Cara Gente Branca centraliza sua história em Reggie (Marque Richardson) e nas consequências do evento fatídico que ocorreu na primeira temporada, mas especificamente, no Chapter V (1×05). Para quem não se lembra, neste episódio, aconteceu uma festa no campus e depois de uma confusão, a polícia foi chamada. Apresentando claro despreparo, o guarda Ames (Scott Michael Morgan) sacou sua arma e apontou para Reggie. Esse fato vai ser crucial no desenrolar dos eventos do restante da primeira temporada.

Este episódio foi o ponto alto do Volume 1 de Cara Gente Branca e o roteirista Chuck Hayward (o mesmo de Chapter V) acertou em retomar a história e mostrar as consequências disso na vida de Reggie. O show, usando aquilo que tem de melhor, o sarcasmo crítico, nos propõe uma reflexão. Quantos jovens negros sofrem com o tipo de agressão sofrida por Reggie todos os dias? Será que em algum momento nos indagamos como isso pode afetar a vida desses jovens? Que tipo de problemas esse tipo de ato pode provocar ao longo de suas vidas? Uma pesquisa rápida no Google vai mostrar (pra quem quiser ver, é claro) como a violência policial contra os negros é comum aqui e nos Estados Unidos. Levantar essa discussão novamente demonstra como esse tipo de problema está longe de acabar, tornando esta pauta necessária.

Retornando ao episódio, percebemos que Reggie, apesar de tentar seguir normalmente seus dias, sofre com o trauma. A pena que as pessoas do campus demonstram por ele torna tudo mais difícil e agravando o quadro, ele começa enxergar seu agressor em qualquer homem branco que cruza seu caminho. Além disso, a Casa Armstrong-Parker recebeu os estudantes que viviam na Casa Davis (casa que pegou fogo na finale da primeira temporada), ou seja, negros e brancos agora dividem o mesmo espaço na Universidade Winchester. Para Reggie, essa situação é complicada. Imagine ser obrigado a conviver com o agressor dentro da sua casa. É assim que Reggie enfrenta a situação.

 

Usando do seu humor característico, Cara Gente Branca apresenta as tentativas de Reggie de superar o ocorrido. A terapia, o grupo de estudo bíblico, as drogas, o álcool e o sexo são os caminhos escolhidos por ele para tentar superar a situação. Todas em vão. Ele se sente injustiçado, ferido, humilhado e inferiorizado. Qualquer um se sentiria assim, ainda mais, quando o culpado não foi responsabilizado por seus atos. Ao ver o guarda Ames andando pelo campus como se nada tivesse acontecido, a fúria de Reggie acende. Como superar um trauma desses? A violência costuma ser o caminho mais fácil, mas Reggie é impedido pelo reitor Dean Fairbanks (Obba Babatundé). Aliás, o diálogo entre os dois é um dos pontos altos desse episódio. Ao por lado a lado, a nova e a velha geração, a intenção é passar uma mensagem positiva. A figura de um homem negro maduro e bem-sucedido é a forma encontrada pela série de dizer que apesar de todas as adversidades, é possível para os jovens negros vencerem. E o caminho escolhido por Reggie não foi nada fácil. Vamos ver como isso afetará a trama como um todo.

 

Conhecendo mais da Universidade Winchester e outros pontos do episódio:

A conversa entre Troy Fairbanks, Reggie Green e Kurt Flechter é cheia de referências à cultura pop e tem extrema relevância para entender o Reggie. Filho de um ex-membro dos Panteras Negras (movimento negro liderado por Malcolm-X nos anos 1960), ele se sente compelido a atacar com violência aqueles que o oprimiram. Baita dilema!

– Neste mesmo diálogo, Reggie cita uma frase de James Baldwin (romancista, escritor e crítico social afro-americano) que representa bem o conflito vivido pelo personagem:

“Ser negro e relativamente consciente é estar quase sempre com raiva.”

– O episódio ainda dá uma alfinetada com relação ao porte de armas… Tem muita gente precisando ver essa cena.

Cara Gente Branca faz uso do seu roteiro para valorizar e dar visibilidade a cultura afro-americana. Usarei desse espaço para dar mais informações sobre as pessoas citadas. Segue abaixo algumas das personalidades citadas neste episódio:

  • James Baldwin: romancista, escritor e crítico social afro-americano
  • Jay-Z: rapper, compositor e produtor afro-americano
  • Carlton Banks: personagem fictício de “Um maluco no pedaço”, primo do Will, vivido pelo ator Alfonso Ribeiro.
  • Erykah Badu: cantora, compositora, atriz e ativista afro-americana
  • Frederick Douglass: abolicionista, estadista e escritor afro-americano

Até mais pessoal!

REVISÃO GERAL
Nota:
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