O episódio final de American Horror Story Delicate ofende os fãs da antologia com um verdadeiro surto de imbecilidade.American Horror Story pode ser considerada a produção que melhor representa a trajetória de Ryan Murphy no hall dos grandes sucessos da televisão americana. Quando a série estreou, em 2011, Murphy já tinha ganhado alguns prêmios por conta de NipTuck; e Glee – que estava entre a segunda e terceira temporada – vivia seu auge. Mas, foi só com American Horror Story que ele conseguiu o status de “reconstrutor de carreiras” e de showrunner que pensava fora da curva. Ele trouxe de volta ao jogo Jessica Lange, Kathy Bates, Angela Basset; foi responsável pela descoberta definitiva de Sarah Paulson e talvez sem ele, Lady Gaga ainda estivesse lutando para ter uma boa chance como atriz em Hollywood.

Murphy sempre teve uma fama de abandonar suas criações à própria sorte depois de alguns anos e de tomar decisões equivocadas conforme as mais acertadas vão se esgotando. Porém, muito disso é resultado de sua prolixia criativa… Murphy tem tantos projetos que seria impossível dedicar-se igualmente a todos eles. Mesmo assim, ele continuou envolvido com AHS, protegendo a antologia da derrocada, mas ainda cedendo a mudanças que acabavam depondo contra a produção.

As escalações de grandes nomes foram ficando esquecidas e cada vez mais elencos jovens ganhavam muito destaque; os tempos de episódios diminuíram consideravelmente, dando a sensação de que toda as tramas corriam desenfreadamente. Além disso, as estratégias de divulgação se cansaram e Murphy não conseguiu mais o nível de suspense e expectativa que vimos antes da estreia de Roanoke, por exemplo. A audiência ainda segue satisfatória, mas o desenvolvimento é irregular. Em Double Feature só uma das histórias era boa; então veio a excelente temporada NYC, para depois sermos engolidos pela bobagem em torno de Delicate.

E a torcida era grande… Emma Roberts seria um rosto que ao menos nos manteria próximos dos elencos clássicos da antologia. A escalação de Kim Kardashian era outro ponto de interesse, mesmo que fosse para reclamar de sua presença. Essa também seria a primeira vez que AHS teria uma história adaptada de um livro, e quem assistiu American CRIME Story sabe que suas três temporadas (OJ Simpson – Versace – Monica Lewinsky) foram adaptadas de livros e são impecáveis.

O apoio da literatura, contudo, não ajudou essa temporada. Quando Delicate estreou, o livro “Delicate Conditions” de Danielle Rollins tinha sido lançado há poucos meses, mas quem teve a pressa de ler, soube que embora a ideia central seja a base tanto de um quanto de outro, Ryan Murphy e sua equipe exageraram bastante nas mudanças setoriais e – com o intuito de ter mais terreno para explorar o horror – descaracterizaram boa parte do universo de Danielle, transformando uma ideia que deveria ser sobre um grupo de bruxas que adoravam a fertilidade e usavam magia para proteger grávidas, em um culto afetado que quer dominar o mundo. Para isso, usaram de todos os mesmos recursos de sempre, como canibalismo, bebeção de sangue, sexo com demônios e bebês com garras.

Essa mudança foi suficiente para que a narrativa de Delicate fosse construída em cima de um suspense previsível – e que já foi usado outras vezes na antologia. Emma Roberts tentou o que podia para fazer Anna ser alguém por quem deveríamos torcer, mas suas “visões” e tudo de estranho que lhe cercava era repetitivo e desinteressante. Por vários episódios, a dinâmica era sempre a mesma: a barriga fazia algo estranho, uma boneca aparecia, uma mulher com chifres olhava da multidão e tudo era repetido over and over.

Não houve aprofundamento nenhum de personagens além de Anna durante semanas; e no meio disso tudo, as sequências de Siobhan sendo uma agente completamente sem coração eram a única coisa que fazia todo aquele enredo genérico ser menos penoso. Siobhan era o puro suco da crítica hollywoodiana sempre presente na obra de Murphy. E Kim Kardashian, surpreendentemente, dava conta dessa missão. Além de ter sido constituída para parecer insuportável, Kim estudou a personagem, trabalhou inflexões e acabou se tornando a estrela da temporada. O final é todo sobre ela e há uma boa quantidade de sequências em que seu trabalho é bastante digno.

Contudo, é esse final que acaba levando Delicate para esse trono bizarro de piores coisas que Ryab Murphy já produziu em sua carreira. Sabemos que a temporada foi pausada pela greve dos roteiristas e que quando retornou, provavelmente precisou trabalhar em condições não muito favoráveis. O que chegou até os espectadores, entretanto, é indesculpável.

Há dois grandes momentos na temporada: o episódio centrado todo em uma das mulheres que faziam parte do culto; e que decide abandoná-lo para ser chef de um restaurante em NY; e o teaser que correlacionava a temporada com as filmagens de O Bebê de Rosemary, apresentando Mia Farrow, Frank Sinatra e até Sharon Tate. Esses foram dois momentos inspirados, que até faziam parecer que os bons momentos de AHS estavam de volta. A inspiração, contudo, parou por aí.

O que os roteiristas preferiram fazer, foi mudar o caráter humano-emocional do final do livro e entregar a adaptação a um texto ridículo sobre mais um bebê maligno. As conexões entre Siobhan e o marido de Anna eram apenas shock value; as outras atrizes pareciam um coro grego de montagem estudantil, circulando pela cena debilmente; e Siobhan, apesar de tão poderosa, tinha a resistência de uma folha de papel. Os dois episódios finais tinham ridículos 30 minutos de duração; antecipando uma condução capenga, tosca, que poderia até ser resultado da greve, mas que simplesmente não tinha escopo para ser justificada.

É uma pena… Depois do trabalho lindo da antologia em NYC, esperávamos por mais uma aposta positiva. Havia algo de especial em falar da gravidez como uma força natural capaz de exemplificar o horror por uma ótica contemporânea, em que a gravidez e o sofrimento das mulheres no curso da gestação, pararam de ser ignorados; mas era tudo uma ilusão.

Quando voltar para a temporada 13 – e o número 13 precisa ter algo a ver com isso – talvez seja o momento de repensar a distância que esse futuro ainda tem. American Horror Story precisa de ajuda… porque ela é quem está vivendo em delicadas condições.

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