Anocha Suwichakornpong | Tailândia/Países Baixos/França/Qatar, 2016, 105’, Ficção
A auto-consciência do processo de contar histórias, de representar e construir ficções e de registra-las em filme é temática tão desgastada no cinema contemporâneo que são raras as obras que verdadeiramente intrigam e encantam público com tais questionamentos. Dao Khanong, segundo longa-metragem da premiada diretora tailandesa Anocha Suwichakornpong (objeto da mostra Foco do Olhar de Cinema desse ano), que estreou no Brasil na noite dessa segunda-feira, é definitivamente um filme que preza pela evidência de seus dispositivos, que se posiciona firme no epicentro das inquietudes do cinema do século XXI. Felizmente, e também definitivamente, não é um trabalho que transborda obviedades tediosas, previsibilidades, mas mistérios constantes, segredos, silêncios, aleatoriedades, verdades e mentiras – é cinema que intriga, e em pleno 2017, isso não é pouco.
Não há muito sentido em descrever aqui a sequencialidade das coisas, as relações, porque Dao Khanong mesmo foge delas em diversos momentos. Há uma diretora, que escreve seus filmes, há um ator, há uma escritora que fora ativista no tempo do massacre na Universidade Thammasat. Há uma figura que os interliga, uma personagem ou várias interpretadas pela mesma atriz, não é claro. Os que de fato os conecta são representações, a que o presente faz do passado, a que o filme faz da ficção, a que pessoas fazem das outras.

Se ora essa entropia interna é atrativa, eficaz, outrora é também um peso excessivo, e pode passar-se por arbitrariedade, distanciando o público das imagens impecavelmente fotografadas e concebidas por Ming-Kai Leung e Suwichakornpong. Na maior parte, entretanto, habitam um meio termo, um equilíbrio entre argumentos familiares e suas fantasias múltiplas de camadas e camadas de simbolismos e lirismos quase inacessíveis, talvez mais ainda para espectadores de outras nacionalidades, distantes da realidade enfaticamente tailandesa que Dao Khanong explora.
Esse novo trabalho de Suwichakornpong levou aproximadamente 6 anos para ser concretizado, e transparece na tela esse fato, não negativamente, mas devido a elevada complexidade da trama (trama?), da montagem detalhista, da autenticidade com que surgem os delírios oníricos ou os monólogos abstratos. Dao Khanong encerra-se com uma sequência enigmática, com o clichê pós-moderno do corte violento para uma festa noturna ao som explosivo de música eletrônica, antes de gradualmente dissolver-se em uma colagem regada à super-saturação, solarizações e interferências visuais, e retornando aos poucos à estabilidade, à uma paisagem, à natureza que resiste na tela em sua forma verdadeira por uma fração de segundos, e cut to black. Dao Khanong despede-se com respeito ao seu público, deixando grande parte da obra a ser construída por ele, e que este leve o tempo que for necessário. É cinema que convida, demanda e seduz novas visitas, e em pleno 2017, isso não é pouco.













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