Vamos conversar sobre horror?

Este é o nosso quinto ranking de melhores episódios de horror e mistério do ano na televisão, fechando o projeto #MêsDoHorror que ocorreu em outubro aqui no site. Assim como no ano passado, deixei para trazer os episódios escolhidos na sexta-feira 13 em vez de apresentá-los no Dia das Bruxas.

O interesse aqui foi trazer um ranking diversificado, que nos mostrasse o alcance dos gêneros e como eles podem ser manipulados por roteiristas e diretores criativos. Temos, assim, diversos formatos, canais e países, compondo um mosaico do que a televisão exibiu nos últimos doze meses.

Este TOP 13 é, há cinco anos, o primeiro ranking de fim de ano a circular no Série Maníacos, já adiantando alguns nomes que veremos na terceira edição dos 100 Melhores Episódios do Ano. Fica o convite para que retornem nos próximos meses e acompanhem nossa conversa sobre televisão em geral.

Antes de começarmos, vale lembrar as regras adotadas na composição do ranking:

REGRAS

É elegível qualquer episódio que foi ao ar entre 01/10/2019 e 30/09/2020, o que justifica o nome do TOP. A data válida é sempre a de transmissão de acordo com a emissora original, no país original — não a que a Netflix, como distribuidora, disponibilizou. Se um episódio for adiantado, indo ao ar na internet, vazado, etc, mas a data oficial de sua transmissão for mantida, ainda assim, será considerada ela. Apenas um episódio por série. De cada série será considerado o episódio que mais se aproximar do ideal do ranking, mesmo que haja algum melhor no período de recorte.

Série que tenha qualquer elemento de sobrenatural e horror já se torna elegível SE o enredo se preocupar com os gêneros de horror e mistério.

Série de crime/mistério se torna elegível se sua temporada girar em torno de um mistério único e este for solucionado em seu final. Sendo assim, o que se analisa no momento de classificar a série ou não ao TOP é seu foco. Séries que mantenham foco no drama desenvolvido a partir da morte e nas consequências, e não em responder as perguntas “quem”, “por quê?” e “como” não serão consideradas. Séries procedurais-um-crime-por-semana, que segue a rotina de uma equipe de investigadores, não serão consideradas também. Séries que sigam essa fórmula, mas tenham elementos sobrenaturais na composição de seus casos, são, como Supernatural.

Séries tecnicamente de ficção científica e fantasia podem ser classificadas dependendo do modo como se desenvolverem. Caso a história dialogue com horror de alguma forma, a série se torna elegível: Doctor Who e Black Mirror são os melhores exemplos, e ambas já estiveram na lista. Qualquer série, mesmo drama ou comédia, pode eleger um episódio ao ranking contanto que siga as demais regras. A série precisa ser ficcional. Ou seja, documentários e biografias não são elegíveis. Séries sobre desaparecimentos não são consideradas. Episódios duplos e divididos em mais de uma parte podem ou não ser considerados juntos de acordo com a idealização dos produtores da série e se forem escritos pelas mesmas pessoas.

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Lembrando sempre que os textos não possuem spoilers, esses são os melhores episódios de horror e mistério do ano:

13Into the Dark, 02×03: “A Nasty Piece of Work” (06/12/2019) [Hulu]

Into the Dark.

Escrito por: Paul Soter // Dirigido por: Charles Hood

Começamos com a estreia de uma série no Série Maníacos. Mesmo a poucos episódios de finalizar sua segunda temporada, nunca conversamos sobre Into the Dark por aqui. Ainda devendo um texto elaborado sobre ela, minha desculpa é que já temos mais de vinte episódios de oitenta a noventa minutos cada, e um texto pequeno que se propusesse a trazer uma visão geral sobre a antologia não faria jus a seu trabalho. Mesmo com episódios bons e outros não tão bons, deve-se sempre celebrar o comprometimento de algumas emissoras e serviços de streaming em abrir espaços para histórias de horror, pouco celebradas em premiações, mas muito procuradas pelo público.

Aqui, a premissa é simples: um episódio por mês tendo algum feriado como contexto, quebrando a lógica de disponibilização estabelecida pela Netflix e diversas vezes seguida pela própria Hulu. No caso de Into the Dark, os assinantes do serviço ficam sempre à espera de como o feriado em questão se transformará em um tema de história de horror. A Nasty Piece of Work, lançado em dezembro de 2019, tem o Natal como o ponto de partida quando dois rivais de uma grande corporação são convidados com suas respectivas esposas para um jantar na casa de seu chefe. Lá, eles precisam provar que são, cada um seguindo suas estratégias, a pessoa perfeita para ocupar uma vaga recém-criada, cujos benefícios elevarão a vida daquele que a conquistar. O único problema: o tal chefe e sua esposa parecem estranhos demais, ácidos demais, calculados demais. Não demora muito para que as coisas saiam do controle e tenhamos seis pessoas em uma situação caótica com grande possibilidade de terminar em tragédia.

O horror funciona muitas vezes como um comentário social, uma provocação. É isso que temos neste episódio que exagera os conflitos do mundo corporativo, mas não os coloca tão distantes da realidade. Mesmo que (talvez) não tenhamos tal situação na vida real, temos o mesmo jogo de aparências, a mesma pressão por comprometimento e a mesma devoção mostrados no episódio. Este, ainda, consegue mostrar a versatilidade da série ao inserir muito humor em um drama que ameaça ter sérias consequências para todos os envolvidos. Enquanto outros episódios parecem muito sérios, mergulhados em uma atmosfera sufocante, A Nasty Piece of Work utiliza o ridículo das situações propostas pelo roteiro para equilibrar o tom de sua narrativa, o que torna o episódio divertido e com bom ritmo, mesmo na duração que possui.

Começamos com um episódio que não utiliza o sobrenatural como instrumento para compor sua história, mas nos deixa a sós com humanos e suas confusas doutrinas. Ninguém aqui está lutando por sobrevivência, seguindo seus instintos ou lidando com um mal que ameaça suas vida; estão sendo controlados e tentando controlar situações que a cultura contemporânea do mercado de trabalho impõem às pessoas. Acaba falando sobre ambição, inveja e egoísmo, ingredientes perfeitos para uma história de mistério.

12Mr. Mercedes, 03×06: “Bad to Worse” (15/10/2019) [Audience]

Mr. Mercedes.

Escrito por: David E. Kelley & Jonathan Shapiro // Dirigido por: Jack Bender

(Spoilers moderados.)

Na terceira e provável última temporada de Mr Mercedes, temos um interessante problema nas mãos dos roteiristas: o que fazer quando o antagonista não faz mais parte da história? Quando ele é vencido, esquecido ou simplesmente desaparece, o que podemos fazer com a narrativa? A série da Audience pegou essas questões, adaptadas da trilogia de livros de Stephen King, e conseguiu resolvê-la, entregando-nos dez episódios sobre justiça e trauma, desafiando nossa percepção de tais nomenclaturas. Temos uma temporada em que a série ameaça se tornar um drama de tribunal, mas contorna esta possibilidade ao nos dar novos antagonistas e novos conflitos. Seguimos, portanto, duas histórias que se encontram e se complementam.

No mesmo ano em que American Horror Story apresentou sua pior temporada, foi bom perceber em Mr. Mercedes que outras séries conseguiram voltar à boa forma de seu primeiro ano, com cenas grotescas e conflitos perturbadores que não o são como apenas ostentação da televisão e sua tecnologia atual. Aqui temos o que The Sinner tentou fazer também em sua terceira temporada, pois vemos o detetive protagonista em reflexões existenciais e melancólicas que são bem guiadas por um roteiro com bons diálogos e um ator tão competente (Brendan Gleeson) que sabe utilizar até o próprio sotaque para construir sua personagem. Sentimo-nos mais próximos e torcendo por essas pessoas tão diferentes, mas que, à essa altura, parecem fazer parte do mesmo grupo, da mesma família.

Em Bad to Worse, a série nos prova tudo o que mencionei anteriormente: sabe criar um dos momentos climáticos de sua temporada a partir de dois testemunhos. As atrizes em questão, contando com o texto sensível em mãos, apresentam um retrato crível do que pode permanecer de vestígio quando passamos por uma situação terrível. Aqui, assim como em tantos outros momentos de seu terceiro ano, Mr. Mercedes consegue encontrar a seriedade e o drama de uma história de horror. Enquanto isso, assistimos, em paralelo, a uma dupla percorrer uma jornada macabra e atrapalhada que nos lembra os desastres de Fargo (FX). Assim como a temporada como um todo, o episódio sabe ser sanguinário, imaginativo, explícito, mas também sutil e comedido quando precisa.

Por fim, vale destacar a abordagem que a série faz da literatura e de sua influência. Essa conversa no horror se torna ainda mais especial. Às vezes quase uma piada se pensarmos que é tudo uma adaptação de Stephen King, a conversa sobre legado e paixão não deixa de ser interessante.

11Evil, 01×05: “October 31” (24/10/2019) [CBS All Access]

Evil.

Escrito por: Dewayne Darian Jones // Dirigido por: Tess Malone

O horror é, muitas vezes, uma situação, como o primeiro episódio dessa lista nos mostrou. Isto é, aquele terrível evento que ocorre. O horror também pode ser, como o episódio anterior nos mostrou, uma jornada traumática com consequências diversas aos envolvidos. No caso deste terceiro episódio, apresentamos o horror em outro aspecto: dúvida. Nesse caso, o sobrenatural não se prova irrefutável às personagens em questão, quando fantasmas ou monstros aparecem. Na verdade, o que temos é um embate entre aquilo que parece existir aos que assim creem e a influência de tais crenças aos céticos ao redor. Evil estreou em 2019 batendo sempre nessa tecla, mas apresentando uma temporada divertida e diversificada.

Neste episódio, espécie de especial de Halloween, temos o grupo responsável por atestar ou não a existência do sobrenatural em casos semanais lidando com um exorcismo. É claro, não poderíamos pular este importante tema e expressão da credulidade cristã. Sempre de forma respeitosa, Evil sabe controlar seu texto e sua direção para que nunca pareça zombar da fé das pessoas mesmo que sua protagonista seja uma mulher ateia. Temos um generoso espaço para as personagens que de fato acreditam em demônios expressarem sua lógica e devoção. Bem calculada, a série dá um ar sofisticado ao horror, seja em sua abertura ou em sua trilha sonora. É sem dúvida outro acerto do casal Robert e Michelle King.

Em diversos momentos, October 31 homenageia The Exorcist, filme de William Friedkin que ainda é a principal referência no assunto (ou em filmes de horror no geral) mesmo quase cinquenta anos depois de seu lançamento. Em paralelo, acompanhamos as filhas de Kristen (Katja Herbers), nossa protagonista, e um certo acontecimento estranho no feriado em questão. As duas histórias se complementam bem, principalmente porque a série faz um bom trabalho em valorizar o elenco infantil e a importância de tais personagens nas motivações da psicóloga — algo que determina o final da temporada. É um episódio de horror que não coloca apenas o gênero em questão, mas a veracidade dos mitos que o alimentam.

10Castle Rock, 02×05: “The Laughing Place” (06/11/2019) [Hulu]

Castle Rock.

Escrito por: Vince Calandra & Daria Polatin // Dirigido por: Anne Sewitsky

Voltamos a Hulu e voltamos a Stephen King. Desta vez, não temos uma adaptação de uma obra do autor, mas um passeio pelo universo criado por ele. No segundo ano da antologia, deixamos para trás os dramas explorados na relação da cidade com um homem misterioso que é encontrado em uma prisão e ganhamos novas personagens. Annie Wilkes (Lizzy Caplan) e sua filha, Joy (Elsie Fisher) chegam a Castle Rock após um acidente e acabam se metendo no meio de um drama familiar que coloca suas vidas em risco.

Assim como é discutido na terceira temporada de Mr. Mercedes, The Laughing Place aborda a natureza do mal e tenta explicar como pessoas não-violentas cometem atos violentos, qual o contexto e a psicologia por trás dos acontecimentos que as levaram a tal. E aproveitando a comparação com a série da Audience, temos os atos mencionados vindo de lugares inesperados e que rendem cenas terríveis e desconfortáveis. O bônus e o que diferencia o episódio deste segundo ano de Castle Rock é o quanto ele consegue surpreender o telespectador. Acreditamos que a trama seguirá um caminho, mas ela segue outro. Tentamos ver o mal em algumas personagens que acabam como vítimas. O passado de Annie, então, não é nada do que esperávamos. É terrível, mas de outro modo.

Cada vez mais presente nas séries, o episódio de regressão de uma temporada de mistério pode desafiar nosso fôlego em uma maratona. É aquele episódio para se explicar tudo, mas que, às vezes, acaba explicando demais ou apenas servindo para preencher a temporada. Castle Rock conseguiu desviar dos problemas que tal recurso talvez trouxesse aos telespectadores com as surpresas que nos esperam no passado da protagonista. Tais informações transformam nossa experiência com a série, redefinem o que achávamos das personagens e preparam a segunda parte da história. Com um bom casting, não chega a ser tão enfadonho que falemos, novamente, sobre outro processo de escrita por aqui e sigamos um (outro) escritor em crise.

9Reality Z, 01×10: “Sejam Humanos” (10/06/2020) [Netflix]

Reality Z.

Escrito por: Claudio Torres e João Costa // Dirigido por: Claudio Torres

Se você assistiu somente ao primeiro episódio da série, talvez você não entenda sua presença aqui. Se você maratonou os dez episódios lançados em junho deste ano, talvez se junte a mim para advogar por esta série de horror nacional que faz um remake e uma continuação de sua original britânica. Dividida em duas partes, a série têm diferentes grupos de protagonistas e parece contar diferentes histórias em sua primeira temporada. O que liga as duas partes, além do espaço compartilhado, parece ser a sensação de desespero, caos e urgência que os episódios trazem. Chegamos à conclusão, lá pelo final da maratona, que está tudo perdido e não há esperança. E o pior: não por conta do apocalipse zumbi, mas por conta do comportamento humano quando posto em pandemia.

Mesmo com mortos-vivos em tela, Reality Z ter sido lançada durante uma quarentena em que casos e mais casos de desrespeito às pessoas foram (e estão sendo) reportados torna a série de horror ainda mais precisa e melancólica. Temos em tela, com a desculpa dos elementos do gênero, discussões que já fazemos na vida real — ou no que este ano se tornou de irreal. É tanto uma maratona empolgante, com momentos bem construídos de tensão, como também triste porque sabemos que, liberdades criativas à parte, não está tão distante assim de nós.

No último episódio, as discussões sobre poder e tirania ficam ainda mais sérias. Uma coisa leva a outra que leva a outra, e, de repente, vemos personagens importantes morrendo em tela e espaços tendo sua dinâmica completamente alterada. A série coloca seu futuro em jogo, mesmo deixando um gancho, por conta de seu comprometimento em retratar humanos que foram pouco humanos e, por essa razão, colocaram tudo a perder. Por fim, alegorias à parte, é uma ótima série de zumbis.

8Os Simpsons, 31×08: “Thanksgiving of Horror” (24/11/2019) [FOX]

Os Simpsons.

Escrito por: Dan Vebber //  Dirigido por: Rob Oliver

Os Simpsons é o exemplo perfeito de como mesmo séries que não têm o horror como seu gênero principal podem fazer bons episódios de horror. Na trigésima primeira temporada da sitcom animada, não ganhamos apenas um episódio especial de horror, mas dois. Neste segundo, que foi ao ar em novembro, temos o feriado de Ação de Graças como o contexto para três histórias que exploram o passado, o presente e o futuro de tal data comemorativa.

Os Simpsons sempre foi uma comédia que soube fazer referências ao que vem acontecendo em nossa sociedade e ao que temos produzido na televisão e no cinema, seja em questão de obras famosas, muitas vezes satirizadas, ou mesmo de celebridades. Por isso, não é tão surpreendente que um dos contos nos lembre de Black Mirror, um dos grandes fenômenos da década passada. O episódio explora, portanto, sua maneira de contar histórias bizarras com muita ironia e humor.

Thanksgiving of Horror é divertido e imaginativo, abusa das características que conhecemos das personagens de Springfield e nos entrega três boas histórias. Faz referências interessantes, tem bons diálogos e é tão visualmente provocativa quanto se pode esperar da produção. Em época de antologias, é sempre positivo que as séries veteranas ainda consigam ser bons exemplos de como fazer bons episódios que funcionam isoladamente e se destacam na grade da tevê norte-americana.

7Servant, 01×01: “Reborn” (28/11/2019) [Apple TV+]

Servant.

Escrito por: Tony Basgallop // Dirigido por: M. Night Shyamalan

Tendo o famoso e controverso diretor M. Night Shyamalan em sua produção executiva, Servant estreou no serviço de streaming da Apple em novembro do ano passado. Ele ainda dirigiu dois episódios contando com este primeiro. Na história inusitada e cheia de reviravoltas, temos uma babá contratada para cuidar do bebê de um casal formado por uma jornalista e um chef consultor. Neste primeiro momento, a série lembra bastante o que Shyamalan faz no cinema, seja em sua atmosfera, em suas inusitadas personagens ou em suas tramas absurdas.

Servant teve uma recepção positiva da crítica, e isso pode ser atribuído a seus primeiros episódios e a construção inicial da intriga da série. Conforme avançamos na temporada, a história vai deixando de ser interessante e a incapacidade das personagens de tomarem boas decisões e a apatia que nos causam prejudicam nossa experiência. No começo, no entanto, principalmente no que se refere ao primeiro episódio, tudo funciona. A duração curta dos episódios beneficia a fragilidade de seu enredo e os atores conseguem extrair bons momentos mesmo na estupidez de suas personagens.

É o tipo de série para a qual você precisa ir sem muita informação porque as descobertas valorizam nossa jornada no universo criado por Tony Basgallop. Aqui, temos o horror criado através do estranhamento, do irreal, daquela situação que desobedece nossas noções do que é natural — mais do que apenas pensarmos sobre o que é ou não real. Não temos uma tensão ágil, mas criada através de etapas, de pistas que vão sendo dadas durante o episódio e que culminam num ótimo final. Talvez com um menor número de episódios, a série conseguisse manter a qualidade que é vista por aqui. Fica, então, uma estranha recomendação para que vejam Reborn. Daí em diante, é por sua conta e risco.

6The Third Day, 01×03: “Sunday – The Ghost” (28/09/2020) [HBO / Sky Atlantic]

The Third Day.

Escrito por: Dennis Kelly // Dirigido por: Marc Munden

Vamos de uma série que deveria ter sido uma minissérie para uma minissérie de fato. Parceria entre o canal britânico Sky Atlantic e a estadunidense HBO, a história segue Sam (Jude Law) que testemunha um acontecimento terrível no aniversário de morte de seu filho. Para se certificar de que tudo ficará bem, ele acompanha uma jovem a uma ilha. Lá, num lugar que parece ter uma estranha cultura, ele começa a testemunhar acontecimentos estranhos.

Dividida em duas partes, The Third Day seria uma minissérie excelente se a segunda parte não existisse. Com a pós-produção afetada pela pandemia, mesmo a luz/exposição de algumas cenas está desajeitada a partir do quarto episódio. Mas focando no que deu certo, temos na primeira e excelente parte a mesma construção do estranhamento da série anterior. A trama desse homem preso em um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas e de costumes desconhecidos, vai se complicando conforme ele vai permanecendo ali. Temos cenas de uma tensão sufocante, mesmo quando prevemos as reviravoltas da história.

Com muitos símbolos para compor sua trama, este episódio fala sobre destino e sobre fé — naquela fé a qual se recorre para escapar de alguma realidade. Temos um doloroso processo de luto bem caracterizado por Jude Law e uma resolução bonita, mesmo que melancólica em certo sentido. Não vemos o horror/mistério presente na série por conta de uma pessoa que o instaurou, mas por conta de uma sociedade específica. A série parece perguntar até que ponto ela está disposta a ir para colocar suas certezas em prática.

5Dracula, 01×01: “The Rules of the Beast” (01/01/2020) [BBC One / Netflix]

Dracula.

Escrito por: Mark Gatiss e Steven Moffat // Dirigido por: Jonny Campbell

Outra parceria entre uma plataforma norte-americana e um canal britânico, Dracula estreou em janeiro baseada no famoso livro de Bram Stoker. Dividida em três partes, a internet se reuniu em consenso para condenar a última parte, o que pode novamente relacionar esta série à da posição anterior. Por mais que não aprovemos o final, devemos concordar sobre seu começo sólido e as boas decisões do roteiro e da direção para esta primeira parte.

No primeiro episódio, acompanhamos a conhecida saga de Jonathan Harker (John Heffernan) ao castelo do Conde Dracula (Claes Bang), onde coisas bizarras acontecem. Aqui, começamos com uma divisão entre passado e presente antes que coloquemos nossos pés totalmente no agora, quando presenciamos as consequências da história do sobrevivente do famoso vampiro. Dracula já tem aí um de seus méritos: saber conduzir a história nesses dois momentos, tendo tanto um passado estranho quanto um presente intrigante. É no primeiro momento que o roteiro vai criando o charme e a ousadia de seu antagonista para que este se sobressaia no segundo.

Com bons diálogos, bons atores e uma boa atmosfera, o roteiro ainda sabe investir em duas boas personagens, por mais que deixe as outras de lado. Claes Bang e Dolly Wells sabem utilizar o fator cínico de suas personagens, o que torna o embate entre elas o ponto alto do episódio. Ainda ganhamos cenas grotescas, com muito sangue e uma transformação terrível para fazer qualquer fã de gore aplaudir a televisão. Juntando estes bons elementos, a duração acaba sendo tolerável e não importando tanto no fim das contas.

4Dorohedoro, 01×06: “Episódio 6” (16/02/2020) [Tokyo MX, BS11, MBS]

Dorohedoro.

Escrito por: Hiroshi Seko // Dirigido por: Yuichiro Hayashi

A segunda e última série animada de nossa lista faz, assim como Os Simpsons, uma ótima mistura entre gêneros para contar sua história. Se na série norte-americana temos horror e comédia se alternando, aqui temos o horror percorrendo jornadas dramáticas, de fantasia e com certo humor em sua estrutura. Em Dorohedoro, temos um universo dividido entre o mundo dos feiticeiros e o mundo dos humanos. Enquanto o primeiro é um mundo limpo, de mágica e prosperidade, o segundo é decadente e entregue à violência de criaturas afetadas pelo poder dos feiticeiros. Na primeira temporada, acompanhamos lados opostos desses mundos medindo força e se combatendo em cenas sangrentas e nojentas.

Episódio 6 é mais um episódio de regresso no qual conhecemos a história de uma das personagens e testemunhamos os acontecimentos que a levaram a se colocar contra os humanos da forma como é hoje. É um episódio que se aproveita dos aspectos mais bizarros de sua história e parece nos apresentar todos de uma vez — contando, entre outras coisas, com alguém que tem o poder de transformar outros em cogumelos.

Com um visual tão sujo, Dorohedoro é um exemplar perfeito de como a estética do grotesco pode ser utilizada pelo horror para contar suas histórias. Diferente de ocasionais cenas como em Mr. Mercedes e Castle Rock, aqui o grotesco é a própria linguagem do anime, sua forma de se comunicar com seu público. Através dela, ganhamos um enredo de humor distorcido e um universo criativo.

3What We Do in the Shadows, 02×05: “Colin’s Promotion” (06/05/2020) [FX]

What We Do in the Shadows.

Escrito por: Shana Gohd // Dirigido por: Jemaine Clement

Talvez pareça exagero que eu diga que What we do in the Shadows é o tipo de série que você pausa para dar risada das piadas, mas é exatamente o que eu faço. No segundo ano da série de falso documentário, continuamos a acompanhar um grupo de vampiros que moram juntos e tem um familiar a seu serviço. Tão divertido quanto o primeiro ano, este segundo conseguiu chegar ao Emmy com diversas indicações que deram ao horror o prestígio que ele merece — e cá entre nós, perder para Schitt’s Creek em algumas categorias é, no mínimo, discutível.

No episódio selecionado, e poderíamos colocar boa parte dos dez que compuseram a segunda temporada, temos Colin (Mark Proksch), personagem muitas vezes colocado de lado, ganhando o foco da narrativa. Quando uma série consegue fazer isso e ainda ter no episódio o ponto alto de sua temporada, sabemos que é uma produção de qualidade. Na história, o sugador de energia de pessoas é promovido, e isso tem diversas consequências na sua vida e na relação com os outros vampiros.

Dizer que é um episódio criativo é dizer pouco. O que What We Do in the Shadows faz aqui é uma combinação perfeita de elementos de horror, com uma figura poderosa e perigosa no foco enquanto a série a ridiculariza como parece ridicularizar tudo. É uma prova de que além de um elenco poderoso e que se entrega totalmente ao absurdo de seu texto, temos um dos grupos mais carismáticos de personagens de uma série sendo exibida atualmente na televisão. Colin’s Promotion é a prova de que o horror também pode ser usado para fazer rir, revertendo nosso temor de fantasmas e bruxas em histórias que mostrem o ridículo da imortalidade em alguns casos.

2Lovecraft Country, 01×01: “Sundown” (16/08/2020) [HBO]

Lovecraft Country.

Escrito por: Misha Green // Dirigido por: Yann Demange

Uma das boas surpresas deste segundo semestre na HBO, Lovecraft Country se passa nos anos cinquenta, quando um grupo de pessoas atravessa o país à procura do pai de uma delas. O único “problema”: elas são negras. Num país intransitável à população negra neste período, eles enfrentam a violência e promessas de violência por todos os lugares em que passam, constantemente se colocando em perigo só por estarem viajando de carro. É num quase acaso que começam a se deparar com não só este horror humano no caminho, mas o horror de monstros que os encontram à noite em florestas.

Lovecraft Country é o horror em seu auge. Voltada ao passado, mas com muito a dizer sobre os debates que temos atualmente, a série não soa em nenhum momento datada. Pelo contrário, serve como uma forma de não nos esquecermos do histórico de seu país. Num mundo que tem se proposto diariamente a reescrever seu passado, é bom que as séries de televisão exibam semanalmente narrativas que não nos deixem fazer isso. O horror é perfeito nesta tarefa, gênero que funciona tanto como entretenimento quanto metáfora, às vezes tão bem encoberta na narrativa que consegue alcançar um grande público sem que este se atenha ao significado de sua alegoria.

Com boas sequências de perseguição, seja de carro ou com as personagens correndo pela floresta, momentos de tensão bem construídos e uma boa atuação tanto em momentos dramáticos quanto de horror, o episódio é um divertido início de saga para suas personagens e uma boa porta de entrada aos telespectadores. Faz um bom casamento com o horror do histórico norte-americano com o horror das criaturas sobrenaturais e utiliza a boa produção do canal a cabo para passear pelo país em cenários críveis e uma fotografia invejável. É sofisticado, bem escrito e com um bom ritmo, provando que estamos longe de esgotar o fôlego de histórias de horror.

1Kingdom, 02×06: “Episódio 6” (13/05/2020) [Netflix]

Kingdom.

Escrito por: Kim Eun-hee // Dirigido por: Park In-je

Kingdom já apareceu no ranking de 100 melhores episódios de 2019 do Série Maníacos. Desta vez, precisamos dar à série sul-coreana o posto conquistado por sua segunda e eletrizante temporada. A melhor série de zumbis já feita retornou com uma ambição ainda maior nos seis episódios de seu segundo ano, quando vemos as personagens buscarem uma solução para o vírus que torna as pessoas em mortos-vivos e enfrentarem a tirania do clã que deseja tomar o poder acima de tudo.

Se o humor e o contexto histórico funcionam bem para as séries anteriores, em Kingdom temos uma produção de época refazendo a própria história com empolgantes sequências de correria, lutas bem coreografadas e um senso de desesperança que acompanha nossos heróis durante toda a narrativa. Temos aqui o melhor protagonista desta lista e a contribuição mais significativa ao gênero do horror, deixando o nível do que é possível fazer com produções do gênero acima de tudo o que passou na televisão este ano. Tem personagens carismáticas, tem antagonistas inteligentes e temerosos e tem um ótimo ritmo.

No último episódio da temporada, temos a série colocando suas personagens novamente em perigo — algo que fez em quase todos os episódios. Dessa vez, com a sensação de que a história está se fechando, tememos por suas vidas porque não sabemos aonde a série irá depois disso. O episódio traz o caos para a televisão em algo que lembra muito algumas batalhas de Game of Thrones. Vai do desespero à melancolia, falando sobre dramas políticos no processo. Tem o horror como entretenimento e alegoria com uma facilidade de servir de exemplo.

É, ainda, um final satisfatório caso a Netflix não continue a produção.

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Completa o TOP 20:

#14. Are You Afraid of the Dark?, 01×01: “Part One: Submitted for Approval”            (16/10/2019)

#15. O Grito – Origens, 01×04: “Episódio 4” (03/07/2020)

#16. The Outsider, 01X01: “Fish in a Barrel” (12/01/2020)

#17. Inside No. 9, 05×04: “Misdirection” (24/02/2020)

#18. The Twilight Zone, 02×09: “Try, Try”  (25/06/2020)

#19. Wynonna Earp, 04×02: “Friends in Low Places” (02/08/2020 )

#20. Creepshow, 01×05: “Night of the Paw/Times Is Tough in Musky Holler”            (24/10/2019)

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Você pode ler mais sobre séries de horror no Série Maníacos aqui.

Este post encerra oficialmente o V Mês do Horror do portal. Agradeço a todos que acompanharam por aqui.

ANOS ANTERIORES:

Os Melhores Episódios de Horror de 2016 (01/10/2015 a 30/09/2016)

Os Melhores Episódios de Horror de 2017 (01/10/2016 a 30/09/2017)

Os Melhores Episódios de Horror de 2018 (01/10/2017 a 30/09/2018)

Os Melhores Episódios de Horror de 2019 (01/10/2018 a 30/09/2019)

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Beware the cannibals.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.