Mais humanidade para seus personagens transforma o clima de Justiceiro em Gunner.
Em seu quinto capítulo Justiceiro trabalha, de maneira menos séria, as ramificações da complicada vida de Frank Castle. O episódio é dirigido por Dearbhla Walsh (Fargo, Penny Dreadful), ganhadora do Emmy pela direção da minissérie Little Dorrit e escrito por Jones-Morales, que juntos conseguem uma organização melhor do que está acontecendo em tela, inclusive com o uso de uma dinâmica melhor para os outros núcleos de Justiceiro. Só que algumas coisas continuam não passado desapercebido, coisas importantes como a identidade da pessoa que filmou a cena de assassinato que criou tantos problemas para o protagonista e seu “ajudante”. Se bem que até mesmo eu me esqueci de considerar a possibilidade, mas eu não sou a parte interessada em uma investigação tão complexa e com uma contagem de corpos tão alta, não é mesmo?
Mas Gunner já começa bem ao fazer uma separação entre a crítica que realizei no episódio passado, com a família do Micro, e a relação entre ele e Frank. Com apenas uma fala a série conseguiu distanciar a impressão infantil que tive, do que realmente representa aquela troca de interações. Frank usa a família de Micro como uma forma de escape, é aquilo que pontuei, da falta de uma profissão para o protagonista o amarrar dentro da narrativa. Aqui, ao assumir a posição de Castle como uma extensão do Micro, a impressão de um ciúmes é trocada por algo mais condizente com a alma que a série deveria ter imprimido desde o começo. Ainda é um desvio, mas não tão incômodo como anteriormente.
É fácil sentir um sentimento de perda no Micro, e talvez este caminho não seja o mais interessante, mas é agradável ver Frank agindo como um homem normal, mesmo que a proposta da série não tenha sido essa, inicialmente. Veja bem, não enxergo como um problema o tratamento dado, é preciso que Castle assuma uma posição humana para que a audiência se preocupe com ele, o que não me impede de questionar a abordagem utilizada, que é sim um pouco enfadonha, se analisarmos pela ótica do homem que observa a família enquanto outro homem, seu companheiro de missão, é convidado pela esposa para ficar para jantar. Pelo menos ninguém sugeriu um café.
O relacionamento entre o nosso protagonista e Micro é interessante, principalmente quando eles estão interagindo juntos e não através de olhares e sentimentos não verbalizados, explicados com imagens de câmeras e mães solitárias. Neste ponto a direção de Walsh é certeira ao pontuar aqueles dois homens como parceiros e não ferramentas dentro de um panorama maior ainda não explorado. É praticamente um relacionamento entre dois amigos de longa data, que ainda não confiam um no outro, apesar de já terem recebido diversos motivos para tal.
Contudo é quando Justiceiro decide unir Madani e Page que a trama recebe uma roupagem diferente, finalmente integrando personagens diferentes e fazendo delas parte da crescente narrativa de Gunner. Envolver Madani na história de Frank, expondo Karen Page ao fazê-lo, foi uma sacada inteligente, especialmente pela sensação de coesão que a série vinha pecando até então. Antes era possível ver assuntos que se relacionavam, mas as interações continuavam seguindo outros rumos. Agora, porém, a história começou a funcionar com engrenagens conectadas, trazendo, inclusive, a trama dos soldados do mesmo grupo de Castle, o que devolveu para Russo uma noção de pertencimento.
É por causa da investigação de Madani que também temos o retorno do agente da CIA responsável pela missão de Castle no Afeganistão. Esta é a demonstração de que apesar do ritmo mais lento e menos explosivo, como muitos esperavam, Justiceiro está sim disposta a contar uma história coesa, por mais que demore para que algumas peças se encaixem.
“Quando tudo termina, Frank?”
O relacionamento entre Karen e Frank também é melhor explorado aqui, com um pouco mais de humor e bem mais leve. Talvez este seja o reflexo do contato de Frank com a família de Micro, algo que o distancia da faceta perigosa de sempre. Essa diferença é visível, especialmente quando consideramos há quantos episódios Castle não acorda desesperado após um pesadelo com a morte da esposa. Tanto pode ser uma conexão com seu senso de propósito, quanto um resultado da sua aproximação de pessoas normais. O mais fácil é acreditar que enquanto ele estiver com seu trabalho de proteger crianças do crime e da corrupção, sua culpa não se manifestará.
O que consigo perceber após a exibição de mais um episódio, é que este ainda não é o Frank Castle. Sim, a progressão do personagem existe, mas a loucura característica que vimos em Demolidor não existe mais. A série precisa continuar com a expansão da mentalidade de seu protagonista e Karen levanta perguntas válidas, especialmente para o que vem depois.
A produção, na verdade, é mais a respeito dos homens corruptos e das consequências do serviço militar, do que sobre Frank, propriamente. É exatamente por isso que o agente da CIA aparece recebendo sua premiação, após o discurso de Karen sobre o heroísmo destes vilões. Novamente, falta um pouco de sutileza no texto de Justiceiro, mas a mensagem fica cada vez mais clara. Só que a série não pode tratar o soldado que aperta o gatilho como manipulado, enquanto trata o homem que dá a ordem como vilão. Todo mundo recebe uma ordem e todos decidem abdicar de algo para continuar servindo. Se quem cumpre a missão é visto como herói, quem a comanda também precisa. Certo? Onde está o limite e quem o define?
Bom, para tratar este assunto Justiceiro precisou levar seu personagem principal e parceiro para o meio do nada, para encontrar com o homem que dá nome ao título. É ele quem traz a informação da corrupção, do tratamento errôneo e de sua motivação para a gravação do vídeo – dentro e fora de seu próprio espaço, usando o ambicioso antagonista como observador silencioso. E é claro que como mantenedor de informações importantes, Gunner não sobrevive.
A sequência de ação final foi muito bem executada. É um claro caso de orçamento limitado, mas que demonstra a precisão do trabalho de Frank e Micro, com armas e drones. Gunner é um bom trabalho do time de Justiceiro, bem mais forte que seus antecessores e com resoluções mais satisfatórias. Finalmente temos um rosto para o vilão da temporada (por quanto tempo, não sei), em um movimento que fez bastante sentido. O desenvolvimento de uma crescente na narrativa ajudou a compreensão, mas não apagou a imagem de um ritmo engasgado e muito lento. Justiceiro ainda tem um caminho longo até a conclusão de seu ano de estreia, mas diferente de tudo que veio, ela parece justificar melhor a sua história menos acelerada e mais crua.
Easter eggs e outras informações em Gunner:
– Madani menciona o grande vilão do Demolidor, Wilson Fisk, o Rei do Crime.
– A placa do furgão utilizado por Castle e Micro é 3796, que pode ser conectado ao arco de 6 números, da década de 90, chamado de Jigsaw Puzzle, nome do vilão Billy Russo. O número 37 se chama Perilous Passage, quando o armazém do Frank Castle é invadido por membros de uma gangue e com a ajuda do Micro e seu sistema de vigilância, o Justiceiro consegue vencer e ir para a Venezuela, onde Retalho o espera.
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– Frank precisa, urgentemente, de uma amiga enfermeira em Nova York. Por onde anda Claire Temple?















