Devo confessar que admiro a coragem daqueles que controlam as engrenagens por trás de “American Gods”. É necessário muita empáfia para enrolar o público por dez episódios e colocar mais dúvidas quando o momento era de dar respostas.

Não há muito o que comentar além do que já foi comentado nas semanas anteriores. Bater na mesma tecla só tornaria as reviews algo tão enfadonho quanto a série que ela analisa. Mas esse ano tornou impossível fazer algum elogio sincero sobre o show. Houveram momentos de brilhantismo durante a jornada, mas as decisões criativas torpes tomaram todo o protagonismo da season, tornando incapaz a defesa do programa perante os seus defeitos.

Odin finalmente morreu. A guerra nunca chegou e sobrou apenas os ritos e passagens funerárias a ser considerar. Pelo menos era isso que todos pensavam. Para ir adiante preciso primeiro trazer alguns pontos da obra base. A vigília de Shadow na Yggdrasil se dá no miolo do livro. Descobrimos o plano principal do deus (o de recuperar a glória perdida com um sacrifico de sangue de um filho) no meio da história. Tudo a seguir é sobre Shadow tentando entender o seu propósito no mundo, após retornar dos mortos, enquanto vive em Lakeside. Percebam que o final do livro foi o que ocorreu no episódio passado. Ou seja, as histórias do material base acabaram.

Voltemos ao show. Dada as devidas proporções causadas pela adaptação , esse era o momento de encerrar os plots e amarrar tudo de modo a dar um final digno e condizente ao show. Spoiler: nunca teríamos uma guerra. O show nunca foi sobre isso. Entretanto, na televisão essa era característica mais marcante do programa, vendendo algo que ele sabia que nunca ia entregar. Poderia discorrer sobre as nornir (a versão nórdica das parcas gregas), sobre o interessante papel do artefato 1 relacionado ao Technical Boy ou sobre a verdadeira identidade do Mr. World, mas prefiro deixar isso para o campo dos comentários. O show descumpriu seu papel de fornecer aquilo que o espectador deseja, talvez não do modo como ele espera, mas do modo como ele merece.

Mas parece que “American Gods” assumiu o papel de Odin, exigindo preces e crença, quando na verdade não entrega nenhuma bênção em retorno. Tecnicamente, visualmente e, em alguns pontos, narrativamente o show conseguiu apresentar boas qualidades que foram desperdiçadas na emulação da glória que um dia teve e não tentando partir dali com o que tinha em mãos.

Resta agora a dúvida de saber aonde o show vai buscar suas inspirações. Pode seguir esticando o fio da vida da obra de Neil Gaiman até o limite de sua construção (usando o pouco que resta de inédito como estofo para não sei quantos episódios) ou simplesmente partir para material inédito criado exclusivamente para a série. A questão é que até esse material inédito, a ligação de Shadow com os orixás e a sua inserção na trama, acabou sendo mal trabalhado, ganhado ares de muleta narrativa e não o destaque que realmente merecia. O show tentou atingir todos os elementos da lista “woke” e acabou acertando em tentativas débeis de tratar com profundidade esses temas.

O que deixa o título do episódio mais engraçado. Não foi só Shadow que derramou lágrimas de desapontamento e ira, nós aqui do outro lado da tela nos desfazemos em desgosto e frustração com os rumos tomados nos bastidores. Como se diz na Internet: morre a inesquecível. Infelizmente, ao que tudo indica o corpo não durará muito tempo em descanso, retornando para desgraça de vez o nome que outrora tinha poder e fascinação. Presenciamos o apogeu e o declínio de um show que ironicamente imita os seus personagens, enganando o público em troca de sobrevida.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
american-gods-3x10-tears-of-the-wrath-bearing-tree-season-finaleDevo confessar que admiro a coragem daqueles que controlam as engrenagens por trás de “American Gods”. É necessário muita empáfia para enrolar o público por dez episódios e colocar mais dúvidas quando o momento era de dar respostas.