Capítulo X encerra de forma magistral a temporada mais madura do show. Em uma jogada genial o episódio inicia-se com um exercício comum da história contrafactual: e se? Esse campo de estudo, extremamente recente, é o resultado de um exercício mental científico que parte de uma premissa para explorar as possíveis mudanças na história. Muitos historiadores não veem com bons olhos esse campo, porém, é inegável que esse exercício seja interessante para tentarmos compreender como algumas coisas seriam diferentes: E se Hitler tivesse morrido durante a Primeira Guerra Mundial? E se Napoleão Bonaparte não tivesse sido derrotado em Waterloo? E se os negros fossem a etnia dominante do planeta? Utilizando esta questão, Dear White People construiu o início do último episódio de sua temporada de forma ácida e satírica.

A cena inicial mostra Sam apresentando um programa de rádio chamado de Dear Black People e sua melhor amiga é Abigail. Seu programa está satirizando o processo eleitoral. A série faz um paralelo com as eleições presidenciais de 2015, ironizando a vitória de Trump, quer dizer, de Flavor Flav, um rapper. As referências são tão sutis, mas tão poderosas, que é impossível não se deliciar com o que foi apresentado. Os bustos dos pensadores, espalhados pelo campus, são negros. Os programas de TV priorizam os negros. A música contemporânea dominante é o rap. Os brancos de Winchester tentam se aproximar dos traços culturais predominantes na cultura afro-americana: roupas, cabelos, jeito de andar e se vestir. A ironia dessa construção narrativa é tão latente. Imagine passar a sua vida sem referências positivas ou qualquer tipo de referência? O show se superou ao discutir de forma tão brilhante essa situação.
“Uma subcelebridade virou presidente porque as pessoas não sabem a diferença entre notícia e entretenimento”.
Samantha White
Mesmo que os personagens não concordem com a política de Flavor, afirmam que tanto ele quanto a Hillary Clinton tinham pontos ruins e que ele seria menos pior. Olha só essa analogia. Vale ressaltar, que seja na história real ou no exercício proposto pela série, a Hillary não tem força para vencer. Nem nessa nem em outra realidade, ela venceu rsrsr. Em outro paralelo com a realidade, Flavor quer construir um muro separando os Estados Unidos do Canadá e seriam eles os responsáveis por pagar essa conta. Qualquer semelhança com uma certa situação da vida real não é coincidência.
O principal link com a trama da temporada está na relação com o professor Brown. Aqui ele é branco, símbolo da resistência, mas é acusado de abusar de Joelle (Reggie já havia feito essa terrível suposição anteriormente). As questões levantadas para defendê-lo são as mesmas levantadas por Reggie, na nossa linha narrativa. Por ser um símbolo, ele deve sair impune? A vítima deve ser desacredita? É com isso em mente que a série segue rumo a reta final da sua temporada.
Capítulo X – Por Vera Tocantins
Cara Gente Branca desde a sua primeira temporada trilhou um caminho próprio, sempre apostando em situações críticas e ácidas para contar a sua história sem a pretensão de ser panfletária ou risível desmedidamente. Em seu terceiro ano, o show se tornou maduro e mais coeso, sem a necessidade de um antagonista ou de uma narrativa que se fixasse em apenas um personagem. Se em seu primeiro volume, Cara Gente Branca lançou os seus holofotes em Samantha White, lhe dando todo o espaço necessário para que seu protagonismo sedimentasse o propósito real da série, em seu segundo volume a comédia dramática arriscou alto ao pulverizar o protagonismo entre os personagens secundários, dando-lhes voz, circunstâncias e palco. Foi interessante acompanhar a jornada de Sam através da perspectiva dos demais personagens, como também foi exatamente interessante ver em cena um pouco mais de Joelle, Coco, Lionel e Reggie.

No entanto, com a chegada do terceiro volume de Cara Gente Branca, me perguntava intimamente sobre qual estratégia eles iriam utilizar para não retornar o seu foco para Sam e para não repetir as histórias dos personagens secundários que se tornaram protagonistas da série. Uma outra questão que me preocupava era o fato de que tivemos uma antagonista de peso no segundo volume, Rikki Carter, interpretada pela talentosa atriz Tessa Thompson, que de várias formas mostrou para Samantha que toda a luta dela poderia se voltar contra ela em algum momento do futuro, que tudo que ela combatia no aqui e agora poderia ser material para a construção de um personagem que combate a opressão, mas que transita entre os dois polos da sociedade em busca de sucesso.
No entanto, a polêmica e controversa série satírica americana não cansa de me surpreender e em seu terceiro volume desconstruiu tudo que eu havia imaginado no campo das possibilidades, ao alternar a sua narrativa entre personagens protagonistas, secundários, recorrentes e, em alguns casos, até os extras tiveram o seu lugar de fala. Cara Gente Branca aboliu o papel do antagonista ao nos entregar vilões do cotidiano de todos nós: os fantasmas íntimos que nos atormentam, os traumas, os anseios, a incompreensão, a falta de perspectiva, a insegurança e tantos outros monstros que insistem em bater em nossa porta emocional.
Como Sthefani escreveu na abertura desse texto, o uso do exercício de história contrafactual foi um recurso satírico incrível, que modelou de forma magistral a narrativa do capítulo final desse terceiro volume. Os fatos subsequentes fecharam as inúmeras pontas soltas, tornando algumas relações mais palatáveis (Sam e Joelle), finalizando algumas outras relações (Joelle e Rashid), celebrando novas uniões (Lionel e Michael) e desdobrando algumas ambiguidades construídas ao longo desse terceiro volume.

Iniciei a temporada desejando que Lionel encontrasse um amor para aquecer o seu coração nas noites frias, em algum momento desse terceiro volume eu até desejei que D’Unte fosse convertido em seu interesse amoroso, embora eu tenha gostado bastante de D’Unte e da forma como ele tentou ajudar Lionel a desabrochar, me peguei torcendo para que ambos não se transformassem em um casal pelo simples motivo de que não queria perder de vista a bela amizade que se formou entre esses dois rapazes gays. Por que eles não podem ser apenas amigos? Foi o que me perguntei em determinado momento. Eis que de repente surge Michael em cena. Um rapaz calmo, alegre, com olhos castanhos e HIV indetectável. Fiquei muito feliz vendo Lionel e Michael se abrindo para o amor terno, morno, delicado e cheio de aceitação. Esse é um tipo de casal que eu certamente gostaria de ver um pouco mais.
A sessão de exibição do documentário inacabado de Sam foi o momento ideal para desenrolar as diversas situações pendentes da temporada. Inclusive, o próprio documentário trouxe vozes bem emblemáticas, foi bem interessante ver Muffy falando que “ninguém quer ouvir uma mulher, a não ser que ela diga o que eles querem ouvir”, quando ela teve a sua voz silenciada após sofrer uma grande violência. Gabe e Joelle retomaram a amizade de outrora, apesar dos estremecimentos da temporada anterior.

Rashid/ Jeremy Tardy se mostrou muito inapropriado durante toda essa temporada. Ele é um dos muitos personagens recorrentes que conseguiram algum destaque com uma narrativa própria. No entanto, não gostei da postura dele diante da recusa de Joelle. Mesmo estando com Ikumi/ Ally Maki ele teve uma atitude infantil e grosseira com Joelle, como se a aspirante a radialista fosse responsável pelos seus sentimentos. Sei que a objetividade de Joelle ao lhe dizer que nunca teria nada com ele o chocou, mas acredito que foi muito melhor ela ser imediatamente sincera que ficar adiando o inevitável. Ela não vê Rashid com esses olhos, não observa nele um possível interesse amoroso. Mas por outro lado, o rapaz, ao abrir o seu coração, esperava uma imediata correspondência ou um aceno de uma possibilidade futura. Ou seja, ele criou altas expectativas em torno de um romance que só existe dentro da sua cabeça e, por essa razão, se indispôs com Joelle e ainda colocou em dúvida o namoro da garota com Reggie. Infelizmente, alguns homens agem dessa forma depreciativa quando não são correspondidos dentro dos seus anseios românticos. Mas devemos lembrar que todo relacionamento é uma via de mão dupla e, por mais que ele se esforce, Joelle deixou claro que não tem interesse nele.
Tenho certeza que a conversa secreta de Troy e seu pai foi mito reveladora, igualmente às descobertas feitas por Lionel e Sam sobre a Ordem. Uma coisa que todos nós descobrimos é que a Ordem não é o que pensávamos, eles usam do poder e da influência para acobertar situações escandalosas. Reggie percebeu isso da pior forma possível e, mesmo desconhecendo os meandros da Ordem, ele percebeu que Moses realmente abusou de Muffy e usou do seu poder enquanto professor acadêmico para silenciar a estudante. Triste, brava, infeliz e presa são os sentimentos de Joelle dentro dos eu relacionamento com Reggie, que bateu em sua porta revelando que confrontou Moses e que é sabedor da verdade. Joelle, que é uma Rainha, compreendeu o seu lapso de julgamento e o abraçou. Eu teria sido um pouco mais rigorosa com ele, apesar de entender que ele não está no seu melhor momento. Diante de todo esse debate circunstancial entre o casal Reginelle, a astuta Sam se juntou a Lionel, na Máquina de Mistério de Gabe para finamente confrontar o Narrador. Claro que ele oportunizou para a dupla improvisada de detetives novas informações sobre a Ordem e os seus integrantes. A reunião final do grupo todo foi uma decisão acertada, todos puderam colocar na mesa os seus pedidos de desculpas, as suas observações sobre as suas frustrações e a decepções ao longo da jornada.
Cara Gente Branca fechou o seu terceiro volume com uma trilogia final de tirar o fôlego, mostrando que o grupo é tão disfuncional quanto qualquer família razoavelmente feliz em um dia comum de verão, com brigas, discordâncias, cisões e palavras ácidas, mas sempre disposto ao entendimento através de um bom diálogo.
Caras amigas e Caros amigos!
Chegamos ao encerramento de mais uma cobertura de Cara Gente Branca aqui no SM. Minha imensa gratidão a minha amável amiga Sthefani Cordeiro, por mais essa parceria valiosa. Minha gratidão ao Michel Arouca pela confiança de sempre. E minha gratidão pela presença constante de vocês por aqui. A dona Netflix ainda não renovou a nossa série delicinha, mas espero que ela não se atreva a cancelar uma preciosidade dessas.
Até Breve!
Conhecendo mais da Universidade Winchester e outros pontos do episódio:
Congressional Black Caucus é um dos caucus do Congresso dos Estados Unidos, representando os membros afro-americanos. A palavra geralmente significa “conselho”. O termo caucus é também usado em mediação, negociação e em outros métodos alternativos de resolução de conflitos.
Elisabeth Kübler-Ross foi uma psiquiatra que nasceu na Suíça. Ela é a autora do livro “On Death and Dying”, no qual ela apresenta o conhecido Modelo de Kübler-Ross, também conhecido como “Os Cinco Estágios do Luto”.
Alternância de Códigos Linguísticos mais conhecida como code-switching, quando um interlocutor alterna entre diferentes línguas, ou variedades linguísticas de um mesmo idioma, no contexto de um único discurso.
Sétimo céu (7th Heaven) é uma série de drama norte-americana sobre um pastor protestante e a sua família da cidade ficcional de Glenoak.
Ivy League é uma conferência desportiva da NCAA de oito universidades privadas do nordeste dos Estados Unidos. Também se conhecem as universidades desta conferência como “as oito antigas”, que têm em comum conotações académicas de excelência, assim como de elitismo, devido à sua antiguidade e admissão seletiva.
HIV é a sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana. Causador da aids, ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças. As células mais atingidas são os linfócitos T CD4+.
Pessoas com HIV que são indetectáveis, ou seja, com o tratamento com medicamentos antirretrovirais, a carga viral (vírus em circulação no sangue) chega a níveis muito baixos, indetectáveis.
Flavor Fav que aprece como presidente no episódio é um músico, rapper, ator, personalidade de televisão e comediante americano que ganhou destaque como membro do grupo de hip hop Public Enemy.
Máquina de Mistério é o furgão de Scooby-Doo e a sua turma, é o principal meio de transporte da Mistério S/A.
Independente da linha temporal, Sam sempre será um elo entre dois mundos.
O citado caso White vs Board of Education faz referência ao caso real Brown vs Board of Education, de 1954, julgado na Suprema Corte dos Estados Unidos onde foi decidido ser inconstitucional as divisões raciais entre estudantes brancos e negros em escolas públicas pelo país.
A personagem Dereca citada na série pode ser associada a Iyanla Vanzant, e seu programa de TV, Iyanla: Fix my life.
ACLU é a sigla de American Civil Liberties Union, é uma ONG estadunidense, criada em 1920, que luta para defender e preservar os direitos e liberdades individuais.





















