Anunciados como “especiais”, os capítulos que deveriam começar uma nova fase da novela reforçaram o caos criativo em que ela se encontra. 

A premissa em que Vale Tudo foi criada aparece na biografia de Gilberto Braga (escrita por Artur Xexéo e Maurício Stycer) na página 197, quando os autores contam que a ideia surgiu em um almoço familiar na casa dos Braga. Gilberto vinha dos sucessos de Corpo A Corpo e Anos Dourados; e tinha como missão recuperar o prestígio do horário das 21 depois do retumbante fracasso de Mandala. O trecho que fala do nascimento da ideia aparece no livro da seguinte maneira:

A certa altura, Ronaldo, irmão mais novo de Gilberto, fez um comentário sobre o tio Darcy Braga, que havia feito carreira na Polícia Federal. Darcy não estava presente no almoço. Ele disse: “Um delegado da PF que passa seis meses em Foz do Iguaçu volta milionário; mas Darcy era tão honesto, nunca trouxe uma garrafa de uísque”. O irmão de Gilberto ainda comentou que Darcy não parava em nenhum lugar porque não entrava nos esquemas. “Tio Darcy poderia estar rico”. Foi aí que Gilberto teve o estalo: “Você acha que alguém não pode ser honesto e ganhar dinheiro? Não vale a pena ser honesto no Brasil?”.

Como a biografia diz, essa mesma cena foi recriada de maneira mais dramática na própria Vale Tudo, entre Raquel, o pai dela e Fátima. Do momento em que a novela começou até seu fim, Gilberto Braga e seus co-autores nunca perderam de vista essa base; nunca deixaram para trás a premissa que costurava todos os enredos e que tinha mãe e filha como as duas pontas polarizadoras. Fátima engana e rouba a própria mãe para se dar bem; e consegue subir na vida traindo e mentindo. Raquel, depois de sofrer o baque, trabalha para provar o contrário; que é possível vencer pelo trabalho honesto. 

As tensões entre elas culminam na semana em que Raquel descobre que sua boa fé foi usada contra ela mais uma vez. Quando percebe que a filha alcançou o estágio mais alto do próprio plano e está prestes a se casar, Raquel toma a decisão de atrapalhar tudo e o resultado desses embates é o reforço do desafio entre elas: a mãe se joga inteira no trabalho e a filha se joga inteira na lama da corrupção pessoal. As duas seguem no topo – cada uma de um lado – por um tempo; mas já sabemos que quando um lado começar a cair, será o da filha. 

A “semana especial” do remake já começou com um problema: Manuela Dias esvaziou os afetos e tensões dos personagens desse núcleo protagonista; o que fez com que as motivações de Raquel e Solange perdessem pulso. No que diz respeito a Raquel, isso é bem mais sobre o lugar dela como potência profissional do que sobre seu relacionamento com Ivan. Não há química no casal, mas isso é nada perto da insistência de Manuela Dias em enfraquecer o sucesso de Raquel enquanto sublinha as vitórias de Fátima. A ideia sempre foi manter mãe e filha num paralelo fixo; então, enquanto Fátima se casa (e alcança sucesso em seu plano desonesto), Raquel prospera (e alcança sucesso em seu plano pautado em honestidade). 

A partir do momento em que Manuela Dias cria um incêndio para atrasar o progresso de Raquel no mesmo dia em que Fátima se casa, ela está anunciando sua renúncia à premissa básica da novela. O tal incêndio aconteceu de uma maneira completamente estúpida e adiantou para o público que  – diferente da primeira versão – dessa vez o jogo será desequilibrado, com o texto sabotando Raquel mesmo antes que ela conquistasse qualquer segurança. 

E se não bastasse o contexto estar comprometido, a entrega das sequências foi ambígua. Na sequência da discussão na casa de Raquel, a direção era quase inexistente. Planos chapados, marcação óbvia (com direito a um esbarrão bastante esquisito) e absolutamente nenhum apuro textual. Partes da cena que pareciam reações finais estavam no começo; e embora Taís Araújo tenha entregue um trabalho consistente, Bella Campos ainda não sabe fazer Fátima aplicar expressões e tons de voz à exigência de dissimulação da personagem. Tudo parece a mesma coisa e quando muda é na direção do clichê. 

Quando chegamos na sequência do vestido, os estragos foram um pouco menores porque Manuela Dias usou metade dos diálogos de Gilberto Braga. Contudo, mais uma vez, os cortes apareciam em trechos cruciais para o aprofundamento da cena. Enquanto Taís – numa ponta – imprimia todo o sofrimento e indignação de Raquel; na outra Debora Bloch mantinha sob controle as reações limítrofes de Odete. De novo sem direção, Bella seguiu respondendo com expressões de vilã infantil que só atrapalharam a personagem na hora de parecer mais crível. 

Contudo, na hora de reproduzir o embate entre Fátima e Solange nada poderia ser feito para dar à sequência o mínimo de sentido, uma vez que depois de várias evidências de que a relação com Afonso se desgastou sozinha e de vários capítulos envolvida com Renato, aquela invasão da Mocinha Dupratt parecia sem pé nem cabeça. De fato, embora tenha investido em Afonso, Fátima não precisou fazer nada porque foi Odete quem providenciou a viagem que afastou organicamente o casal. Solange viajou e ainda meteu chifres no herdeiro Roitman. Na primeira versão, Fátima teve que se esforçar e armar muito mais, o que inevitavelmente tornava mais catártico o momento em que elas se enfrentavam. 

Totalmente sem sentido, a briga foi rápida (agora tudo é rápido) e anticlimática. Manuela Dias colocou Solange para fazer exigências que eram estapafúrdias naquele contexto; e ainda editou trechos importantes do texto que pavimentavam o futuro da relação entre as duas personagens. O tapa foi eficiente, mas toda a patacoada de Fátima estar gravando e Afonso só assistir um trecho esvaziou a seriedade da cena. Naquele momento, Solange deveria ser outra personagem fazendo uma ameaça contra Fátima, contra a soberania do plano dela. Mas, Manuela Dias parece disposta a mudar tudo que foi relevante; o que é o contrário do que ela mesma declarou sobre mudanças serem as exigências de uma abordagem moderna. Ela só faz o quer para movimentar a história com saídas vazias e que descaracterizam o enredo. 

A passagem de tempo foi de apenas meses; Raquel não reapareceu rica e segura; a viagem do novo casal Roitman não durou o suficiente para que o retorno causasse qualquer expectativa e no final das contas, foi como uma passagem de um bloco para o outro, sem que nada significativo realmente tivesse mudado. Chegamos ao ponto em que ao invés de servir ao propósito maior de uma trama, a “mudança” em Raquel foi condicionada a um merchan de tinta de cabelo.

Se a protagonista continua sendo pobre e ainda por cima – segundo notícias – vai voltar a perder tudo; que disputa seria essa entre elas? Uma disputa em que só um lado vence, tornando impossível o paralelo adequado? O que imaginávamos é que a partir da segunda fase da novela, veríamos Raquel ascender e Fátima cair, progressivamente. Porém, esse remake não se inspirou em nenhum jantar, nenhuma conversa familiar… ele é apenas uma peça publicitária declarada, feita para vender produtos e ilusões. 

Para esse remake a pergunta nunca foi se talvez seja possível vencer na vida sendo honesto. Para essa Vale Tudo só houve uma grande afirmação: Faça o mínimo, transforme o mínimo em medíocre; e ainda assim, em alguma esfera, os números te convencem da “vitória”. 

A melhor coisa da semana “especial” da novela acabou sendo a oportunidade que todos nós tivemos de reviver – ainda que pessimamente – um momento tão marcante da cultura pop do nosso país. Ter a chance de falar sobre a novela, discutir, especular e dividir frustrações entre apaixonados pelo gênero foi muito prazeroso. 

Gosto da Leila Bandida. Foi uma ótima saída para que a personagem tivesse mais função no remake. Também gosto da Celina entrando como sócia da Paladar por uma ótica mais igualitária. Mas, as notícias sobre o futuro dessa sociedade são péssimas, graças novamente ao dedo nervoso de Manuela Dias. 

Que lamentável o núcleo Tomorrow… Liderado pelo pior casal da novela, a agência agora está prestes a declarar falência mesmo tendo feito campanhas com celebridades do calibre de Sandy. 

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