Uma série emblemática, lacunar, com um roteiro que muitas vezes nos levou para um lugar de interpretação inusitado. O trabalho da temática dos revenants, sob a ótica dos franceses, nos direcionou ao drama e à violência de caráter psicológico e subjetivo ao apresentar um mundo em que os mortos regressaram à vida. Nessa review, pretendo cobrir, de modo sucinto, a segunda metade da temporada. Irei guiar a discussão em torno de algumas simbologias e entrelinhas que podemos nos apropriar para chegar a uma possível leitura do final da série. Peço desculpas por interromper as reviews. Estava em Lima (Peru) participando de um Congresso de Narrativa Fantástica, no qual apresentei um trabalho (em coautoria com a pesquisadora Marília Dantas) sobre a primeira temporada de Les revenants, uma leitura de Camille e Victor sob a égide da teoria do fantástico. Sendo por esse motivo, penso que estou perdoado, não?
Através dos flashbacks da época pós-rompimento da barragem, vimos em Les revenants que a maioria das personagens foram visitadas pela morte de modo violento, sendo assassinadas. Assim, observamos que algumas personagens sobreviveram a uma tragédia de ampla magnitude, porém, não conseguiram escapar da crueldade humana, como, por exemplo, Lucy, Morgane, Virgil e a família de Victor. Em Madame Costa, episódio 5, conhecemos a forma como a personagem morreu: um acaso frívolo. Ao chamar o cachorro em rio congelado (com uma bota de salto alto – vai entender…), Madame Costa cai dentro do rio e morre afogada. Assim, Les revenants mostra uma outra perspectiva sobre a morte: ela pode nos esperar em lugares inesperados, em momentos que aparentemente o perigo não se apresenta.
A cena de Serge e Toni foi bastante tensa. Ver a face de muitas mulheres que foram assassinadas pelo serial killer foi uma forma de expor que o passado não virá parcelado e que Serge terá que enfrentá-lo de uma única vez. Essa cena, a meu ver, foi a mais tensa do episódio. Ficamos de frente a muitas mulheres, muitas histórias interrompidas gratuitamente, reunidas num único lugar. A dor da maneira como as vítimas de Serge morreram surgiu multiplicada, causando um efeito tristeza maior do que estamos acostumados na série. Toni continuou forçando o irmão a buscar uma possível redenção. Agora, compreendemos mais a complexidade de Serge em relação ao seu instinto assassino, oriundo dos abusos psicológicos de Milan durante a infância. Contudo, ainda assim, é difícil entender a posição dessa personagem, que se recusa a ter, minimamente, uma chance de pedir perdão pelo o que fez.
Em Esther, acompanhamos a morte de uma das vítimas de Serge. Victor, novamente, estava presente no local da morte, mas, dessa vez, tentou impedir que algo ruim acontecesse. Assim, podemos considerar que o garoto usou a sua sensibilidade premonitória para salvar uma vida. Pena que ele não conseguiu. Serge se mostra insensível à situação de suas vítimas, fato que mostra que não há muito remorso de sua parte pelos atos criminosos que cometeu. Será que guiar Esther para a sua antiga é um ato de reparação? Bem, acho que é preciso mais que isso. Todavia, precisamos compreender todo o sofrimento que Serge carrega consigo.
Segundo os pesadelos de Victor, Julie está cada vez mais próxima da morte. Ela criou um vínculo afetivo muito forte com o garoto e, provavelmente, dado a sua instabilidade emocional, não irá suportar uma vida sem ele. Ambos estão em ciclos de vivências opostos: um do lado da vida, outro do lado da morte. Finalmente, na tentativa de desvendar o mistério do passado de Victor, Julie consegue ouvir o Sr. Lewansky: o garoto entrou na vida de sua família tal como entrou na vida da enfermeira. Nesse caminho, ainda não sabemos ao certo se Victor já estava morto nesse último flashback do episódio ou se realmente morreu na invasão da casa. O mais provável, na minha leitura, é que ele já estivesse realmente morto. Nós, telespectadores, ficamos mais próximos da origem de Victor, mas sem ainda saber de toda a sua história.
Indo para o episódio 7, Etienne, quero destacar somente alguns pontos para avançarmos logo para o series finale. O flashback desse episódio nos mostra qual era a atividade que Milan estava envolvido: um “círculo suicida”. A comunidade ficou muito abalada com as mortes consequentes do rompimento da barragem. Devido a isso, brotou uma angústia corrosiva entre os que sobreviveram: eles queriam reencontrar aqueles que morreram. A passagem da vida para a morte representava, na fé de Milan, uma outra forma de encontrar a vida, algo além do mundo terreno que permitia que as pessoas ficassem juntas, sem a ameaça da separação da morte física.
Cada um que estava ali no “círculo” possuía uma motivação para tentar fazer essa “paisagem”. Etienne estava tomado pela culpa de ter construído a barragem que ruiu. Ele não estava conseguindo conviver com esse remorso. Nem as crianças foram poupadas, mas, nesse caso, elas fizeram a “passagem” de um modo menos violento do que os adultos.
Os pesadelos de Victor, nesse episódio, indicaram ainda mais para o caminho de que o destino (e a felicidade) de Julie está na morte. Ela preferiu ser presa por Pierre a denunciar os revenants. Essa cena expõe uma importante mensagem: você não precisa pertencer diretamente a uma causa para defendê-la: uma leve identificação já pode nos incluir em um determinado grupo. É assim que vejo Julie, pois ela, desde a primeira temporada, teve a sua solidão aproximada pela relação de maternidade com Victor, recusando os elos sociais com o mundo dos “vivos”.
No episódio 8, Les revenants, já temos algumas respostas nos minutos iniciais: Lucy chegou a cidade à procura de Victor. A sua capacidade de se comunicar com os mortos já a guiava para o garoto, como se soubesse de suas capacidades premonitórias. Outro fato interessante foi o reaparecimento das marcas de Camille, signo do enfraquecimento quando um revenant está longe de indivíduos que compartilham a sua natureza (poderíamos ter tido uma explicação menos óbvia e atraente). É como se a existência de todos fosse dependente da união do grupo.
O diálogo entre Milan e Pierre foi excelente: o primeiro admitiu que a morte não tem sentido, que é lugar de solidão, e não de salvação, enquanto o segundo se arrependeu de não ter se matado. Essa cena expressa que nunca estamos completamente satisfeitos com as nossas escolhas. Há sempre algo a se perder de um lado ou de outro. Nesse caso, a série parece dizer que, seja em vida ou em morte, o sentimento de estar só será sempre nosso companheiro.
Em mais uma volta ao passado, assistimos, finalmente, ao mote do retorno dos mortos: o chamamento de Victor. Com a possibilidade de morte da única pessoa que o fazia companhia, o garoto, através de suas capacidades sensitivas, invoca os mortos que, direta ou indiretamente, um dia atravessaram o seu caminho. Pelo menos, quase todos os revenants que deram título aos episódios da série tiveram algum tipo de elo com a criança. Não houve aleatoriedade na vinda dessas pessoas: somente retornaram aqueles que tiveram as suas vidas tocadas na vida de Victor. É como se, uma vez que cruzássemos a vida de uma outra pessoa, numa leitura de teor mais espiritualista, um laço permanente fosse criado. Possivelmente, esse laço foi reativado em Victor quando este se viu na eminência de um novo aprisionamento na solidão. É claro, são apenas suposições.
Na minha leitura, Victor precisava “libertar” os revenants, já que ele foi a voz de invocação do regresso deles as suas antigas vidas. Mas, para que isso acontecesse, o garoto deveria se sentir protegido pelas asas da fada que a sua mãe prometeu que iria protegê-lo: Julie. Qual a única maneira de os dois ficarem juntos: partilhando da mesma existência, a morte. É por isso que penso que Julie morreu e pode, assim, dar seguridade a Victor de que iriam ficar juntos pra sempre. Esse seria um final de cunho bem romântico, em que Julie só teria a chance de ser feliz quando morta.
Numa outra perspectiva, podemos considerar a fala de Victor quando menciona Nathan: por que será que o bebê não pode ficar com os revenants? Victor, nesse fim de temporada, assumiu uma função de elo entre os vivos e os mortos, tendo em vista que foi ele o responsável por trazer de volta os que já se foram. Nathan também representa um elo entre a vida e a morte: filho de duas pessoas com existências distintas. Então, provavelmente, o bebê seria o único ser, fora Victor, capaz de prender o caminho dos revenants ao caminho dos vivos. Os revenants, de acordo com os diálogos de Milan, Camille e Virgil, desejavam buscar a sua própria jornada, em algum tempo-espaço diferente daquele. Uma vez que Victor abandonou os revenants para ter uma vida com Julie (nessa leitura, essa personagem estaria viva), Nathan deveria ter um destino distante ao dos revenants para que eles se desprendessem de suas antigas vidas, fossem “independentes”. Logo, a presença de Nathan poderia significar a necessidade de o grupo de revenants estar completamente unido, um dependendo do outro para “viver”. Talvez por isso Victor tenha se sentido ameaçado ao escutar o choro do bebê, posto que este poderia ser a razão de um novo afastamento entre ele e Julie, se considerarmos que Nathan é símbolo da dependência da coletividade dos revenants com o resto da comunidade. Isso ameaçaria, novamente, a tranquilidade da relação entre Victor e Julie.
Bem, estamos na esteira das suposições. A meu ver, a segunda temporada foi satisfatória, com uma leve queda de qualidade a partir do episódio 6, porém, mesmo assim, acho que atendeu as expectativas da maioria dos fãs que esperaram três anos para assistir a continuidade da história. Mas, houve algumas coisas que me incomodaram: a trama de Adèle e Simon foi arrastada e o plot do casal nesse último episódio foi desnecessário. Deve haver algum sentido para ela estar vestida de branco e ter entrado na caverna, só que, por enquanto, penso que há outros aspectos mais interessantes para refletrmos. A morte de Camille tomou um tempo desnecessário também, pois já sabíamos que ela iria voltar, então… Seria melhor ter dedicado esse tempo ao Serge, personagem bem mais interessante nessa temporada. Além disso, o episódio final soou um tanto apressado.
Fabrice Gobert, criador da série, em uma entrevista a um site francês, confirmou o encerramento da série, entretanto, não descartou uma terceira temporada. Mas, como assim, Bial? Nesse caso, teríamos uma nova temporada diferente do que vimos anteriormente, uma espécie de nova história dentro do mesmo contexto e atmosfera da narrativa. Sem dúvidas, Les revenants foi uma série que marcou a minha vida de seriador por dois motivos: pelo fato de dar um enfoque diferente (ao lado da excepcional In the flesh) a uma temática comercialmente muito explorada de uma forma um tanto repetitiva e por me fazer colocar mais os meus olhos em produções europeias.
Foi um prazer acompanhar com vocês o andamento da série. Nosso papo não termina aqui. Irei fazer um post especial de conclusão da série dando ênfase em dois pontos: os subtextos bíblicos e os olhares de vocês sobre o final dessa história. Portanto, comentem para que eu possa multiplicar nossos pontos de vista no último post! Ouvi muitos comentários insatisfatórios sobre o episódio final. Confesso que de primeira não curti o episódio 7 e 8. Precisei assisti-los novamente para entrar na vibe do que eu acho que os roteiristas quiseram propor. A narrativa deixou lacunas? Sim, e das mais variadas. Porém, se olharmos mais de perto para os acontecimentos da história e as relações entre as personagens, muitas interrogações, ainda que pela metade, foram respondidas. É muito bom ficar sem respostas também. Desse modo, o final da série estará sempre em mutação, fazendo com que a narrativa nunca seja realmente concluída, fato que nos dá gosto em retornar para ela, principalmente para quem gosta de dead people!
I see dead people 1: as minhas interpretações são apenas suposições, inquietações e leituras que podem mudar a qualquer momento. Assim, são bem-vindas leituras que apontem outras direções.
I see dead people 2: Para quem não leu, fica a dica: Incidente em Antares (1970), de Érico Veríssimo. É uma boa leitura para uma depressão pós-series finale de Les revenants.
I see dead people 3: qual a origem de Victor? Está aí uma pergunta que eu agradeci por não ter sido respondida. A continuidade do mistério manteve o sabor de suspense da série.















