Nem sempre dá para acertar. Nem sempre dá para mudar. É com essas duas lições que saímos de The ABC Murders, o último especial de fim de ano da BBC envolvendo adaptações de Agatha Christie. Depois de anos acertando, para mais ou para menos, no desenvolvimento de suas transições para o audiovisual, era inevitável que um dia parássemos aqui. A ousadia em mudanças de personagens clássicos são sempre bem-vindas, mas aqui não se justificam e não se valem diante do plano maior. Há uma tentativa para fazer a história relevante demais, o que a torna, no fundo, enfadonha demais.
O roteiro, novamente, vem pelas mãos de Sarah Phelps, talvez há muito amaldiçoada pelos fãs de Agatha Christie mais apegados ao material de origem. Este é seu quarto projeto com o texto da escritora inglesa, seguindo And Then There Were None (2015), The Witness for the Prosecution (2016) e Ordeal by Innocence (2018). A cada novo livro adaptado, vemos a voz da roteirista aparecendo, dando mudanças aos enredos de Christie. É tudo acerto até que não é mais. As mudanças são bem-vindas até que não são.

The ABC Murders conta a história de cartas recebidas pelo famoso detetive Hercule Poirot (aqui John Malkovich), enviadas por um assassino que anuncia suas futuras vítimas através de letras do alfabeto. Cabe ao detetive e à polícia local encontrar, através das pistas nessas cartas, quais serão as próximas vítimas e desvendar o mistério por trás da identidade do assassino. Enquanto acompanhamos o detetive em seus anos mais decadentes, lidando com a descrença da nova geração sobre sua pessoa, seguimos Alexander Bonaparte Cust (Eamon Farren) que, como o nome já adianta, pode ser nosso Assassino do ABC. Na mesma esfera do decadente, o vendedor tem um estranho relacionamento com a violência e com a sociedade a seu redor.
Assim como And Then e Ordeal, The ABC chega em três episódios, que foram exibidos no final de dezembro do ano passado pela BBC One. A direção é de Alex Gabassi, que dirigiu As Crônicas de Frankenstein, mais conhecida como a série que me fez receber xingamentos no meu perfil pessoal do Facebook. Lá, Alex ficou responsável pela segunda temporada, que é minha favorita por injetar mais vida no enredo e abandonar a monotonia do primeiro ano. Aqui, no entanto, ele faz o contrário. Não posso chamar The ABC de série contemplativa. É um conjunto de cenas repetitivas que trazem para a televisão aquela sensação de não conseguirmos tirar algo da nossa cabeça. Isto é, as cenas se repetem sem parar, como uma memória angustiante que não nos abandona. Faz sentido? Faz. É justificável? É. Gostaríamos de ver isso em tela? Definitivamente não!

The ABC tem um comentário social. A questão dos imigrantes é levada para o horário nobre do natal britânico de forma indireta. É onde deveria estar, eu sei. Quando a população de um país se esquece de certos princípios, é bom que a televisão assuma o papel de confrontar suas posições. Mas há maneiras de se fazer um comentário social dentro do mistério, do suspense, do horror ou da ficção em geral — e a receita não parece ter sido seguida aqui. Sarah altera a personalidade de seu protagonista, o famoso detetive, para fazê-lo um imigrante com medo, assustado, fraco diante da sociedade. Não é uma mudança adequada porque, através desse processo, Hercule perde sua sagacidade, a estranheza que nos convida a suas aventuras e o mínimo interesse que podemos ter por ele. Vira um ser decadente de quem temos, no máximo, pena. É bem distante daquilo que é feito com Bill Hodges, protagonista de Mr. Mercedes (Audience).
Mas, como diria Hilda Hilst, “calma, Calma, também tudo não é assim, escuridão…”. Há alguns acertos dentro da narrativa. Vale destacar o elenco, sempre muito comprometido nas minisséries do canal. John e Alexander formam um bom par de antagonismos. Rupert Grint está tão irritante quanto o Roni sua personagem, o inspetor Crome, precisa ser. Tara Fitzgerald faz uma personagem terrível, mas com muito tato. E Freya Mavor assume com competência o cinismo e o oportunismo de sua personagem.
Dá para elogiar as reviravoltas do roteiro, quando há movimento na trama. As personagens femininas não permanecem em uma posição isolada, frágil, dentro da narrativa. Todas as atrizes ganham material para desenvolver uma mulher que não se rende a “seu lugar” na sociedade, desafiando os princípios morais de seu tempo — algo que a roteirista tem feito em todas as quatro adaptações que ficou responsável. O mesmo senso de comportamento se arrasta para outras personagens, prendendo-nos em um mundo cruel e xenofóbico onde não há alguém amável para se apegar. É algo que eu particularmente gosto, não fosse o discurso desajeitado por trás.

Escondida no roteiro, também há uma brincadeira feita pela própria Agatha Christie em Ordeal by Innocence, e revisitada pela série Areia Movediça (Netflix), sobre a qual falamos há pouco. Fazemos o público acreditar que algo é terrível para saber como esse algo será tratado pelas pessoas a seu redor — qual grau de humanidade será disponibilizado para esse algo, com qual olhar ele será visto. Quando tememos em Alexander este monstro que assassina pessoas por diversão, encontramos uma personagem disposta a questionar isso ou ao menos oferecer-lhe a dúvida com a qual jamais nos comprometemos.
Tentando se justificar socialmente dentro de uma história de detetive de uma autora que nunca se preocupou com isso, The ABC Murders soa repetitiva e monótona. Tem no seu último episódio resoluções que podem arrancar caretas ao fazer alterações no passado de personagens com histórias concluídas em nosso imaginário. Não é por isso que peca, no entanto. Peca por não ter a elegância das adaptações anteriores. Não ter a edição para equilibrar seu ritmo, não saber se complementar pelo material de origem e por isolar seu protagonista numa solitária saga existencial que não combina com o formato e não alcança seu público naquilo que ele deseja ver.
É visualmente deslumbrante, como quase toda minissérie transmitida na BBC. É atuado de forma também deslumbrante, como quase toda minissérie transmitida na BBC. Mas é incompetente em ser curiosa, divertida e nos entusiasmar a investigar, junto com as personagens, quem é esse ABC e por que essas letras, por que Poirot ou por que qualquer coisa.
——–
Este post faz parte do quarto ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2018 e setembro de 2019.






















