Temporada 1984 antecipa parte de sua virada e revela uma conexão com os outros anos.
Quando American Horror Story estreou na televisão americana o mundo ficou surpreso com a forma como o horror estava sendo proposto na nova investida de Ryan Murphy na TV. Essencialmente, o gênero é tomado de referências cômicas, apelos visuais grotescos e gore. Historicamente, as obras de horror se tornam clássicos pelas razões menos prestigiadas ou acabam se tornando pedaços de arte cult com o passar dos anos. Não se espera de um item do gênero nenhum tipo de apelo dramático efetivo e foi exatamente por isso que American Horror Story impressionou tanta gente.
Ryan Murphy e Brad Falchuk tomaram a decisão de elegantizar a história ao aprofundar a posição dos personagens para além das alegorias. O horror trabalha muito com estereótipos e Murphy compreende bem os níveis de verdade a respeito deles. O que ele fez foi mantê-los, mas usando o texto e a direção como ferramentas para falar dessas pessoas além de suas mortes. O resultado foi um híbrido inteligente, que entregava o choque visual, mas que era capaz de polidimensionar os personagens, dando a eles motivações e históricos. Assim, os textos dos personagens soavam muito mais realistas, apesar dos contextos fantásticos em que estavam inseridos.
Outra coisa esperta foi estabelecer uma mitologia própria. O conceito de soul-binding (ligação de alma) não é uma exclusividade da série, mas ela foi a que manipulou a ideia de forma mais completa. Segundo a teoria, o espírito é capaz de sofrer traumas muito grandes de acordo com o que o corpo passa em vida. Esses traumas podem atrofiar a evolução espiritual, mesmo que o corpo físico continue envelhecendo. Uma vez traumatizados, os espíritos podem ficar vulneráveis a todo tipo de energia extradimensional. Lugares onde a violência tenha chegado a extremos podem ser núcleos de concentração dessas energias. Se o trauma – a morte – acontecer num desses lugares, pode ser que a alma sofra a ligação derradeira. Na série, essa ligação chegou a um apogeu e os espíritos ficaram presos.

A mitologia, contudo, foi mais além. Estudiosos sobre os assuntos fantasmagóricos garantem que se um fantasma tiver consciência da própria morte ele pode controlar aspectos da própria aparência. Apenas os que não entendem que morreram aparecem sempre com a mesma forma que tinham quando a ruptura aconteceu. Já que estamos falando de um lugar que produz a ligação de alma mais intensa que já se viu, essas mesmas energias extradimensionais podem ter elevado essas capacidades de transmutação, o que explica os fantasmas da série serem palpáveis, fazerem sexo, cometerem crimes e por aí vai. Juntaram tudo isso com a antiga regra dos portais abertos na noite do Halloween e a mitologia estava pronta. O que nunca tínhamos visto é um exemplo de como tudo isso pode começar a acontecer… Até agora.
Interligados
As pistas para a grande virada da temporada 1984 eram poucas, mas a maior delas (além de Jonas) estava na própria história que vimos desde a primeira sequência. A mitologia já tinha retornado na temporada Hotel e em pequenas pitadas nas temporadas Roanoke e Apocalypse. Mas, uma coisa que sabíamos era que em locais onde muitas tragédias tinham acontecido, a ligação era formada. O Acampamento Redwood parecia o candidato perfeito. De certa forma, relutávamos em aceitar a ideia porque achávamos que depois de Apocalypse a série abandonaria as conexões. O episódio 5 desse ano, felizmente, provou o contrário.
A volta de Ray para o acampamento logo no começo do episódio foi derradeira. Fãs da série captaram imediatamente a conexão. Passamos, então, a presenciar apenas quais seriam as posições de cada personagem no tabuleiro de morte que rondava o lugar. Considerando que ninguém via os fantasmas do primeiro massacre, as prisões extradimensionais só passaram a acontecer quando o massacre de 1984 começou. A partir dali ninguém mais conseguia sair. Os personagens não têm nenhuma ideia ainda do que provocou esse fenômeno, mas considerando que o episódio 100 está a vista, surpresas podem provocar ainda mais conexões.
Foi um episódio ainda melhor que o anterior, com aquele início já incrível entre Rita e o pai. As motivações dela foram esclarecidas ali, mas ainda estamos no escuro com relação a Brooke. Minha maior curiosidade é a de saber como os personagens continuarão a ser explorados após essa mudança de dinâmica. Montana até que ficou mais divertida e Xavier tinha potencial desde o começo. Com a saída debochada de Jingles e Ramirez do acampamento, a série vai encontrar outra direção, que talvez seja a de justamente mostrar a esses personagens como eles devem agir dali por diante. O ônibus que chegou com as crianças encontrou o caos, mas se eles se organizarem, quem sabe, o Acampamento pode até voltar a funcionar.
É uma ansiedade imensa… Murphy não falou sobre o episódio 100, a promo não entrega praticamente coisa alguma. Mas, sabemos que nada será por acaso e que a ocasião não pode passar em branco na história. American Horror Story sempre foi considerada uma controvérsia, mas ela nunca poderia ser considerada entediante. Serão 100 episódios na próxima quarta… 100 motivos para muito orgulho.






















