Apesar da onipotência ser um requisito para um deus, são seus seguidores (ou como você queira chamar) que são os detentores de maior poder na relação. Como já bem exemplificado, os deuses só existem porque são as preces do seu séquito que os mantem em primeiro lugar, logo, apesar de não ter a consciência plena dos fatos, pessoas comuns podem ter muito mais poder, ao ponto de trazer um deus consigo para um novo mundo, mesmo que isso signifique toda uma mudança no status quo da divindade.
Na mitologia irlandesa deuses e deusas são humanos alçados ao posto de divindade. A magia é algo bastante presente no panteão irlandês e através dela que reis e rainhas, heróis e guerreiros conseguiram se tornar grande lendas que são reproduzidas até hoje, mesmo que em menor escala. Porque com a chegada do cristianismo, uma espécie de simbiose mitológica acabou acontecendo na Irlanda transformando reis mitológicos em santos e fadas em espíritos.

Através de um longo “Coming to America” narrado por Mr. Ibis (Demore Barnes) ficamos conhecendo a história de Mad Sweeney (Pablo Schreiber), mesmo que de forma indireta, já que sua chegada ao Novo Mundo está diretamente ligada à figura de Essie MacGowan (Emily Browning). Pelo uso da mesma atriz e pela forma como a própria personagem age, Essie é de algum modo uma antepassada direta de Laura. Ambas carregam a ambição como maior característica, mesmo que Essie de certo modo nunca tenha abandonado sua crença em algo superior, algo que sempre foi passível de ajuda. A dualidade da personagem que ao mesmo tempo utiliza do corpo como uma forma de avançar, mas não esquece de colocar o pão na janela para os seres mágicos foi o motor de um dos episódios mais líricos da série até aqui. Além de mostrar que em grande parte das colonizações (tanto nos EUA como aqui no Brasil) foram os exilados, ladrões, prostitutas e perseguidos pelo governo que eram enviados para assegurar a soberania que eles mesmos não detinham mais. A consequente “nova escravidão” que vinha a seguir era o duro preço a pagar para se conquistar a liberdade em um Novo Mundo, que talvez se mostrasse tão cruel quanto o antigo. Coisa que se aplica também aos deuses que vieram com esses colonizadores, muitas vezes indo parar em locais em que sua crença era denegrida ou até mesmo inexistente.

Todo aquele clima de época, com uma trilha sonora dos anos 50 e 60 com toques típicos irlandeses e de uma anacronicidade soberba serviu para mostrar no final das contas que por baixo de toda a atitude carrancuda e da boca suja do Sweeney atual, existe um Sweeney benévolo e de bom coração. Ao ponto de que continuar sem a posse de sua moeda da sorte para que Laura continue seu destino, mesmo que padeça no humor e gênio da morta-viva, mais uma vez a questão da dualidade.
O que nos leva a questão que pode ter passado batida em meio a todo o momento de origem do personagem. O acidente de Laura é uma das inúmeras jogadas paralelas de Wednesday para conseguir que Shadow se juntasse ao plano, qualquer que seja esse. Porque a guerra pura e simples, o conflito entre os novos e velhos deuses começa lentamente a ter mais e mais significados e meandros sendo formados por caminhos escusos. Qual a real importância de Shadow? Porque um deus maior se envolveria, direta e indiretamente, na vida de um reles mortal?
Esse sétimo episódio (e penúltimo da temporada atual) de American Gods trouxe ainda mais humanidade para as divindades retratadas. A cada novo panteão, a cada novo de exercer o credo, mais e mais camadas vão se revelando e novas vão sendo colocadas no lugar.
Pequeno Panteão
Mr. Ibis (interpretado por Demore Barnes)
Origem: Egípcia
Reconhecido pelo seu esguio corpo com a cabeça de Íbis, Tot é o deus egípcio do conhecimento, da escrita, da sabedoria, música e magia. Em alguns locais do Antigo Egito ele também era representado por um babuíno, sendo este mais reconhecido como um companheiro. Ficou a se cargo a criação dos hieróglifos que serviram de alfabeto para os egípcios antigos e também a criação do calendário egípcio, cujo primeiro mês leva seu nome. Era o deus patrono dos escribas.
Anotações de Ibis 1: Emily Browning roubou esse episódio;
Anotações de Ibis 2: Só eu olho para Essie e lembro de Mérida de “Valente” da Pixar?
Anotações de Ibis 3: Tatanka Ska realmente existiu. Seu nome significa “Búfalo Branco” na língua Lakota e o status de divindade vem da mitologia de várias tribos nativas americanas. Para elas os búfalos brancos são seres divinos e especiais;
Anotações de Ibis 4: Salim foi liberado da missão de cruzar os EUA com Laura e Sweeney. Quando será que o veremos novamente?
Anotações de Ibis 5: A história que Sweeney conta sobre ter sido um rei antigo liga diretamente com o mito de Shuibhne mac Colmain. Você pode ler mais sobre no Pequeno Panteão aqui;
Anotações de Ibis 6: E os coelhos que causaram o segundo acidente de Laura? São a representação da deusa que conheceremos na finale, semana que vem…















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