Justiceiro continua a explorar seu personagem principal, mas sem centralizar apenas em Frank, com Two Dead Men.
Logo no começo já somos apresentados a Micro, personagem que deixou um CD para Frank ainda durante a segunda temporada de Demolidor. Diferente de sua contraparte nos quadrinhos, em que ele é um senhor de mais idade e sem muito conhecimento a respeito de táticas de guerra, o da série é bem mais cheio de recursos. A série faz o possível para colocá-lo como alguém que poderá ser tanto um bom aliado, como um perigoso adversário de Frank.
Frank, que continua assombrado por suas memórias dolorosas, tem momentos de pura contemplação. Ele é um homem totalmente quebrado, que colocou as peças de si mesmo de maneira desordenada e agora observa cada uma, sem realmente conseguir entender para que servem. Suas memórias da família, que deveriam agir como um conforto e combustível para que ele procure por paz, terminam como um agente provocador de tempestades internas. Frank ressente o que perdeu e também se arrepende do que fez. Se lembrar da filha com ternura apenas reafirma sua imagem de um pai que também falhava, com o filho. Só que Frank não tem mais a chance de voltar e fazer algo diferente, tão pouco de melhorar, ele já não tem mais família.
A construção do caráter do Frank e também das idas e vindas de sua memória agem de forma a levar o telespectador a vê-lo como um homem quebrado, fora de si, mesmo que ainda vivo. O vídeo que Micro deu para Frank o conecta diretamente a investigação da agente Madani, explicando o porquê da existência deste núcleo. E enquanto assiste ao vídeo, Frank age exatamente como um homem perturbado agiria. Sua consternação é visível. Do movimento do seu corpo a sua expressão facial, Frank Castle não é um homem que observa com facilidade o que está errado. Essa representação mostra a compreensão do time criativo a respeito da história do personagem. Frank é alérgico ao crime e sua reação é violenta.
E como toda história de origem, os pedaços de informações que não recebemos de Demolidor, série usada para a inclusão de Frank, aparecem aqui. O destacamento militar de Frank estava trabalhando dentro da CIA, com operações de interrogatório e outras ações não conectadas a guerra. Este é um momento complicado para série, pois demanda um bom controle do roteiro, de forma a não confundir o telespectador e também não desviar a história para núcleos em que o personagem principal não se encaixa. Exatamente por isso o texto de Lightfoot decide entregar essa informação em um local mais “confortável”, onde são realizadas as reuniões dos veteranos. É algo que coloca Frank um pouco mais humano para compartilhar informações com um “amigo” e também com a audiência, sem precisar usar uma ferramenta pouco interessante, ou forçada, como fizeram na segunda temporada de Daredevil ao transformar Karen em uma repórter investigativa da noite para o dia, justificando assim as informações que não receberíamos diretamente do personagem em questão.

Neste momento a série também consegue se desvencilhar do personagem principal e incluir sua história em outro ponto, com Madani e seu parceiro, Stein. É dela a fala que melhor se encaixa dentro da persona de Frank Castle e no real motivo para ele ser tão diferente. O mais fácil, para qualquer um, seria esquecer. Frank está preso em sua dor, talvez de uma maneira que vá além do psicológico e atinja, de fato, o físico.
E já que falei sobre a Karen, a personagem também retorna para Justiceiro, como elo que o conecta a Demolidor e também para mostrar suas capacidades como repórter investigativa. Novamente, não é uma posição fácil de engolir, já que foi bem mal trabalhada durante o segundo ano de Demolidor, mas Karen é uma boa personagem e o trabalho de Deborah Ann Woll é forte o suficiente para trazer um lado mais brando de Frank, traduzido em um abraço. Mas a relação entre eles não é fácil. Karen, conforme vimos em Demolidor, não é o tipo de pessoa que aceita o trabalho de vigilantes/heróis com o coração aberto, já que para ela a maneira mais eficaz de fazer justiça e buscar a verdade é através de sua profissão. Sua posição aqui na série é a de montar o elo que conecta Frank, Micro, a operação no Afeganistão e a Segurança Nacional.
A posição do Micro na série, até o momento, é basicamente a de criar tensão e também levantar suspeita. A sua inteligência, porém, não considerava a presença de Karen e seu artigo, bem conveniente, a respeito de alguém com o mesmo nome e também o verdadeiro, David. Contudo é quando a sua família entra em jogo que a série mostra um lado um pouco diferente. Existiu uma relação bem próxima entre Karen e Frank, mas é com a esposa do Micro que o rumo fica um pouco questionável e clichê. É uma ferramenta para criar tensão e que parece existir, também, para aproximar Frank de uma família de verdade, mas de um homem que ainda está vivo e observando enquanto ele se oferece para arrumar a garagem daquela “viúva”. E claro, após este encontro temos uma cena de mudança de aparência, que usualmente sempre surge após um momento de clareza, mas que aqui serve para despistar o nem tão brilhante hacker.
Em seu segundo episódio Justiceiro permaneceu lenta, com muita história e um tempo considerável até a conclusão. É um episódio de 50 minutos, em que falas superam as cenas de ação, com um especial tratamento para o pano de fundo. Existe uma sensação de que não nos movimentamos muito, mas mesmo parada Justiceiro revelou muita história. Soubemos mais da conexão da CIA com o passado de Frank e Micro, além de uma imersão bem colocada na história do hacker – algo bem Watch Dogs, para quem curte um jogo de videogame. Mas é lá na reta final que as coisas começam a ficar mais ágeis, com a invasão da casa do Wolf e da cena de tortura, um padrão adotado por 6, entre cada 6 séries da Marvel Netflix. A revelação da identidade de Frank, porém, mostra que o time criativo está sim disposto a surpreender, mesmo que o padrão do streaming tenha se mostrado tão forte na corrente sanguínea do time.
É a conexão perfeita entre a trama recorrente da temporada e a motivação do “herói” e exatamente o que Justiceiro precisava. Encaro este segundo episódio como uma espécie de preparação, tendo este e o primeiro como um longo prólogo de introdução de Frank e sua história, além dos personagens que dela farão parte, com passos lentos, mas bem decididos. Castle é inteligente, muito mais inteligente do que aqueles que estão a sua volta, ele tem aliados, muita inteligência e agora uma missão. Talvez tudo o que estava faltando a Justiceiro, como série, já esteja presente. Só o próximo episódio dirá.
Easter eggs e outras informações em Two Dead Men:
– Karen Page é uma personagem principal do elenco de Demolidor, série e quadrinhos. Hoje ela trabalha como jornalista no New York Bulletin, que inclusive já apareceu em Agents of S.H.I.E.L.D., com uma reportagem a respeito de Daisy ‘Quake’ Johnson.
– Billy Russo, companheiro de Frank no exército, é também o nome de um importante vilão, o Jigsaw/Retalho. Nos quadrinhos Russo foi um assassino da organização criminosa conhecida como Maggia. Ele terminou se envolvendo em eventos que levaram a morte da família de Castle. Conhecido como ‘o belo’, ele foi arremessado por Frank em um painel de vidro pelo Justiceiro, tendo o rosto retalhado no processo. Sua primeira aparição foi em Amazing Spider-Man #161, de 1976.
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– O apartamento da Karen é repleto de cores, entre elas o vermelho, verde, amarelo e azul, que também representam Demolidor, Punho de Ferro, Luke Cage e Jessica Jones.















