1984 encerra sua temporada com ótimos números, grande sucesso e a virada derradeira: muita emoção.
Uma das coisas que mais ouvi durante o período em que 1984 esteve no ar foi que American Horror Story não estava mais aprofundando seus personagens. Era uma crítica que eu conseguia compreender totalmente. Assim como aconteceu com Roanoke, essa temporada não era exatamente ligada a personagens e sim a um subgênero do horror. Lá eram os torture porns e os found fottage. Aqui, o objetivo é brincar com os códigos dos slashers, que tiveram seu primeiro apogeu no início da década de 80, quando Sexta-Feira 13 ganhou os cinemas com recursos narrativos que beiravam o assombroso de tão simplistas.
Os slashers são, por essência, simplistas mesmo. Aqueles que tiveram curiosidade de assistir ao primeiro Sexta-Feira 13 depois que a temporada estreou, sabem que muito do que se viu foi tirado dali. E que o filme não tem nenhum compromisso com construções nem minimamente complexas, deixando seus personagens num lugar de estereótipo que é uma das grandes características dos slashers também. Foi assim por muito tempo, até que nos anos 90 Kevin Williamson trouxe o gênero de volta e começou a driblar essas regras, produzindo um texto sagaz que colocava essas mesmas diretrizes em pauta.
American Horror Story fazia como ele: aproveitava a fonte para manuseá-la como bem queria. Mas, fuxicar na gênese de subgêneros como torture porns e slashers era um pouco mais complicado, já que sua graça estava justamente em não haver complexidades. Durante mais da metade da temporada a série respeitou isso completamente, reunindo um grupo de personagens estereotipados que estava ali para morrer e nada mais. Entretanto, sabemos que as coisas não serão exatamente assim, porque uma virada é encomendada para o episódio 100, quando a mitologia original retorna e a série encontra escopo para começar a enriquecer sua abordagem. A pergunta era: seria tarde demais?
The 80’s Will Never Die
Por algum tempo sim, pareceu que era tarde demais. Durante a primeira parte da temporada a presença de Jingles era alegórica e a transição para sua versão humanizada se deu muito rapidamente, com o personagem fugindo, constituindo família e perdendo a família tudo no mesmo episódio. O objetivo era evidente, mas o recurso precisava de mais desenvolvimento. Era difícil se importar com ele. Acontece que estamos falando de uma equipe de roteiristas treinada para conseguir executar grandes condensações. Bastou um Season Finale para contornar o problema e deixar 1984 mais emocional do que qualquer um de nós poderia esperar.
Jingles não foi o único a mudar… Era óbvio que o roteiro da finale encontraria um jeito de burlar a expectativa do festival por conta de questões orçamentárias e ele, enfim, não iria acontecer. Contudo, os embates providenciados eram tão crocantes que nem chegamos a lamentar isso. A começar pela chegada de Brooke… Foi muito esperto dar a Emma Roberts uma chance de ser boazinha e ela realmente mostrou uma incrível versatilidade. Uma das melhores cenas da temporada foi a de sua chegada de volta ao acampamento, bem a tempo de ajudar Trevor a não morrer do lado de fora da propriedade. A sequência foi ótima e usou a mitologia do jeito certo para provocar tensão. Sua parceria com Donna e o estabelecimento de duas final girls foi especial para o contexto contemporâneo.

Sobre Margaret não há nem o que dizer… A sequência da morte dela foi uma das mais chocantes que a série já fez. Mas, Montana… Uma vez redimida, ela se tornou outra parte importante do final. Tenho implicância com Billie Lourd, acho que ela tá sempre na mesma cadência… Mas, a maneira como a personagem se dedica a salvar o filho de Jingles foi o suficiente para torna-la querida. E tudo isso em um episódio. Aliás, bastou apenas um episódio para que a história de Jingles saísse do campo do superficial e começasse a ganhar contornos verdadeiramente comoventes. De mansinho, American Horror Story estava fazendo de novo, pegando aquele código de cultura pop deliciosamente rasteiro e dando a ele uma fundamentação humana inesperada. Assassinos, fantasmas, monstros, de repente nos fazendo chorar por conta de angústias que todos somos capazes de compreender.
E então, Finn Wittrock chega para a catarse derradeira. A canção escolhida para fechar a temporada não poderia ter sido mais poderosa. Mike and the Mechanics era um projeto solo de um dos integrantes da banda Genesis e no ano de 1989 eles lançaram a canção The Living Years, que foi escrita justamente por conta da relação perdida entre pai e filho depois da morte. A canção foi um imenso sucesso e se coloca tão bem no episódio, mas tão bem, que dá até um arrepio quando nos deparamos com versos como esses:
Eu não estava lá naquela manhã
Quando meu pai se foi.
Eu não pude dizer a ele
Todas as coisas que eu tinha a dizer
Acho que eu chamei seu espirito
(…)
Tenho certeza que ouvi seu eco
Nas lágrimas de meu filho
Eu queria apenas poder ter dito isto
Enquanto ele vivia.
Finn chegou absorvendo perfeitamente a história pregressa daqueles personagens aparentemente tão rasos e procurou pela figura do pai com uma expressão notoriamente comovida. Quando ele foge do acampamento, sai da propriedade e vê o pai, a avó e o tio olhando para ele, de longe, ao som dessa canção, a emoção invade sem aviso e o coração se entrega. Ryan Murphy disse que o final de 1984 foi o que mais o emocionou e é perfeitamente compreensível diante do que acabamos de ver. Um episódio… Apenas um e as perspectivas e sensações se reinventam enormemente. A série ainda se revira para nos surpreender… E consegue.
Nove anos no ar e 1984 foi a temporada com o maior número de críticas positivas. Ela tem 95% de aprovação e uma audiência que ainda deixa os executivos do FX sorrindo de orelha a orelha. Segundo o próprio Ryan, por eles, a série chega aos 20 anos. Mas, também segundo o showrunner, ano que vem pode ser que cheguemos ao derradeiro fim (é o último ano de contrato). Ele planeja uma temporada que reunirá o máximo possível de rostos familiares, para nossa ansiedade e completo deleite. 1984 foi outra temporada de reinvenção, sem membros originais, com novos códigos visuais, mas ainda apaixonada pela cultura transgressora que utiliza. Nas palavras de Montana está a grande declaração: Os anos 80 nunca morrerão. O otimismo de Ryan – graças por isso – também não.















