Depois do fracasso retumbante de Um Lugar Ao Sol, Pantanal chega às 21 horas sem o direito de falhar.

No ar entre Março e Dezembro de 1990, Pantanal deu uma tremenda dor de cabeça à Globo, que lutava para ser hegemônica no mercado de teledramaturgia e tinha que aturar a Manchete produzindo novelas que eram tão populares quanto. A situação toda é muito curiosa… Em 1980 a Globo recebeu de Benedito Ruy Barbosa uma sinopse chamada Amor Pantaneiro… e recusou. Agora, mais de 30 anos depois, é justamente essa trama que chega como bote salva-vidas de um horário devastado por uma fase final capenga de Amor de Mãe, reprises e uma “novela de transição” que entregou a pior audiência da história da faixa.

As gravações da novela passaram pelos mesmos percalços de todas que encontraram o horror da pandemia. O adiamento constante de gravações nem foi o maior dos problemas, já que o Pantanal dos anos 90 era muito mais verde e vasto, em contraste absoluto com um bioma que sofreu com incêndios e com interferência humana inconsequente. A Globo reconstruiu um universo pantanesco em suas cidades cenográficas e só voltou a trabalhar em externas no final do segundo semestre de 2021. Esse ano, já seu começo, um surto de COVID voltou a atrasar os trabalhos, o que provocou, inclusive, a infame reedição de capítulos de Um Lugar Ao Sol. O horário das 21 horas lutava para se aprumar.

A adaptação da novela era outro ponto importante… Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa, ficou com a missão de modernizar a trama sem perder suas características lúdicas. Embora não seja um homem do realismo fantástico, Benedito trabalha com o poder do folclore, dos “causos” que regem uma comunidade e o Brasil atravessa um momento em que o lúdico se espreme para acontecer sem ser encarado com cinismo. A novela tem que ser moderna sem ser muito moderna, tem que ser lúdica sem ser muito lúdica… Ela é uma ambiguidade constante e precisa funcionar, ainda por cima, para todos os públicos.

Sua trama é bastante complexa do ponto de vista do tempo… A longa sinopse oficial diz o seguinte: “A história começa quando, em uma viagem ao Rio de Janeiro, José Leôncio se apaixona e casa com Madeleine (Bruna Linzmeyer/Karine Teles). Os dois se mudam para o Pantanal onde nasce Jove (Jesuíta Barbosa). A passagem de Madeleine pela fazenda, porém, é um caos. Com saudade da vida urbana, a jovem não se acomoda àquela sina de solidão que é ser mulher de peão. Com o marido sempre em comitivas, ela se vê obrigada a conviver com Filó (Leticia Salles/Dira Paes), funcionária da casa a quem pouco conhece e nada confia.

Madeleine foge do Pantanal levando Jove, ainda bebê, de volta para a mansão de sua família. O menino cresce longe das vistas do pai, que se viu incapaz de brigar pela guarda do filho. Zé jamais deixou de cumprir suas obrigações legais, enviando fielmente uma quantia excepcional de pensão mensal. Mesmo assim, Jove cresce acreditando que seu pai havia morrido, enquanto Zé encontra em Tadeu um herdeiro.

Duas décadas se passam. Jove descobre que seu pai está vivo e vai à sua procura, em reencontro marcado por uma grande festança. Embora felizes com o momento, Zé e Jove são confrontados por um abismo de diferenças comportamentais e culturais, ao mesmo tempo em que Jove lida com irmãos e com o amor pela selvagem Juma”.

Pantanal chega tomada por um trabalho de divulgação absolutamente inacreditável… o que também coloca sobre ela, inevitavelmente, uma grande pressão. Ao mesmo tempo, a carência de uma boa história no horário nobre é tão grande, que não existe outra torcida possível por ela que não seja a do mais absoluto sucesso. Pantanal um dia foi rejeitada, um dia foi uma pedra do sapato e agora é um bote salva-vidas.

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