A decepção também faz parte da vida.

O episódio anterior termina com um suposto cliffhanger, que coloca um dos envolvidos no crime que emprisionou Daniel na busca de outro também envolvido que agora serve de comida para os peixes no rio. Imaginou-se mil coisas: confrontos, polícia, Daniel em um buraco mais fundo ainda. Que nada. Rectify é uma série disposta e propensa ao pacifismo, e somente em casos extremos coloca seus personagens em adversidades que fogem o círculo pessoal ou familiar. A série é muito mais psicológica que física, e as grandes guerras e confrontos acontecem dentro das próprias cabeças dos personagens.

Mazel Tov é quase uma comemoração. O episódio trata de mostrar boas coisas acontecendo o tempo inteiro, mas não deixa de sempre lembrar que a vida de Daniel e dos que lhe cercam nunca será normal. Se coloca Amantha e Jon se divertindo publicamente é para logo depois serem confrontados por uma mulher qualquer. Se cria um clima de esperança na relação de Ted Jr e Tawney, é para logo depois colocar a esposa em contato com Daniel, fazendo com que tudo que aconteceu subitamente se passe na cabeça do marido. E por fim, Rectify é o eterno lembrete de que Daniel é um deslocado. Suas amizades são estranhas, suas reações às coisas comuns em nossas vidas são estranhas. E é exatamente esse tipo de coisa que faz a série ser o que é. Um eterno estudo de personagens, que colocado em contato com o que seja, reagirá de forma interessante e diferente da que estamos acostumados.

O episódio que avança a metade da temporada é além de tudo sobre decepção. A analogia do fogão (e da cozinha toda) é tão sutil e ainda assim tão consistente que às vezes pode passar despercebida. A reconstrução da cozinha representa Daniel tentando construir um novo capítulo na maneira como se relaciona com seus familiares. Na maioria dos episódios a família interage na cozinha, a comunhão, a união ao preparar o alimento, tudo isso faz com que a cozinha represente o que Daniel tanto gostaria de ter: mais intimidade. A falta de animação da mãe ao ver uma peça tão antiquada decepciona Daniel. O protagonista na sua maior bondade tentou procurar para a mãe um presente que fizesse sentido, mas usou suas lembranças de dezenove anos atrás. A visão de mundo de Daniel é ultrapassada, e no decorrer da série vimos as situações que ele se envolve por causa disso. É assim que uma pessoa que passa tanto tempo recluso da sociedade deve se sentir: destruído emocionalmente, envergonhado, mas com ímpeto de aventura e descobrimento. Devido ao que está por acontecer (provável retorno à prisão), o emocional do protagonista tende a se tornar um furacão, daqueles que quando passa, leva junto a tristeza, a euforia e a esperança consigo.

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