Os últimos acontecimentos do Big Brother Brasil 18 provam que o público amadureceu sua visão do jogo, mas ainda gosta de uma novelinha.
Última formação de paredão: Paula, Mahmoud e Gleici. Mais de um mês de programa, rivalidades claras e declaradas. Um dos grupos conseguira colocar na berlinda três de seus adversários, felizes da vida porque dois deles deixariam a competição. A formação é anunciada por Tiago Leifert (evidentemente envolvido pelo jogo) e todos prestam as dissimuladas condolências pelo ocorrido. Diego e Patrícia vão para o quarto do líder, fecham a porta e tentando não ser ouvidos, pulam na cama, comemorando o sucesso de sua estratégia. A edição não coloca musiquinha demarcando o momento, não coloca nenhuma tarja, não os elege parte de nada, só mostra o que acabara de acontecer. Nós, aqui fora, não precisamos de nada disso… Assim como a própria Patrícia reagiu mal à indiferença de Paula enquanto todos choravam na prova do anjo, ninguém aqui fora compartilha a alegria que ela sente enquanto os três rivais choram na sala. É isso… Está pronta a dramaturgia que o programa sempre precisou abandonar, mas que se faz à força, como a vida tantas vezes força: de vez em quando é sobre um lado claro e outro escuro, simplesmente não tem como evitar.

As reviews do BBB andaram ausentes, mas os últimos acontecimentos da casa não têm deixado o espectador dormir na poltrona. Durante muitos anos, o programa tentou se valer pura e simplesmente de narrativas fechadas, novelescas, focadas em casais que não podiam ser separados ou injustiçados que precisavam ser defendidos. Isso era propagado por um espectador que não acessava a internet, votava pelo telefone e caía nas armadilhas catárticas que a edição fabricava através de trilhas sonoras, desenhos animados e recortes sentimentais. A novela das 21 terminava, mas o dramalhão permanecia no ar.
Há alguns anos, o quadro foi se modificando. O programa foi se libertando dessas amaras demagógicas, foi começando a apreciar a movimentação estratégica, sobretudo porque a internet começou a ganhar força e vivemos um tempo, agora, em que as ligações telefônicas já foram abolidas. Não é mais só assistir o BBB, é analisar o BBB. E a produção, ciente das necessidades de transformação, começou a mudar o casting, diminuiu os julgamentos cômicos das edições de terça-feira e deixou de lado a necessidade de forçar casais.
Mas, de fato, estamos diante de um reality show, que “conta uma história”. Estamos partindo da premissa de que a partir do momento em que pessoas começam a conviver juntas, uma história brota sozinha disso. E histórias, por evidência e inerência, apresentam a natureza de seus personagens. A avaliação disso é que leva à catarse e o Big Brother ou qualquer outro reality do mundo jamais chegaria a qualquer lugar sem essa provocação emocional. Os lados se montaram, os lados são escolhidos e a torcida se monta. Mas, até que ponto estamos falando de heróis e vilões?

Dupla Mandinga
Nas primeiras semanas em que estiveram no programa, Patricia e Diego formaram um trio com Ana Paula que acabou ressuscitando uma tendência da equipe de edição: sublinhar amoralidades através do humor. Criaram o Trio Mandinga. Mas, a própria internet já estava notando as vozes maledicentes de Patrícia e Ana Paula, totalmente alheias a quanto chocavam o público com frases que desejavam o mal aos rivais. Desavisados, o trio virou uma dupla e só aí, os remanescentes começaram a se perguntar: será que somos os vilões dessa edição? Bom, acho que sim.
A vilania, contudo, está sendo cavada por uma série de incoerências e hipocrisias movidas por um jogo de combinação que é TOTALMENTE legítimo, mas que por ser jogado por pessoas cheias de azedume como Patrícia, Wagner, Viegas e Caruso, se torna danoso para a imagem deles. E tiro Diego dessa equação porque ao contrário dos outros, não parece haver nele a mesma energia sombria que de repente transforma adversários de jogo em pessoas inferiorizadas e malditas.

Caruso, inclusive, é um babaca em níveis constrangedores. Um retrato cruel de parte da sociedade brasileira, com suas tatuagens, vocabulário de “mano”, apreciação por violência que foi devidamente contida por uma escolha religiosa superficial, que não esconde a forma retrógrada, atarracada, preconceituosa, com a qual ele vê a vida. “Se eu tivesse saído antes do Mahmoud os manos iam me zoar pra caralho”, disse ele no pátio depois que o rival saiu. A homofobia não se faz só por ataques diretos, mas também através de códigos velados. Viegas e Wagner são só um pouco mais polidos, mas estão na mesma patota. Não pode ser coincidência que os dois participantes mais perseguidos sejam um homossexual CLARAMENTE homossexual, sem um só fio de cabelo heteronormativo; e uma mulher pobre e negra. E não se enganem achando que a edição desse ano foi maliciosa na escolha de seus brancos, heteros, de classe média… Nayara, uma mulher negra, graduada e ativista, tratou Gleici com o mesmo desprezo injustificado, numa constrangedora postura hipócrita e dissimulada.
O Outro Lado do Paredão
O twist que colocou Gleici naquele quarto foi quase destruído pela reação histérica que ela teve. Tudo acabou salvo justamente porque os julgamentos sobre as duas maneiras de se viver o BBB continuam em pauta no show. Quem não combina se sente perseguido e quem combina fica amargurado por ver-se nessa posição de algoz. Tudo vira uma maçaroca de agressividade ativa e passiva. O público sempre fica do lado mais oprimido e mesmo que muito se tenha amadurecido (a demagogia de Lucas talvez tivesse vencido o programa anos atrás), somos espectadores ávidos pela “justiça” dos “personagens” que se apresentam na vida, em qualquer convivência, seja ela qual for, televisionada ou não. Salvamos eles para nos sentirmos salvos. Gleici é o expurgo bem-vindo, que nos impede de corrermos o risco de ver qualquer parte de uma Patrícia em nós mesmos.
Quando a produção faz a moça sair do quarto ao som da trilha de Clara em O Outro Lado do Paraíso, ela não está produzindo o maniqueísmo, ela está apenas admitindo-o. A reação de Patrícia foi um verdadeiro presente. Desesperada por ter sido vista com suas verdadeiras cores, surtou e parecia um animal selvagem acuado. Diego ficou sentado, derrotado, vendo tudo desmoronar, sabendo que jogou certo com os aliados errados, certo de que o fim é só uma questão de tempo. Kaysar. Ao lado. Também sem coragem de dizer nada, provavelmente pensando na mesma sintonia: Onde eu fui me meter? Patrícia implodiu as diplomacias, acabou com a elegância das rivalidades e agora tudo está mais claramente pessoal que nunca. Diego só tem uma saída: colocar alguém da própria aliança no paredão, para que os números entre ele (que provavelmente será indicado) e Patrícia se diluam entre os dois e a coisa não fique tão macabra. Caruso seria a melhor escolha para isso.
O melhor cenário seria Diego ficando sozinho e tendo que se reconfigurar todo. A briga entre Wagner e Viegas e o fato de Gleici ter voltado tão forte, deixa Wagner mais atento a com quem deve se aliar para ir até o fim (infelizmente Gleici não o viu no seu pior). Paula cresceu e Jessica precisa ser eliminada o quanto antes, assim como Kaysar e Breno.
O Big Brother Brasil 18 tá lindo e mesmo que Gleici, do lado bonzinho, ganhe, vai ser uma vitória que não me incomoda tanto. Assim como Ana Clara, ela é uma “mocinha” muito mais Glória Perez que Walcyr Carrasco: elas não perdem tempo resmungando, elas se defendem com escudos firmes e não perdem a ternura.

Ana Clara: Meu sonho é ver essa menina vencendo a edição. Ana Clara foi uma grata surpresa. A maturidade dela para lidar com o pai infantil é impressionante, a tensão com Paula se desenvolve cheia de complexidades, a sensibilidade que ela tem para lidar com os amigos, a inteligência para ver o jogo… Seria incrível vê-la vencer, mas infelizmente ela carrega Ayrton junto e ele, muitas vezes, é duro de engolir.
Gleici: Quem protagoniza merece, sempre.
Paula: Podia se envolver mais, mas é forte e mulher forte intimida, incomoda.

Kaysar: Um perigo. Representa tudo aquilo que o BBB já devia ter superado e espero mesmo que o envolvimento com Patricia tenha-o queimado bastante. Vencer porque é engraçado, atrapalhado, “inocente” e pobre já é coisa do passado.
Breno: Foi ali para beijar na boca. Aqui fora ele beija mais.
Caruso, Viegas, Wagner: A Profana Trindade Da Babaquice.






















