; um reflexo direto das declarações homofóbicas e machistas de Marcelo (das quais ele já disse em entrevistas que se arrepende). De qualquer forma, daí em diante ainda houve movimentos grandes de proteção a determinados participantes, mas provavelmente a torcida de Paula, no BBB 19 tenha sido a segunda vez em que a imprensa olhou de volta para essas organizações, porque Paula estava sendo protegida mesmo depois de um comportamento de racismo estrutural.
Assumidamente mesmo, com nome e tudo, a torcida de Juliette no BBB 21 foi o pontapé para o que seguiu-se de lá até aqui. Os “Cactos” estavam em sintonia com o público geral na maioria das vezes, o que ajudou um pouco a diluir a sensação de controle do jogo. Mas, talvez Gil jamais tivesse sido eliminado no penúltimo paredão, se o grupo de fãs não tivesse trabalhado pela eliminação dele por medo de que sua presença na final diminuísse as chances de Juliette. O fato dos dois terem tido uma relação complexa também contou. Quando eles precisaram agir contra a vontade geral, eles agiram.
Sabendo desse poder, Maíra Cardi – então esposa de Arthur Aguiar – armou um esquema para garantir a vitória do marido (mesmo depois de ser traída mais de 16 vezes por ele, supostamente). Arthur – que jogava na retranca – venceu. No ano seguinte, na edição 23, a torcida enxergou Bridget Jones na figura da sonífera Amanda; que jamais configurou um romance com o colega Cara-De-Sapato, mas ganhou o programa por causa desse delírio. Na edição 24, Davi também foi protegido por torcidas organizadas, mas foi o que estava mais próximo de uma resposta geral da audiência. Sua torcida agia mais criando conteúdo tendencioso ou mentiroso, do que necessariamente com votos.
Na vez de Renata, o cenário não era muito diferente dos últimos anos. Renata é um pouco mais ativa do que Amanda (vencedora feminina antes dela); vencia provas, tinha uma notória vontade de vencer. Mas, como geralmente acontece com pessoas que tiveram uma história de disciplina (e o ballet exige muita disciplina), Renata começou o programa vendo tudo por uma ótica quase unicamente atlética; deixando de lado o aspecto social do programa, que exige comprometimento em conflitos.
A partir do ponto em que a dinâmica do shopping aconteceu, a bailarina soube que havia uma chance de estar sendo protegida por uma torcida e isso a compeliu a enfrentar Aline, a rival que sua torcida escolheu para ela. E aí começam uma série de questões a respeito de como essa torcida ajudou a construir uma narrativa perigosa, que expõe Aline (uma mulher preta) como personalidade combativa “agressiva e vulgar” e Renata, a mulher loira de olhos claros como símbolo da “sensatez” e “bondade”. O argumento de que “Aline tinha ciúme de Renata” é um dos maiores sinais dessa viagem da superioridade.
Todos sabemos que a audiência do BBB tem dois pesos e duas medidas. Quando Davi infernizou a casa inteira no ano passado, ele era defendido. Quando Aline ligou o modo confronto na força total, foi eliminada (e pela torcida, vale lembrar). E Aline era muito, mas muito melhor pessoa que Davi. Contudo, ela era considerada rival da favorita e mesmo que fosse canonizada como símbolo de generosidade, isso não contaria em nada, porque ao passo em que argumentos sobre o trabalho voluntário de Renata são usados para defende-la, qualquer filantropia de um rival é devidamente ignorada.
Esse também é um problema da fórmula do programa: esse ano Tadeu só faltou implorar para que todos se enfrentassem, mas quem fez isso – com exceção dos aliados de Renata – foi para a rua. Apatia é permanência. Dentro de uma dinâmica que é mais social que competitiva, alianças importam e sinalizam o tipo de participante que está se construindo no programa. Renata teve os piores. Os gêmeos, Maike, Gabriel e até Dona Vilma, sustentavam posicionamentos machistas, retrógrados, conservadores, elitistas e que teriam sido abominados pela torcida se a favorita não estivesse entre eles.
O Big Brother vive um momento em que tudo é negócio. O formato virou um cabide de marcas que são mais importantes que enredos; as provas são a tortura do merchandising e os participantes entram almejando tornarem-se o novo Gil, a nova Bia ou a nova Juliette; e ou jogam na retranca ou entram numa de cavar a narrativa do incompreendido. Thamiris e Camilla se afundaram no processo de tentar comprometer Vitória justamente por isso.
Vitória, aliás, teve uma trajetória melhor como participante do que qualquer um dos finalistas. Ela entrou com um amigo que não era tão amigo assim; o que já foi seu primeiro enredo. Foi por semanas vítima de uma organizada tentativa de transforma-la em uma mulher racista e escapou disso com inteligência (razão pela qual saiu com a imagem fortalecida); o que foi seu segundo enredo. Abandonou os aliados ruins e juntou-se com os melhores; criando uma conexão comovente e divertida com Diego; o que foi seu terceiro enredo. Brigou com os gêmeos, enfrentou os dois, mirando direitinho em dois participantes odiosos. Além disso, foi líder duas vezes e transformou o Castigo do Monstro em mais uma oportunidade de mostrar carisma e humor. Teve os posicionamentos certos, nunca aderiu ao rótulo de perseguida, nunca perdeu o bom senso e fez tudo isso sem precisar de interferência externa.

Importa? Nem um pouco. As regras do programa permitem que todo mundo possa votar 5 mil vezes se quiser. E tal qual nas eleições americanas, acontecem aberrações como a desse ano, em que Guilherme (um participante com muita inteligência emocional e panorâmica) vence pelo Voto Único (ou seja, votos de pessoa por pessoa) e perde pelo voto de torcida, que pode definir um vencedor mesmo que seja formada por um número menor de indivíduos. É muito esquisito.
A vontade do espectador geral não tem mais peso no programa. Grupos organizados decidem os resultados e o que acontece dentro da casa não importa mais. Renata é ótima pessoa e teve uma participação regular, mas ela nem de longe construiu sua trajetória por conta própria. A torcida, daqui de fora, segurou em sua mão e disse: vamos botar você no shopping, vamos dizer o que você precisa fazer, vamos eliminar até sua melhor amiga para que ela não viva a experiência da final e não te ameace, vamos eliminar seus rivais e você não precisa fazer nada; senta e espera. A torcida decidiu a vitória de Renata… e também esvaziou seu mérito.
Isso é culpa da Renata? De modo algum. Ela não tem culpa de ter sido escolhida. O que precisa mesmo mudar é o Big Brother como um todo. Nada mais de voto de torcida, nada mais de marcas consumindo nossa paciência, nada mais de Tadeu Schmidt e sua visão infantilizada das coisas; nada mais de twists que impedem o participante de articular; nada mais de nada disso. Ou muda tudo ou todo ano vai ser a mesma coisa.
Toda sorte do mundo para a Renata e que esse dinheiro ajude muito ela. É possível aceitar essa vitória e admitir que ela foi injusta ao mesmo tempo. É possível reconhecer que Renata é uma ótima pessoa e ao mesmo tempo entender que havia participantes melhores… Mas, o BBB não pertence mais a todos nós. Ele foi sequestrado e o resgate seria o recomeço.






















