Queridos leitores, esta review será um pouquinho diferente do que estão acostumados… Como também será diferente a cobertura dessa segunda temporada de Cara Gente Branca (Netflix) aqui no SM.
Primeiramente, eu sou Vera Tocantins, mulher, negra, brasileira e não privilegiada; faço parte dos milhares de pessoas que passam por situações controversas todos os dias por pertencermos a pelo menos dois ou três grupos considerados como ‘grupos de minorias’; farei a cobertura da segunda temporada de Cara Gente Branca em parceria com a minha amiga Sthefani Cordeiro, que também não se furtará de emitir a sua opinião técnica e crítica sobre o conteúdo analisado.
Diferentemente da primeira temporada de Dear White People, em que fizemos textão único aqui no SM, analisando brevemente os contextos técnicos da série, alguns detalhes interessantes para a compreensão do show e traçamos uma abordagem mais analítica da série como um todo, dessa vez faremos textos individuais, comentando os acontecimentos capítulo por capítulo, contextualizando os fatos e, claro, acrescentando a isso tudo o nosso olhar e o nosso sentimento diante do material construído para essa nova temporada. Espero que gostem desse formato. Obrigada!

Em maio de 2017, após maratonar a primeira temporada de Dear White People, me senti compelida a escrever um texto que expressasse a minha sensação ao ser exposta a um conteúdo que me causou internamente tantos sentimentos antagônicos e inexplicáveis. Eu não queria, naquele momento, escrever uma crítica usual apontando os supostos erros e acertos das decisões criativas tomadas pela equipe por detrás dessa série, o que eu queria de verdade, igualmente a Samantha White (Logan Browning), era apenas falar… sim, isso mesmo, falar como eu me sentia diante da mensagem encerrada naqueles dez rápidos episódios que tocavam em pontos tão sensíveis, controversos, polêmicos, porém, necessários. Precisava falar sobre a minha experiência como mulher, negra, brasileira e não privilegiada exposta a uma série televisiva que, além de ser representativa, tocava em tantos pontos relevantes e tão próximos da minha própria realidade; eu tinha a necessidade de falar sobre uma série que nasceu cercada de polêmicas e de haters pelo mundo a fora, mas que é muito necessária para a conjuntura atual do mundo, que assolado pela cultura do ódio e pelo extremismo do preconceito vem cada vez mais abdicando da essência do amor ao próximo.
Me lembro que fiquei um tempo parada em frente ao computador tentando entender por qual motivo a série tinha recebido tanto hate antes mesmo de estrear, mas também tentava, naquela ocasião, decodificar o motivo pelo qual DWP tinha conseguido me atingir tão em cheio. Em uma conversa com o maravilhoso amigo Natanael Chimendes resolvemos firmar parceria e construirmos conjuntamente o polêmico textão. Foi uma experiência surreal ter feito o texto com um cara, segundo ele mesmo, branco (latino) privilegiado, que demorou algum tempo para processar a nova série do Netflix e que tinha um ponto de vista diferente do meu, mas concordava comigo sobre a necessidade de que mais séries críticas como DWP precisavam existir. O mais interessante dentro do processo de construção do citado texto foi a chance do debate, a chance da percepção mais apurada que vivemos em um mundo globalizado e interligado, onde a força do discurso tanto pode construir como pode deformar coisas belas.

A segunda temporada de Dear White People tem em suas mãos três desafios extremamente difíceis: a) diferenciar opinião pessoal de liberdade de expressão e de discurso de ódio; b) continuar sendo relevante mantendo o foco no seu tema principal, contudo, sem apelar para a repetição das circunstâncias ou para as saídas fáceis de roteiro; c) dar o devido destaque aos personagens que deveriam ser coadjuvantes, mas que ganharam vida própria no decorrer da primeira temporada.
A première de DWP nos apresenta uma Sam um pouco desorientada, que precisa retomar a sua narrativa, após os acontecimentos da temporada passada, inquieta, ela questiona para Joelle sobre como é possível retomar a sua narrativa e argumentar com o absurdo. Sam, não é mais a mesma depois de tudo que aconteceu com ela e com o seu grupo social no decorrer da primeira temporada, isso é fato, todavia, ela ainda não conseguiu se encaixar na nova conjuntura em que está inserida na Universidade Winchester, onde a casa Armstrong-Parker recebeu os estudantes que viviam na Casa Davis, aquela que pegou fogo no término da primeira temporada.
Sam ultimamente apenas vem colocando música durante o tempo do seu programa na rádio da universidade ou vive tendo devaneios sensuais com seu ex-namorado Gabe enquanto se masturba ou então navega furtivamente nas suas redes sociais tentando rebater os comentários ofensivos direcionados a ela. No meio disso tudo, Sam tenta refazer a sua relação com o traumatizado Reggie e procura entender como é que a lógica, a razão e o discurso se perderam tão rapidamente e ela não percebeu quando isso aconteceu. Já que gente de verdade não corre e fala ao mesmo tempo, Sam e Jo apenas tentam resistir no meio de todo o caos.
Em meio a tantas mudanças percebemos que Gabe já não é mais o mesmo. O rapaz trata Sam de forma fria e apresenta um discurso bastante diferente daquele que ele defendia enquanto estava namorando a estudante. Gabe também mostra uma estranha intimidade com Jamila, a nova aluna, o que denota que futuramente ainda veremos algum embate entre essas duas universitárias, que possuem opiniões bem seguras.

Acho que cabe aqui um paragrafo inteiro para falar sobre o repulsivo programa ‘Cara Gente de Direita’ que propaga um tal genocídio branco ao validar as ações de um suposto herói anônimo que destila ódio virtual em nome da hipotética liberdade de expressão. O sarcasmo crítico de Dear White People é soberbo e se sobressai no jogo narrativo ao colocar três estudantes brancos defendendo abertamente, em um programa de rádio universitário, a heteronormatividade como o único padrão aceitável, cobrando o esquecimento da existência das minorias e corporificando uma suposta opressão sofrida por brancos após o advento dos programas de inclusão e da diversidade de orientação sexual das demais pessoas. Admito que ouvir aquele tanto de bobagem foi realmente sofrível, afinal, só quem não nasceu privilegiado e teve que se valer de programas sociais é que sabe responder com propriedade a validade ou não desses programas; só quem se enquadra em uma das minorias descritas pelo trio de estudantes arbitrários é que tem argumentos válidos para explicar como é se sentir invisibilizado dentro do seu próprio contexto social, enfim, só quem já sofreu na pele algum tipo de violência é que sabe realmente que a necessidade de se pregar a cultura de paz e de não devolver violência com violência é o essencial. Todas as demais pessoas apenas podem mensurar tais situações, todas as outras pessoas apenas podem usar a empatia ou a resiliência para conjecturar sobre esse fenômeno social que assola o mundo.

A sequência final do episódio foi algo tão revoltante, porém, tão real nos dias atuais. Esse discurso de ódio, infelizmente, tem se tornado uma constante em nossa sociedade, existem muitas pessoas que, escondidas pelo anonimato obtuso do mundo virtual, se utilizam dessa ferramenta para agredir covardemente outras pessoas por conta da sua etnia/raça, credo, gênero ou orientação. Senti na pele a dor de Sam e não consegui dimensionar qual resposta seria a mais apropriada para uma mensagem de ódio tão pessoal destilada por alguém que é considerada um herói por tantas outras pessoas que vivem em um recorte social e gozam de privilégios quase exclusivos. Embora Sam seja muito boa em debater com os haters anônimos da internet, diante do ocorrido, ela desabou em um choro que estava prestes a cair desde o início do episódio, mas que ela vinha contendo através da sua postura impávida e questionadora. Também choraria se tivesse sido agredida de forma tão cruel e vil. Esse foi o golpe mais baixo que Sam já recebeu em todos os episódios que já vimos de DWP e creio que essa situação irá assombrá-la por um longo período da sua jovem vida. Esse fato abre a importante discussão sobre o uso indevido de imagens pessoais alheias sem autorização em postagens com conteúdo ofensivo e nos chama de forma objetiva para dentro do debate sobre quais devem ser os limites impostos naquilo que chamamos de liberdade de expressão.
O mais curioso é que estamos assistindo uma comédia, tudo bem que se trata de uma comédia dramática, mas o que temos visto em DWP é que é possível, mesmo dentro de uma comédia, trabalhar com temáticas ainda tão problemáticas e sensíveis dentro da nossa sociedade, temáticas que mobilizam sentimentos íntimos e poderosos que as vezes ainda não tínhamos nos dado conta racionalmente.
Recentemente eu estava conversando com o meu amigo Gleisson sobre essas novas comédias dramáticas que verdadeiramente nos fazem refletir, questionar e pensar ao invés de rir. Na ocasião, o meu amigo tinha assistido um episódio de Black-ish só para descontrair, mas na verdade, desde a triste história apresentada até a trilha sonora fizeram com que o pensamento dele fosse remetido para situações que diziam respeito única e exclusivamente as suas construções sociais, talvez servindo até de gatilho emocional para refletir sobre a situação da sua família, que é predominantemente de origem afro-brasileira. Comédias dramáticas engajadas como Atlanta, Black-ish e a própria Dear White People têm um poder de alcance mobilizador que sequer foi mensurado pelas pessoas incautas que ainda questionam a necessidade da existência desse tipo de produção. Desejo uma bela temporada para DWP e desejo que o conteúdo apresentado possa contribuir de forma significativa para que uma nova mentalidade comece a desabrochar nas pessoas.
Dear White People retornou plena, consciente e fazendo o que sabe fazer de melhor, que é nos entregar uma comédia inteligente, polêmica, controversa, mas necessária.
Outras Informações:
Grits – é a versão americana das papas de milho, consumidas tipicamente ao pequeno almoço no sul dos Estados Unidos.
OZ – foi uma série de televisão norte-americana criada por Tom Fontana produzida pela HBO entre 1997 e 2003, que falava abertamente sobre o sistema prisional americano, sobre a homossexualidade e sobre o preconceito racial.














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