Depois do impactante desabafo de Reggie no capítulo 2 de Cara Gente Branca onde o estudante em um momento profundo falou ‘eu não quero que ele pague, quero que ele se sinta tão inferior como eu me senti’, ao se referir sobre o policial do campus que manteve uma arma apontada para a sua cabeça durante uma confusão generalizada, fomos deslocados abruptamente para uma outra perspectiva dentro da mesma narrativa. Fomos conduzidos vertiginosamente para uma triste constatação feita por Lionel de que mesmo dentro de um grupo considerado oprimido ainda é possível existir opressão e seletividade.

O capítulo três de Dear White People foi totalmente centrado em Lionel Higgins (DeRon Horton), o grande responsável pela exposição de informações confidenciais sobre os Hancocks, que no final da temporada passada recebeu um inusitado beijo de Silvio, o seu chefe de redação. O problema é que as revelações feitas por Lionel naquela ocasião levaram o Jornal Independente a fechar as suas portas, deixando o rapaz um tanto sem rumo sobre as suas escolhas futuras, sobre a sua própria orientação sexual e sobre a sua estranha relação com Silvio.
No meio disso tudo temos Troy Fairbanks (Brandon P. Bell) e as suas incoerências sobre mulheres lésbicas de verdade e sobre as supostas facilidades encontrados no mundo gay. Rotulando Lionel ao dizer ‘essa é a sua gente’, Troy deixa claro que tão ruim quanto o preconceito é a ignorância e o desconhecimento sobre a falta de necessidade de classificar e dividir tudo em grupos ou conjuntos. O mundo até pode ser comparativo e matemático, mas pessoas são apenas pessoas e isso já é bastante complexo e difícil de gerenciar, quem dirá quando partimos para a separação em grupos e subgrupos. A pior parte dessa situação é que Troy se encaixa no clichê de amor platônico do amigo hetero e por essa razão acaba sendo sempre uma presença constante na vida de Lionel.

Os três amigos fúteis de Silvio falaram muita bobagem durante a Festa do Orgulho Gay e trataram Lionel com muito desdém, mas uma frase de um deles foi bem interessante “Somos gays! Se não podemos existir em metade do mundo, porque devemos seguir as regras deles?”. Essa frase nos situa exatamente na complexa situação onde o indivíduo tem que viver no mundo, mesmo tendo que tornar invisível a sua própria sexualidade. Essa é a triste realidade de milhares de pessoas pelo mundo a fora, pessoas que vivem como clandestinas dentro das suas próprias famílias; vivem sufocadas dentro de um sistema político que oprime e impede a manifestação de qualquer sentimento considerado fora do padrão estabelecido ou fora das regras vigentes.
Creio que o verdadeiro embate de Lionel nessa temporada é a sua necessidade de se encaixar em algum grupo social e se enquadrar em algum padrão nessa engrenagem recém descoberta por ele, porém, o rapaz é um jornalista nato, ele é integro e idealista, daí não tem um sentimento de pertencimento real dentro dos diversos grupos pelos quais ele gravita. A confusão emocional dele é latente e ele se comporta como um observador da sua própria vida, embora ele conserve esse desejo de se abrir para o mundo, há nele um permanente olhar inquiridor e um sarcasmo melancólico que o faz explodir e ser ácido muitas vezes. Vimos uma clara demonstração dessa explosão emocional de Lionel no momento que ele confronta Silvio e o questiona querendo saber que tipo de sentimento o rapaz nutre por ele.
Silvio é um capítulo a parte dentro dessa história. Não sabemos ao certo por qual motivo ele beijou Lionel no final da temporada passada, da mesma forma que não sabemos porque ele tem a necessidade de manter o rapaz perto dele, mesmo que seja para maltratá-lo e machucá-lo emocionalmente. Ele até confessou que não tem certeza do que sente por Lionel, mas deixou claro que por ambos estarem em momentos distintos seria necessário um tempo maior para descobrir a natureza desse sentimento. No entanto, esse é um tempo que Lionel não tem, ele está disposto a se envolver e se relacionar com alguém, ele que iniciar a sua vida sexual, ele quer amar e ser amado, ele quer sair das sombras e ser notado por alguém que realmente goste dele.
Bem nessa parte da história surge Wesley Alvarez, um jovem latino que, aparentemente, vive um drama muito semelhante ao vivenciado por Lionel. Embora Lionel mereça encontrar um pouco de felicidade para a sua vida vazia, não fica claro para nós qual a motivação de Wesley ao stalkear as suas redes sociais do jovem aspirante a jornalista.
Foi agoniante acompanhar Lionel na sua tentativa de se encaixar em algum grupo ou espaço, mas foi um bom capítulo, sensível e bem construído.
Outras Informações:
Todrick Hall – é um cantor americano, ator, dançarino, diretor, drag queen, coreógrafo, compositor e YouTuber. Um dos semifinalistas da nona temporada do American Idol, ganhou notoriedade ao se tornar juiz no programa RuPaul’s Drag Race.
The Real Housewives – é um reality show de televisão americano que mostra o dia-a-dia de mulheres ricas.
Selena Quintanilla – a Selena citada na série não é a Selena Gomes, mas a Selena Quintanilla, cantora estadunidense de ascendência mexicana, que foi assassinada aos 23 anos pela enfermeira Yolanda Saldívar, presidente de seu fã-clube, em 1995.














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