Uma série que não se passa em Manhattan.

Os Estados Unidos da América têm atualmente 4804 ogivas nucleares prontas para explodirem por acidente e acabarem com o mundo. O país concentra mais poder nuclear que todos os outros países do mundo. A série irá mostrar como tudo isso começou. Manhattan não se passa no Upper East Side e infelizmente não é um prequel de Gossip Girl. Dentro de sua excentricidade, a série apresenta um piloto muito bom, apesar de ter muitos personagens e duração longa (57 minutos), que podia ser reduzida.

O ano é de 1943. 61 países estão em guerra. Mais de 40 milhões de fatalidades até o momento. Alguém precisa acabar com esse conflito. As bombas nucleares farão esse papel. O interessante em Manhattan é que logo no início do episódio, em tipografia, aparece a seguinte mensagem “766 dias antes de Hiroshima”. Entregar o desfecho logo de início pode parecer meio desanimador, mas todos sabemos da tragédia de Hiroshima e como aquele dia mudou o mundo e também a maneira como as armas nucleares são tratadas. Nada mais justo que a série ser honesta com o espectador e dizer: “Iremos caminhar daqui até lá”. O fim da jornada acontecerá quando os Estados Unidos destruir uma cidade japonesa em questão de segundos. O que também não significa que o uso da primeira arma nuclear em uma guerra deverá marcar o fim da série. As possibilidades que o assunto abre são grandes, mas a primeira impressão é de que seu arco irá contar a história do ponto A ao B, e a série já diz isso logo de cara.

O mais interessante em uma guerra, é a maneira como as pessoas devem abandonar suas vidas e se adaptar rapidamente a outro estilo menos confortável e convencional. O campo militar (que mais parece uma prisão) onde a série se passa chega a ser assustador: localizado no meio do nada, cercado por militares e repleta de patriotas lunáticos que buscam solucionar a guerra através da energia nuclear. A organização dessa sociedade é tão natural e tudo parece funcionar tão bem dentro de seu próprio caos, que Manhattan se torna, além de ser sobre a construção de bombas nucleares, uma série sobre a maneira como pessoas se relacionam quando tiradas abruptamente de seus habitats naturais. Vejam como Abby Isaacs (interpretada pela ótima Rachel Brosnahan) rapidamente se vê trancada naquele mundo quando raspa a cabeça do seu filho que já pegou piolho. Ou como Liza Winters (a esposa do protagonista) planta flores que nascem diferentes do esperado e compra milho velho contra sua vontade porque não se pode plantar naquelas terras. Ou o comitê de boas-vindas formado por esposas entediadas que buscam um pouco de animação na vida alheia. Ou então, como o próprio protagonista Frank Winter escolhe conversar com a empregada (que só fala espanhol) devido ao caráter secreto de seu trabalho. Todos esses exemplos mostram que a série irá lidar com essa mudança gritante na vida dessas pessoas, e como elas reagirão com o passar do tempo.

Manhattan é, sobretudo, uma série sobre pessoas que doaram suas vidas em troca de um propósito maior, apesar de que nem todas ainda saibam disso. Com o passar dos episódios, o que provavelmente ocorrerá serão confrontos com os militares em tentativas de fugir do campo, espionagem constante e uma corrida pela construção das bombas. Mas principalmente: uma guerra de egos entre gênios que parecem tão obstinados pelo propósito final, que sequer percebem que estão prestes a construir a arma mais mortal da história da humanidade.

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