Quis custodiet ipsos custodes?
Sátiras – Juvenal
Num primeiro olhar, muitos podem pensar que “Watchmen” é apenas um “whodunnit” englobado num ambiente de super-heróis. Mas o trabalho de Alan Moore e David Gibbons vai muito mais além disso. A graphic novel de 1986 é uma verdadeira sátira ao conceito do herói, desmistificando e descontruindo a imagem santificada desses personagens, os usando como um exemplo que reflete as ansiedades contemporâneas. O desenvolvimento dos personagens e os dilemas morais enfrentados pelos mesmos são as linhas que costuram o panorama psicológico e sociológico de um mundo a beira de um colapso, da constante iminência da guerra nuclear proporcionada pelos anos mais paranoicos da Guerra Fria. Não à toa, a obra é reconhecida como uma das mais importantes narrativas escritas, por sua abrangência e atualidade, mesmo após a mudança do contexto mundial.
Adaptada ao cinema em 2009, nas mãos de Zack Snyder, a obra conseguiu manter seu conteúdo político numa das mais fieis transliterações já feitas para o cinema. A polêmica mudança do final da obra impressa gera até hoje discussões, mas o resultado permanece o mesmo, já que o teor de problematização perdura intacto. Dez anos depois e é a vez de Damon Lindelof mexer nesse vespeiro da cultura pop e adaptar a história, agora para a televisão. Quando ele anunciou que a série seria uma continuação, mas que respeitaria os cânones da graphic novel os utilizando como pontos cabais de sua narrativa (numa espécie de remix entre velho e novo), os fãs já preparam os archotes e arados para mais uma rodada de críticas baseadas no preciosismo inerente ao fandom. As dúvidas não poderiam ser mais válidas, mas o resultado não poderia ser de maior qualidade. “Watchmen” é uma das mais inteligentes e corajosas estreias desse ano, indo totalmente além do que se esperava de uma adaptação, criando uma nova máscara para um velho e conhecido rosto.
A primeira coisa que vem à cabeça após ver esse piloto é: espelhamento. A obra impressa se utiliza desse sentido cíclico tanto na narrativa, como na sua própria estrutura física (nos quadros que englobam a ação). Nesse primeiro episódio o sentido é o mesmo, mas causando aproximação com a obra de origem. Somos apresentados a um mundo trinta anos após o massacre de Nova York ter acontecido. Os efeitos das transformações causadas pelos super-heróis, assim como as consequências de seus atos são sentidos no cotidiano de um 2019 de uma realidade alternativa. Entre propagandas de televisão (American Hero Story: Minutemen), chuvas de lula (ondas secundárias do ataque da que destruiu NY), veículos elétricos, zepelins que sobrevoam a cidade e manchetes de jornais é que os personagens são apresentados.

Na gn, eram a ameaça comunista, a guerra nuclear e o medo da destruição mútua que assolava a humanidade. Hoje é o retorno de males que até então pareciam estar mortos e enterrados e que se mostram vivos e potentes. O uso do Massacre de Tulsa em 1921, numa referência tanto histórica como ao grand finale da matéria base, é o gatilho de entrada do problema da supremacia branca e a retomada de movimentos de extrema direita mundo a fora, numa jogada genial de Lindelof de trazer a narrativa dos anos 80 para os dias de hoje. A escolha de Tulsa como palco para que a história se desenrole, só mostra que a problemática sempre estava presente, mas só precisava da validação externa para que retornasse. No mundo real são os presidentes eleitos, na série é a figura de Rorschach. Antes um herói da segunda geração, Rorschach acaba sendo o motor narrativo de toda a trama da contraparte impressa, com sua investigação sobre a morte do Comediante e a subsequente descoberta do plano de Ozymandias. Só que ele também é um poço de extremismo. Tem uma visão de mundo completamente limitada, apoiando valores que hoje seriam vistos (e com toda razão) como completamente inaceitáveis e deturpados. A Sétima Cavalaria, grupo supremacista da série baseado na sua figura, se usa dessa retórica para alimentar o ódio contra as pessoas de cor e pela igualdade social atingida no contexto do mundo da série. Assim como o personagem enxergava o mundo em sua jornada investigativa nas páginas impressas, agora na série os personagens se usam disso para destilar seus preconceitos.
No outro polo, está a polícia que assumiu o papel que ajudou a exterminar trinta anos atrás. Na banda desenhada, a Lei Keene surgiu em 77 tornando o exercício de super-herói em vigilantismo, logo, em crime. Isso acabou com a segunda geração de heróis (os Watchmens do título), fazendo que somente aqueles que trabalhassem para o governo mantivessem um pouco do status quo adquirido. Entre os nomes mais famosos estão o Comediante e Dr. Manhattan. Só que nesse mundo atualizado e distópico, a polícia assumiu a persona do vigilante, agindo mascarada e colocando heróis (mesmo que o sentido da palavra aqui não seja o mesmo) em suas fileiras. O intuito disso é proteger sua força, de inimigos cada vez mais violentos e inteligentes que ameaçam suas famílias e entes queridos. Mas não deixa também de ser uma crítica ao poderio policial moderno, da impessoalidade da lei que age acima daquilo que protege e comete barbárie.
Sister Night é o nosso foco nesse núcleo e a protagonista (até o momento) da série. E Regina King faz um trabalho magistral em apresentar essa mulher dividida entre a família e a luta contra o mal moderno. E ela não deixa de ser badass em ambas as frentes. É através dela também que vemos como as mudanças pós NY aconteceram e como isso mudou a sociedade de Tulsa (e provavelmente dos EUA como um todo). A reconstrução do bairro negro destruído pelo levante branco e como a identidade cultural é celebrada e mantida em suas ruas, é um tapa de pelica que o roteiro de Lindelof dá na cara da audiência. A eleição de Robert Redford (numa sacada genial e totalmente irônica), que agora dura trinta anos, trouxe esse mundo justo e benéfico, mas que também é um local de deturpado desequilíbrio na visão dos novos seguidores de Rorschach.

O único plot que se desconectou totalmente do resto é o que envolve Jeremy Irons, cujo personagem ainda não foi explicitamente entregue, mas que se presume que seja Adrian Veidt aka Ozymandias. Sua riqueza, seu nível de requinte e a constante malícia no olhar só indicam a quase certeza dessa teoria, digna das qualidades do homem mais inteligente do mundo. Em que época se passa isso é que reside o mistério, já que no decorrer do episódio aparece uma manchete sobre sua morte. Estaríamos vendo algo que acontece entre o final da graphic novel e o começo da série ou ele está construindo mais um plano “sórdido” no castelo inglês que tomou como lar?
O assassinato do chefe de polícia Judd (Ben Johnson) serve como pontapé, assim como o do Comediante nas páginas impressas, para que toda a investigação se desenrole daqui em diante, com direito ao icônico respingo de sangue caindo sobre sua insígnia, numa referência direta ao smile do herói.
No final das contas, a série apresenta sua própria versão da contraparte impressa. Ao mesmo tempo que se coloca num tempo após os acontecimentos, também cria suas próprias bases, personagens e mistérios a serem resolvidos. Apresenta um início que ainda deixa espaço para desenvolvimento, mas que cria um alicerce mais do que sólido pra sua narrativa. “Watchmen” é mais um acerto da HBO no campo da dramaturgia, oferecendo uma obra que tem tudo para entreter ao mesmo tempo em que instiga o espectador a pensar por si só. Assim como a HQ que deu origem a tudo.
E agora, quem vigia os vigilantes? Apenas começamos a obter as repostas…
Rorschach’s Note #1: A série se utilizou de muitos easter-eggs e referências para com a obra de origem e a adaptação de Snyder. Dos mais óbvios, como “Unforgettable” que foi trilha no filme e Archie (a nave usada pela polícia), aos mais sutis, como “Under the Hood” livro de Hollis Mason (o primeiro Coruja) e a senha 1985 (ano em que a história se passa na graphic novel). Recomendo ler a obra original ou ver o filme de 2009 para ter um embasamento melhor nessas dicas que a produção vai jogar nos episódios;
Rorschach’s Note #2: Achei interessante a concepção visual de Looking Glass (ou Espelho). Ele lembra bastante o Rorschach, mas sem tantos problemas. Gostei também de Red, interessante ver um russo como herói;
Rorschach’s Note #3: A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é outro dos pontos positivos;
Rorschach’s Note #4: Qual a importância do garoto sobrevivente do Massacre de Tulsa? Ele promete ser um dos principais vértices da série.




















