O inevitável é assustador.
O significado do nome de June é valioso para o contexto de The Handmaid’s Tale. Na mitologia romana, June é considerada a rainha dos deuses. Esposa de Júpiter (Zeus na mitologia grega), ela pode ser comparada a Hera, a Deusa da Bondade/Fertilidade. Ela teve cinco filhos com Júpiter: Lucina, deusa dos partos e gestantes, Juventa, deusa da juventude, Discórdia, a deusa da discórdia, Marte, deus da guerra e Vulcano, o artista celestial. Seus filhos representam muito a construção em cima da protagonista do show. June (Offred) é acima de tudo líder da sua própria sobrevivência, que capta rapidamente o respeito as pessoas de sua volta. Eles reconhecem seu poder, apesar de possui uma certa autoridade sobre seus atos. Neste penúltimo episódio o choque – elemento tão presente nesta belíssima temporada – veio discretamente para enaltecer o respeito que June garantiu ao longo de sua jornada como Aia, e o resultado final foi sublime e único.
O que mais choca mesmo é que não é muito difícil observar a proximidade do sistema de Gilead com nossa realidade. June representa uma alegoria mitológica de resistência, que vem sendo construída com bastante esforço durante os episódios. Ela é (de certa forma) uma deusa/heroína, se comparado ao fato de entretenimento como forma de instrução representativa. E as vezes nessa leitura quase óbvia de quem somos, a respiração para com apenas uma imagem, ou uma palavra dita com tanta força que faz nossos músculos enrijecerem a ponto de desejar que toda crueldade exposta termine o mais rápido possível. June (e toda sua história até aqui) representa esse poder mitológico de enaltecer a natureza humana com características imoderadas. Ela é valiosa para a trama e todos os personagens ao seu redor reconhecem sua “divindade”, ou apenas fingem ignorar seu poder.
The Bridge foi um episódio que evocou um horror irrevogável. A cena em que Janine precisa entregar sua filha nas mãos de outra mulher fica pequena, perto do desespero de descobrir que depois de tanto sofrimento ela continua viva.

Madeline Brewer foi maravilhosa durante toda a performance de uma Janine perdida, desiludida e angustiada. Ela conseguiu captar a essência de uma personagem que ainda buscava esperança de viver uma realidade que havia sido extinguida. A ‘família’ está se transformado em outro sistema social que não prima por laços sanguíneos/afetivos, e Janine demorou demais para reconhecer isso, presa ainda na utopia nostálgica de viver como antes, cantando no karaokê com as amigas ou dividindo risadas num bar qualquer. Foi um momento grandioso o diálogo dela com Offred na ponte e mostrou não só a força que ambas compartilhar para sobreviver mentalmente quanto o respeito que June possui sobre os outros personagens, por mínimo que seja.
Serena Joy começa a saborear o clima agridoce da dúvida sobre o relacionamento do Comandante com Offred. A forma como o roteiro explora os olhares silenciosos é tão importante e magistral para o contexto da série que me deixa arrepiado. A senhora Waterford sofre silenciada, mas observa com destreza seu destino sendo alterado lentamente. Talvez seja consequência de que esse capítulo serviu para preparar as jogadas finais das peças de um jogo fadado a destruição. Temos pequenos relances de como tudo pode desmoronar em questão de segundos que na realidade viraram aperitivos do que pode acontecer. Serena invadindo o escritório de Fred, Offred clamando por Mayday, Moira fugindo de Jezebels, o Comandante reconhecendo a esperteza da protagonista e por último o “pacote” que guarda um finale grandioso para uma temporada que teve grandes acertos até então. E talvez o maior acerto seja o fortalecimento da mitologia de The Handmaid’s Tale, que transformou pequenos homens em deuses poderosos e grandes mulheres em divindades enclausuradas. O fim está próximo, mas parece que tudo está a beira de se tornar um prelúdio fascinante e inesquecível.
PS1: “Está tudo bem, querida. Eu também estou nervosa” que assustador ouvir isso de uma mulher que está prestes a deixar que seu marido estupre outra mulher.
PS2: A amizade entre Moira e June é uma preciosidade para a narrativa. Mas o diálogo entre elas no quarto foi bem desajustado e até mesmo grosseiro. Faltou dosagem, interpretativa ou textual…






















