A indiferença é branca.
O sentimento de culpa por passar ileso por um desastre ou por sobreviver nas mesmas condições onde semelhantes padecem, não é incomum. Sempre há dentro de nós – daqueles de nós que se importam, é claro – uma centelha de pesar por não poder estender aos outros o que nos fortalece ou a sorte com que somos premiados. Ser feliz quando há tristeza à volta pode ser uma das coisas mais aterradoras da vida. Assim, basta para cada um de nós escolhermos qual será o caminho do nosso direito de desfrutar das novas oportunidades. Usufruir da escapada ou culpar-nos por ter tido a chance de escapar?
O significado da palavra “remanescente” é: “aquilo que sobeja, aquilo que resta”. Então, fumando ou andando de branco, o estranho grupo de Mapleton não passa de uma sobra, como são todos aqueles que não partiram no dia 14 de Outubro. A diferença é que em algum momento entre a Partida Repentina e o que estamos vendo agora, alguém resolveu que uma organização que se dedicasse a sentir-se culpado, deveria pressionar o mundo a responder na mesma proporção. O estranho é que embora insistam que a coisa toda não se trata de religião, eles incutem sobre o próximo um exercício de manipulação psicológica muito semelhante à dinâmica do pecado e do castigo. Eles são a sobra que se culpa por não ter ido, tentando providenciar um mundo que se aniquila.
Gladys surge na primeira cena olhando pra Patti com os olhos cheios de lágrimas… Havia naquele olhar certa cumplicidade e eu senti um cheiro de premeditação vindo de algum lugar. De certa forma, na mesma proporção em que a vingança pelo episódio das fotografias parece condizente com os fatos, também é providencial martirizar uma das Remanescentes com um icônico apedrejamento; um tipo de execução absolutamente ligado às regras seculares do maniqueísmo. Apedrejar para expurgar uma culpa moral e mundana. Eu não duvido que as fundações dos Remanescentes Culpados tenham sido capazes de orquestrar aquilo, já que na ótima cena do restaurante, o que vimos nos olhos de Patti foi um compromisso de colocar no lugar de Gladys alguém disposto a sacrifícios, como ela.
Essa foi a semana do estabelecimento de compromissos, aliás. Enquanto Patti parecia levar Laurie para um novo estágio de comprometimento com o grupo, Meg começava a se tornar, efetivamente, um deles. Não só pelo cigarro (que representa uma forma mais lenta de martirização do próprio corpo), mas pela sombra de cinismo que já começa a surgir através de seus olhos. Esse elenco é muito competente nesse sentido… Um exemplo disso é a forma como Justin Theroux vive um Kevin sensorial. Ele nunca fala de verdade sobre como se sente, mas seu rancor, sua fúria, seu desejo e sua sabedoria são sempre velados, disfarçados de atitudes aparentemente aleatórias, como a insistência em ter de volta as camisas BRANCAS que poderiam nem mesmo estar aprisionadas na lavanderia. Na horripilante cena em que uma das fitas solta Gladys da árvore, Kevin também é uma espécie de arremedo de equilíbrio, quando mesmo odiando o grupo (por causa da mulher), ele também rejeita o escárnio e o riso que a situação provoca.
Outra coisa intrigante sobre The Leftovers é que ela parece passar metade do tempo adiando confrontos, nos dando uma sensação de expectativa que não se cumpre, mas escondendo sua força no que o texto tem a oferecer. Colocadas lado a lado, as cenas de Patti e Laurie no restaurante e de Matt e Kevin no carro, são complementares. Patti quer que Laurie pare de se importar e Matt quer que os Remanescentes “ressuscitem” de sua dormência emocional. Mas, vamos colocar em perspectiva um evento como o da Partida Repentina… Faz muito mais sentido que a descrença se alastre mais que a fé, que a dor ganhe mais ângulos que o alívio… Jill chorou instintivamente pela possibilidade de perder a mãe, mas deu-se conta imediatamente de que a epidemia dos Remanescentes Culpados é a epidemia da indiferença.
No último momento, Gladys fala, pede pela própria vida e quebra o silêncio que faz a sociedade achar que aqueles que andam de branco, são de certa forma, donos de uma compreensão maior acerca do que aconteceu no dia 14 de Outubro. A direção desse episódio foi muito focada no reforço da dor, o que nem é uma novidade na atmosfera de The Leftovers. Aliás, quando focamos nossa forma de ver a série por essa perspectiva (a da atmosfera), fica muito forte o sentimento de proximidade com o que assola aqueles personagens desde que o arrebatamento aconteceu. Aquelas são pessoas tomadas de angústia e de melancolia, e no final das contas, grupos como o dos Remanescentes podem mesmo ser uma infestação ameaçadora para a necessidade de restabelecer a ordem das coisas. E uma infestação se combate como? Com fogo. Não seria curioso que os RC tentem produzir mártires enquanto o governo tenta exterminar uma praga? Tudo é síntese nessa série, senhores. Gladys é a mártir da culpa e também é a praga da insistência. Uma das pragas da insistência é a memória. E é isso que corrói a vida desses personagens: memória.
De um texto chamado “Certezas sobre o Arrebatamento”:
Quarta Certeza: A Voz do Arcanjo: Depois disso será restabelecida novamente uma espécie de “situação do Antigo Testamento (…) Lembremo-nos apenas do quinto selo e daqueles na Grande Tribulação “…que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam. Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?”
(Ap 6.9-10).
Conforme meu entendimento, estes não pertencem à Igreja, pois verdadeiros discípulos de Jesus não pedem vingança, pelo contrário. Ao morrer apedrejado pelos fariseus e escribas, Estevão clamou: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu”
(At 7.59-60).”
As Sobras: A cena do surto de pânico de Laurie pecou na elegância, mas isso sempre é compensado pela verdade transmitida nos mesmos acessos sofridos por Kevin.
As Sobras 2: Kevin e Nora: Aguardem.
As Sobras 3: A cena do apedrejamento foi imensamente realista. Virei os olhos a maior parte do tempo.
As Sobras 4: Galera que leu o livro, segurem a onda nos comentários. Partes dos efeitos desse episódio podem ser destruídas por spoilers.















