O mal não tem um formato exato, nós sabemos. O mal, cuja definição já é muito complicada, esconde-se em diversos lugares ou às vezes não se esconde de maneira alguma. Nesse caso, ele apenas se disfarça de como o bem é lido no contexto em que tenta executar seus planos. As narrativas ficcionais tentam resgatar essa pluralidade, dando-nos os mais diversos tipos de antagonistas — humanos e não-humanos. Isto é, no mundo imaginativo da ficção, não temos o mal apenas como um gesto, um olhar ou um discurso. Pelo contrário, o mal tem se tornado, através das narrativas, cada vez mais sofisticado: tão sofisticado que às vezes você não consegue ir muito bem naquele jogo de sete erros ao compará-lo com “o bem”. Nós abandonamos a clássica ideia de “mal”, portanto; os roteiristas de His Dark Materials, aparentemente, não.

THE IDEA OF NORTH

Em sua segunda semana, a série inspirada na trilogia de Philip Pullman eleva-se ainda mais, fazendo render o potencial que vimos anteriormente. Com as peças apresentadas no primeiro episódio, o segundo se permitiu avaliar o tabuleiro e nos contar mais sobre as regras do jogo. Diversos pequenos erros que poderiam comprometer a experiência do telespectador foram ajustados aqui. Isso prova que, assim como a literatura em geral, a produção só precisava de tempo para alcançar as expectativas nelas depositadas. Há uma corajosa decisão de, a partir deste episódio, não seguir a lógica e a sequência dos livros. Isso, na verdade, só beneficia a série, dá-lhe mais possibilidades no desenvolvimento da trama e reajusta o que poderia ser um foco unilateral.

His Dark Materials.

Assim, não dependemos apenas dos olhos da protagonista e não ficamos apenas em um núcleo ou mesmo em um plano. Lyra vai do plano mais particular, um drama introspectivo, lidando com a situação em que se vê a um plano maior, épico. O mesmo ocorre com a antagonista, que lhe serve de mãe no primeiro momento, criando para as duas um cotidiano limpo, que se vende familiar, correto; em outros espaços, no entanto, ela é a mente por trás do plano, vê-se responsável pelo destino de muitas pessoas. Essas interações das duas entre si e delas e seus distintos contextos, dois momentos diferentes, ditam o tom deste segundo episódio. Vamos de um ritmo para outro, de uma verdade para outra e de uma criação de mundo bem cuidado para um pequeno deslize da direção que compromete um pouco a história.

Esse tropeço em His Dark é a leitura que a direção, o roteiro e a atriz Ruth Wilson fazem de sua personagem. Não tanto por se afastar do livro, já que isso, em algum ponto, será subjetivo, mas porque a abordagem da personagem parece desleixada diante da complexidade do mundo e das outras pessoas apresentadas. Na história, uma organização cruza o limite do sagrado e do justo para ter acesso a algo. Ou seja, é uma história sobre ambição e sobre poder. Marisa Coulter, seus subordinados e seus superiores querem alcançar algum conhecimento que ainda não sabemos, entender alguma verdade. São pessoas tão cruéis e gananciosas como as pessoas cruéis e gananciosas que conhecemos em nosso mundo. Em The Idea of North, no entanto, o que se vê é uma construção gestual que nos faz pensar que o mal é uma manifestação mental em Marisa.

His Dark Materials.

Explico: na leitura da série, temos uma personagem que muitas vezes parece desequilibrada, ou a representação daquele mal caricato, de histórias infantis. Esse mal não está no material de origem, não é essa a sensação que a personagem do livro nos provoca. Marisa é apenas uma pessoa ambiciosa. O que se perde ao mudar essa característica é que não temos uma personagem complexa, que tem algo a nos dizer sobre o comportamento humano e como a sede de conhecimento rompe alguns laços. Temos apenas alguém que é mal porque há um desvio mental em si — característica explorada em muitas séries, mas que fica desajustada aqui.

Por outro lado, ganhamos mais empatia com Lyra. Se antes eu disse que gostei e me importei mais com Roger do que com a protagonista, agora percebo um maior equilíbrio entre as crianças. Ou seja, se você, assim como eu, começou meio distante da personagem principal, talvez ela o ganhe com o segundo episódio. Aqui, temos uma garota inteligente, que se arrisca, mente, trama e foge. Lyra tem uma petulância infantil que é divertida de assistir. Seu instinto de sobrevivência molda seu comportamento, nunca o mesmo em situações diferentes, divergindo de sua hóspede. Dafne Keen parece mais confortável nesse segundo momento, equilibrando bem a dúvida, o medo e a tristeza diante das primeira descobertas.

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O Norte, o que ele seria e o que está guardado por lá, começa a ser, de fato, semeado como ideia por aqui. As crianças sequestradas estão sendo levadas para lá, a um lugar chamado Estação. Antes, Lyra queria ir ao norte para descobrir os segredos desse mundo desconhecido, passar um tempo com o tio e viver as aventuras que só a infância defende como possível. Agora, no entanto, o norte se mostra uma necessidade. Isso porque o telespectador percebe que a garota é a única com boas pistas sobre o que está acontecendo. Os gípcios estão perdidos em Londres. Até conseguem encontrar uma pista, mas nada que acalme definitivamente as mães desesperadas. Lyra, porém, descobre provas concretas de que é no norte que as crianças (não só essas, mas possivelmente outras) serão encontradas.

Com a fuga de Lyra, percorrendo as perigosas ruas da cidade grande, chegamos ao “abandono” que eu mencionei no texto anterior. Nesse sentido, o livro e a série se aproximam. Sem a escola onde cresceu, a garota também perde esse lar temporário fornecido por Marisa. Perde desta, também, uma imagem da mulher que gostaria de ser ao crescer — uma mulher acadêmica, que se sobressai em um meio dominado pelo masculino. Sem o tio por perto, ela também perde a confiança nele e muito do que construíra como memória afetiva, afinal, ele mentiu para ela e não é quem dissera ser. Há também uma perda de noção das regras que os adultos lhe passaram: os Gobblers não são uma lenda urbana e alguns daemons conseguem se afastar de seus humanos — algo “não natural”, segundo Lyra. Assim, assistimos em His Dark Materials a uma interessante e triste construção do abandono — talvez do abandono das verdades infantis pelo qual passa uma criança ao crescer.

His Dark Materials.

Sem Lord Asriel nesse segundo episódio, acompanhamos as consequências de suas ações e como elas influenciam no desenrolar da história. Vemos novamente o Reitor, a clássica personagem que sabe mais do que demonstra (não só das outras personagens, mas de nós). Dessa vez, ele precisa lidar com Lord Boreal (Ariyon Bakare), talvez o segundo antagonista da série neste primeiro momento. Assim como Marisa desafia os princípios sagrados, morais e éticos, Boreal o faz ao invadir lugares sem permissão e ao cruzar os dois mundos através de um portal. Com este, nós ficamos sabendo que as fronteiras entre os dois universos são menos complicadas do que pensávamos. Talvez, a partir de agora, acompanhemos quem tem ciência disso e o que fará com a informação.

Boreal faz algo que a série não falou ainda, mas que, aos leitores do livro, reafirma sua crueldade: também não é natural que os humanos interajam com os daemons de outras pessoas; tocá-los é impensável. A construção deste segundo vilão é mais interessante porque vemos que ele não é “apenas” um psicopata cujo desvio de comportamento atribuiríamos à condição mental. Boreal é alguém com sede de poder e que se alimenta com uma ira pouco controlável, visível em seus olhos.

His Dark Materials.

The Idea of North é um episódio com dois ritmos diferentes. No primeiro momento, a Sra. Coulter e Lyra tentam recriar uma atmosfera maternal entre elas; ou mesmo uma atmosfera de aprendizado na condição de que a menina será a aprendiz e aprenderá a se vestir, a se comportar e o conhecimento que o antigo colégio não lhe forneceu. Nós, telespectadores, sabemos que isso não durará. As coisas estarem demasiadamente no lugar e numa fotografia de cores muito claras meio que nos causa um estranhamento — comparando com o escuro e a profundeza de outros ambientes, onde o perigo se afirma. Vinte e oito minutos depois, assim que um elevador abre e uma fala erótica e desconcertante é dita, trocamos de ritmo. É quando a crise em Marisa desanda.

Nesse segundo momento, His Dark Materials se torna a série que os fãs de aventura estão esperando. Temos uma briga bizarra entre daemons, reviravoltas sobre o passado da protagonista, alguns antagonistas revelados, o que pode ou não ser uma cena de assassinato, uma sequência investigativa que reafirma a astúcia de Lyra e sua fuga posterior. Mais do que apenas exibir suas tramas e alimentar seu enredo aos poucos, a série pode investir nesse jogo de dois ritmos em sua primeira temporada — é inteligente e não permite que fiquemos com a sensação de que há algo faltando.

His Dark Materials.

Sem adultos confiáveis à vista, Lyra termina capturada. Somente nesse domingo veremos quais as consequências disso. Pode ser que, no primeiro momento em que quis se afastar da realidade cruel que a cerca, ela tenha acabado na teia tão bem construída por Marisa. Esta, indo da ira ao desequilíbrio, afasta-nos de qualquer interesse sobre seu passado ou seu futuro: o mal é o mal; o que há para compreender a respeito? Vale esperar que os próximos diretores diminuam um pouco esse tom e que o roteiro colabore para construir uma vilã memorável. Nessa história sobre traição, ainda temos Lyra para seguir e por quem formar torcida. Caminhando para descobrir qual é a traição antes mencionada, não fomos traídos: His Dark Materials começou bem e continuou melhor ainda.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
his-dark-materials-fronteiras-do-universo-01x02-the-idea-of-northNessa história sobre traição, não fomos traídos: His Dark Materials começou bem e continuou melhor ainda.