A antropologia nos conta que nós, os Homo sapiens, existimos como a evolução natural de nossa espécie. Como o estágio mais avançado na arvore genealógica, fomos aqueles mais aptos a viver em sociedade, a desenvolver o pensamento analítico, por sobreviver por mais tempo e assim perdurar até hoje, mas para isso eliminamos toda uma outra espécie, o Homo neanderthalensis. Na mitologia grega o primeiro panteão era formado pelos titãs, deuses primordiais que representavam as forças maiores do universo. O rei deles, Cronos (Tempo), ao consultar um oráculo certo dia descobriu que um de seus primogênitos iria mata-lo e tomar seu lugar. Sua esposa, Reia, ao descobrir a profecia criou um plano e colocou pedras nos lugares dos filhos recém-nascidos, fazendo com que os seus filhos sobrevivessem. Zeus e seus irmãos destronaram Cronos e o mataram algum tempo depois, se tornando assim os Olimpianos e os “verdadeiros” deuses dos gregos.
Esse quinto episódio de American Gods é justamente sobre o principal medo dos deuses: a morte. Os deuses, como nossas criações, são igualmente humanos. Sentem prazer, ciúmes, medo, raiva e medo. A morte dos deuses não é uma morte literal, mas um tipo que talvez seja pior: o esquecimento.
Ora, para que a crença aconteça é necessário primeiro que os fiéis se lembrem da existência de tais deuses. A lembrança e o próprio ato de cultuar em si, nada mais são do que dois lados de uma mesma moeda que não são indivisíveis entre si. O que é irônico aqui é que os velhos deuses, encabeçados por Odin, lutam ferrenhamente para não serem “destruídos” pelos novos deuses, mas em algum ponto do passado, eles mesmos foram os “novos deuses” e responsáveis pela morte (ou esquecimento) daqueles deuses primordiais, que surgiram na aurora da humanidade e que hoje não são lembrados.

A lenda de Nunyunnini, nossa belíssima “cold opening” da semana, é nada mais do que a representação exata disso. Quando Atsula e os viajantes atravessam o estreito de Bering, na migração inicial daqueles que viriam a ser os primeiros povos da América, o seu deus também veio com eles. Só que assim como a fé foi a responsável pela viagem em primeiro lugar, foi ela a responsável pelo abandono do próprio credo. É meio paradoxal, mas assim que aquele deus que seguimos se torna o motivo de nossa ruína, nós o abandonamos e abraçamos o novo, aquele que provê nossa existência.

O que nos leva a uma das melhores cenas da série até agora e com certeza o ponto alto do episódio que foi toda a discussão na delegacia. É claro que um dia as duas forças opostas iam se chocar de frente em algum local. O engraçado é que foi o ponto final na jornada individual de Shadow para crer que tudo aquilo que se desenrolava na sua frente era real, finalmente. Até então, incluindo sua mulher voltar dos mortos, eram fatos compreensíveis dentro da lógica abismada do nosso protagonista. Mas quando Mr. World (Crispin Glover, simplesmente hipnotizante) finalmente aparece é que as coisas começam a fazer efeito de maneira brutal. O grande inimigo não é nada senão tenaz. A representação do capitalismo em pessoa, do lucro acima de todas as coisas, da globalização ferrenha e voraz. World, que poderia ser uma junção de todos os novos deuses, é entre aqueles o que realmente se assemelha a nossa concepção religiosa cristã da coisa: onisciente, onipotente e talvez onipresente. Ele é tudo. Mas se alguém rouba a atenção dentro daquela sala, esse alguém é Media. A deusa da comunicação moderna, encarnando Marylin Monroe (não sem antes aparecer como um David Bowie mimetizado em Ziggy Stardust, com direito a letras inclusas na conversa e tudo) mesmo subordinada, ainda continua como uma ameaça talvez até mais presente do que o grande chefe. E Gillian Anderson está, literalmente, divina no papel.

American Gods nos presenteia com mais um episódio maravilhoso nessa temporada de estreia. As partes vão sendo colocadas em seus devidos lugares e o jogo começa a se movimentar em direção ao conflito. O esquecimento é o destino daqueles que porventura caírem durante a batalha. Os deuses podem morrer. Até eles têm medo da morte.
Pequeno Panteão
A sessão de hoje é dedicada a apresentar os novos deuses, que são:
– Mr World (interpretado por Crispin Glover), chefe dos novos deuses e junção de tudo aquilo que eles representam. Capitalismo, poder, dominação mundial;
– Media (interpretado por Gillian Anderson), deusa da comunicação moderna. Da TV a Rádio, talvez a mais poderosa dos novos deuses, por justamente estar presente em todos os locais, 24h por dia, 7 dias por semana;
– Technical Boy (interpretado por Bruce Langley), deus da internet e tecnologia. Por ser o mais jovem deles é volátil e violento. Não vê a capacidade de destruição dos velhos deuses e por isso subestima seus poderes. Deseja a eliminação o mais rápido possível de seus inimigos.
Anotações de Ibis 1: O olho que aparece no nódulo da cadeira pode ser outro dos novos deuses, Mr. Wood (madeira), mas isso é uma especulação minha, já que no livro ele aparece em forma humana, meio como um agente do FBI/CIA, junto com o Mr. Steel (aço);
Anotações de Ibis 2: Não há nenhuma menção a um deus chamado Nunyunnini, mas há um Nun’Yunu’Wi, que faz parte da mitologia Cherokee. Um mostro parecido com um humano com a pele dura como pedra, que é incapaz de ser perfurada por qualquer arma. As possíveis ligações com esse mito estão na animação do segmento, que inclui um povo com a pele parecida com pedra e alguns índios que recebem esse povo após o devido sacrifício. Pode ser uma espécie de união de dois mitos em um;
Anotações de Ibis 3: Ri demais da cena do Shadow jogando um travesseiro na cara da Laura. Falando na dita cuja, a lembrança é forte, mas não o suficiente para prender Shadow novamente. No More Puppy;
Anotações de Ibis 4: Falando nela, as histórias dela e de Mad Sweeney ganharam uma bela expansão aqui na série. Falando em Sweeney, o azar dele continua sendo motivo dos nossos risos;
Anotações de Ibis 5: O diálogo do Technical Boy sobre enforcar Shadow foi um tapa de pelica na questão da violência e preconceito. E os dentes? Não sei porque, mas prestem atenção nesse “presente” dado por Mr. World;
Anotações de Ibis 6: Os corvos são realmente Huginn e Muninn.















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