Mesmo o mundo sendo um constante espectro de vários tons de cinza, é na dualidade oposta que tudo se baseia. Bom ou mal. Benéfico ou maléfico. Dia ou noite. Negro ou branco. O que existe no ínterim entre um e o outro, é comodamente esquecido. Melhor lidar com uma decisão pontual e não se preocupar com as consequências do ato do que ser pego nas intricadas mentiras incluídas nas verdades e nas verdades incluídas nas mentiras. Essa visão limitada de mundo, onde tudo deve pertencer a um lado, fomenta guerras, destrói sociedades e extermina etnias. Não julgar um livro pela capa nunca foi tão pertinente como em The Secret of Spoon, o segundo episódio de American Gods, que foi ainda melhor que a premiere.

Shadow Moon finalmente vai se desfazendo do véu de incredulidade que usou até agora. Grande parte dessa atitude se devia a versão idealizada de sua esposa, da lembrança pura de alguém que claramente tinha seus segredos e suas razões. O derradeiro momento de despedida e a limpeza da casa onde um dia os dois habitaram em conjunto foi o passo necessário para que ele adentrasse de vez na missão que acordou, principalmente depois das provas cabais encontradas no celular da esposa. A recuperação do “tiro de abertura” da guerra colocou finalmente a cabeça de Moon no devido lugar que ele precisava estar. Mas lembranças são difíceis de apagar, principalmente daquelas que estão mais próximas de nosso coração.

Gillian Anderson como Media. American Gods 1x02: The Secret of Spoon
Gillian Anderson como Media. American Gods 1×02: The Secret of Spoon

No entanto, tomar ciência dos fatos não é certeza de acreditar neles. Isso foi o momento perfeito para que outro dos deuses novos tentasse cooptar Shadow para suas fileiras. Media (Gillian Anderson), deusa com nome autoexplicativo, demonstrou que o alcance dos novos deuses é muito maior do que o dos velhos. Enquanto eles são meras lembranças de tempos passados, ela evolui junto com seu séquito. Tempo e atenção são oferendas mais valiosas do que sangue. Principalmente quando o templo está em todos os locais, sempre à mão, e nunca fecha, nunca para de funcionar captando as orações necessárias, oferecendo alento e prazer, mesmo que cobrando um preço alto por isso. Anderson como sempre maravilhosa, roubando a cena vestida de Lucy Ricardo que foi um dos pontos altos desse episódio e uma das melhores do ano (coisa que parece ser marca da série: melhores cenas).

 American Gods 1x02: The Secret of Spoon
Cloris Leachman como Zorya Vechernyaya. American Gods 1×02: The Secret of Spoon

Mesmo com a doce tentação da Media, Shadow se prova forte o bastante para continuar na missão, indo para Chicago onde conhecemos dois novos possíveis companheiros de luta de Wednesday: Czernobog e Zorya Vechernyaya (Peter Stormare e Cloris Leachman, soberbos). Como bons deuses eslavos que são, a relação disfuncional da família formada pelos irmãos é repleta de pragmatismo latente e humor estranho e adivinhação nas borras de café. Entre abatedores e videntes, Shadow vai finalmente cedendo à crença e redescobrindo o preconceito. Seja no segmento “Coming to America” (que falarei mais adiante) ou na (aparentemente) jovial conversa entre dois deuses antigos, é possível notar que o pré-julgamento baseado na idade, cor de pele ou religião é algo que age como uma mazela no mundo e escurece a visão humana perante as decisões que são tomadas, desde sua origem. Nem sempre o que aparenta ser maléfico é desta maneira. Às vezes, escondido na aparente e perfeita camada de bom mocismo, se esconde os piores males.

Anansi. American Gods 1x02: The Secret of Spoon
Anansi. American Gods 1×02: The Secret of Spoon

Como citei anteriormente o “Coming to America” serviu para mostra a chegada, desta vez, de Anansi nas terras americanas. Além de demonstrar o modo rude e nada cerimonioso do deus das histórias da mitologia africana, o excerto também foi outro ponto que tratou do preconceito, mostrando que séculos depois do ocorrido, homens ainda tratarão outros devido a cor da pele ou de sua aparente diferença do padrão considerado o melhor. Orlando Jones já entra para o (já ilustrado) rol de ótimos personagens da série, numa atuação digna de aplausos.

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A guerra foi declarada, os lados começam a se preparar para a batalha e a peça (aparentemente) fundamental na balança da disputa começa a tomar conhecimento do seu devido lugar. Que venham mais deuses e episódios tão bons como esse. Até a próxima semana com o episódio que promete dar (mais ainda) o que falar. Que os deuses permitam e até lá!

Pequeno Panteão

Como prometido na review do piloto começarei a enumerar os deuses antigos que já apareceram, suas mitologias e um pouco das origens de cada um. Nessa primeira edição tratarei dos deuses do piloto e deste episódio. Nota-se que nem todos são, em suas mitologias originais, efetivamente deuses.

– Anansi

Origem: Oeste Africano e Caribe

Anansi é o deus das histórias de grande parte do folclore africano. Ora aparecendo como uma aranha, ora como um homem, seu conto de origem está ligado a Nyame, deus celeste da mitologia Ashanti (Gana), do qual ele comprou o direito de contar histórias realizando uma sequência de tarefas. Acredita-se que ele tenha sido o responsável por espalhar o conhecimento pelo mundo, através de seus filhos.

– Bilquis

Origem: Etiópia, várias

Bilquis é um dos nomes creditados a Rainha de Sabá, figura citada nos textos bíblicos, islâmicos e judaicos. Dizem que ela foi mulher do Rei Salomão, mas para os islâmicos ela também era uma jinn, espécie de demônio do fogo (gênio). A teoria moderna mais aceita é que ela foi uma rainha do império Axum, no norte da Etiópia. Acreditava-se que ela bela e sedutora, capaz de seduzir qualquer homem com seu encanto.

– Buile Shuibhne

Origem: Irlandesa

Grande parte da mitologia irlandesa trata mais de heróis do que de deuses. Buile Shuibhne (Shuibhne Louco) é o conto acerca de Shuibhne mac Colmain, rei de Dál nAraidi, que amaldiçoado por São Ronan fica louco e vagando pelo mundo, lhe rendendo o apelido de Suibne Geilt ou Mad Sweeney. Aqui ocorre uma fusão com o mito do Leprechaun, seres que guardavam tesouros nas terras irlandesas.

– Czernobog

Origem: Eslávica

Deus da escuridão da mitologia eslávica, mais precisamente das tribos ocidentais do século 12. Acredita-se que tudo de ruim que ocorre no mundo é culpa de Czernobog. Seu irmão (ou contraparte) é Belobog, deus da luz e do sol.

– Irmãs Zorya

Origem: Eslávica

As irmãs Zorya são baseadas em duas deusas guardiãs de mitologia eslávica, as Auroras, que vigiam e guardam Simargl, cão do juízo final que é acorrentado a estrela Polaris, na constelação de Ursa Menor. Caso se solte, ele devoraria a constelação e o universo acabaria. Utrennyaya é a Estrela da Manhã, associada a Vênus, Vechernyaya é a Estrela do Anoitecer, associada a Mercúrio. Zorya Polunochnaya foi especialmente criada por Neil Gaiman para o livro, no caso ela representa a Estrela da Madrugada ou Meia-Noite.

– Odin

Origem: Nórdica

Pai de todos. Principal deidade da mitologia nórdica. Deus da sabedoria, marido de Frigga e pai de diversos deuses e heróis da mitologia do norte da Europa (Thor, Balder, Vidar e Váli). Também é associado como deus das forcas, da feitiçaria, da poesia, da batalha e criador do alfabeto rúnico. Também é conhecido por Woden, Wodan ou Wotan.

Anotações de Ibis 1: Tivemos um pequeno vislumbre do Jinn, no restaurante;

Anotações de Ibis 2: A série não prova de mostrar o que deve. Nesse episódio tivemos “nudes”, nudez e mais alguns sacrifícios em homenagem a Bilquis;

Anotações de Ibis 3: Na cronologia do livro estamos na metade do 4º capitulo.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
american-gods-1x02-secret-spoonNão julgar um livro pela capa nunca foi tão pertinente como em The Secret of Spoon, o segundo episódio de American Gods, que foi ainda melhor que a premiere.