A velha rixa entre bombeiros e policiais.

Talvez porque eu tenha falado na última review que a série estava fugindo das piadas mais fáceis, esta semana tivemos um verdadeiro desfile de Donuts, gatos em cima da árvore e uma grande brincadeira com a velha rivalidade, já tanto explorada por filmes e séries, entre policiais e bombeiros. Se a gente for parar para pensar, a imagem dos bombeiros é muito mais bonita e ligada à coragem e honra, enquanto a nossa visão dos policiais está atrelada à corrupção, sujeira e abuso de autoridade. Entretanto, em Brooklyn Nine-Nine todos são desglamurizados e retratados de forma crua. Indo numa direção completamente oposta a de Chigaco Fire ou outras produções, que mostram bombeiros sarados, corajosos e altruístas, a série brinca com esta figura trazendo bombeiros gordos, mesquinhos e infantis, o que vem de encontro com a proposta inicial da comédia da Fox. Este é o grande mote e mérito da sitcom até aqui, a capacidade de trazer personagens e situações inusitadas, brincando e exagerando sem nenhum compromisso com a seriedade com os estereótipos que tanto foram martelados em nossas cabeças. E não é para isto que existem as comédias?

Brooklyn Nine-Nine continua longe de ser genial ou capaz de garantir vinte minutos de gargalhadas, porém vem sendo bem competente em entreter o seu público com histórias divertidinhas e situações constrangedoras. “Sal’s Pizza” ainda obteve grande êxito na construção de seus personagens, deixando tudo com um tom fofinho e descompromissado. A obsessão em achar os verdadeiros culpados pelo incêndio da oitava melhor pizzaria do Brooklyn segundo Boyle, foi muito bem trabalhada e explorada. Por mais que Jake seja um cara completamente sem noção e suas atitudes geralmente flertam com o absurdo, o personagem precisa ter um outro lado e a série vem conseguindo explorar muito bem o lado mais emocional dele. Gosto muito de ver uma comédia se preocupando em fazer o público se identificar com os seus personagens e se arriscar um pouquinho no drama sem perder o bom humor e a história do abandono de família do pai de Peralta foi perfeitamente inserida neste contexto.

Outra coisa que funcionou bem foi o contraste entre as personalidades de Amy e Rosa e chega a ser impressionante como a segunda consegue obter uma boa química com praticamente todos os personagens da série. A essência de Rosa torna o trabalho dos roteiristas bem mais fácil, já que ela consegue ser diferente de todos os outros e explorar as diferenças entre os personagens é algo que sempre dá muito certo em comédias. Ninguém gosta daquela colega de trabalho que puxa o saco do chefe e está sempre querendo competir com todo mundo por uma promoção ou simplesmente por reconhecimento, porém Santiago vem sendo capaz de ser tudo isto e mesmo assim ser carismática, o que é um grande mérito da atriz e dos roteiristas.

A dobradinha entre Terry e Gina vem sendo uma das grandes apostas da série e vem trazendo bons resultados na parte cômica. Apesar da procura por um profissional de TI ter sido bem óbvia e com pouco tempo de tela no episódio, foi ela quem trouxe as melhores piadas e os momentos mais engraçados do episódio. “Qual a sua música favorita do Jay-Z?” foi hilária e deveria ser inserida em qualquer entrevista de emprego que se preste. Gina vem sendo uma personagem muito engraçada e naturalmente carismática, mas que demanda um certo cuidado por parte dos roteiristas, uma vez que facilmente pode cair no exagero ou enjoar o público.

O que não vem me agradando muito são as contínuas piadas com Scully e Hitchcock, que são sempre muito óbvias e até mesmo apelativas. A semelhança entre Scully e Jerry (ou seria Larry?) de Parks and Recreation é muito grande e vem me incomodando mais do que a “coincidência” entre as personalidades de Rosa e April. Os caras precisam mostrar um pouco mais de criatividade e capacidade de criar personagens cômicos diferentes e inovadores. O incompetente que é zoado por todos é o novo clichê das séries de comédia, substituindo a mulher extremamente obsessiva e competitiva tanto explorada depois do sucesso de Monica em Friends.

Sem ser demais ou deixar uma grande marca na história da televisão americana, Brooklyn Nine-Nine vem cumprindo bem a sua proposta, garantindo a minha fidelidade com a série por algum tempo. Entretanto, a audiência não anda nada boa e a retirada de Mindy Project e Dads da programação das terças da Fox serve de sinal de alerta para B99, que vem registrando números bem parecidos destas renegadas séries. Ficamos na torcida para que estes números melhorem e para que a série consiga sobreviver a grande onda de cancelamentos que deve limar a maioria das estreias deste ano.

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