A construção do Marvel Cinematic Universe foi uma das apostas mais arriscadas da indústria cinematográfica recente e que acabou se transformando num fenômeno cultural, quer você queira ou não. Foram dez anos construindo alicerces, arriscando no lançamento de filmes que, seja pela expectativa ou pelo desconhecimento público de alguns personagens, poderiam afundar de vez os planos que alçaram a Marvel a um dos estúdios mais rentáveis de Hollywood. O grande trunfo da “Casa das Ideias” foi dar espaço para diversas obras, que ligando personagens e tramas em maior ou menor grau, contribuíram para uma longa narrativa que foi amadurecendo junto com seus personagens e seus espectadores. Entre essas obras, os filmes dos Vingadores (como uma equipe coesa) sempre foi o ponto de virada, a quebra de paradigmas necessária que modelaria toda a fase seguinte de lançamentos. Até então os filmes dos “heróis mais poderosos da Terra” sempre foram pontapés iniciais. Vingadores: Guerra Infinita (Avengers Infinity War, 2018) foge do padrão ao encerrar essa longa trama que começou em “Homem de Ferro”, num filme que trabalha de modo magistral o imediatismo e a tensão crescente de uma ameaça nunca antes vista.
O primeiro grande acerto do filme é colocar Thanos (Josh Brolin) como protagonista. Apesar de o titulo carregar o nome da equipe, é o “titã louco” o verdadeiro foco narrativo do filme. Sempre em segundo plano, Thanos foi lentamente apresentado e sendo a mente por detrás dos variados ataques e revezes que Stark, Thor e cia enfrentaram até então. Agora ele finalmente coloca a mão na massa (ou na manopla) e aparece como uma ameaça impactante. Com a missão de juntar as joias do infinito, ele vai ser capaz de passar por cima de tudo e todos, quaisquer que sejam as consequências necessárias. E justamente esse fator surpresa que o personagem carrega é que transforma esse terceiro longa em uma montanha-russa de emoções.

Sempre se reclamou que os filmes da Marvel não possuíam consequências. Eles possuem, mas são em grande parte leves ou de fácil resolução. Aqui essa percepção é posta por terra, já que elas são reais e presentes em todos os momentos. A cada nova virada do roteiro, a cada novo passo dado em prol do objetivo final o futuro vai ficando cada vez mais incerto e sombrio. As surpresas inseridas no roteiro (que são muitas e vão do começo ao fim da película) tornam até difícil falar sobre o longa sem estragar algum ponto chave. Os trailers não mostram demais e são somente a ponta do titânico iceberg que é o roteiro escrito por Christopher Marcus e Stephen McFeely. Isso poderia ser uma maçaroca sem coesão se não fosse pelo trabalho de direção dos Irmãos Russo (Anthony e Joe). Eles imbuem em todo momento esse senso de urgência e uma coesão dos diversos núcleos que englobam diversos personagens sem nunca deixar de focar na coluna narrativa do filme. O trabalho começado em “Capitão América: Guerra Civil” se demonstra maior e melhor aqui, num misto de sequências de ação de tirar o fôlego que entram para o rol das mais inventivas do estúdio. A decisão de filmar os dois longas (esse e o próximo ainda sem título) com câmeras IMAX, evidenciam ainda mais a qualidade dos efeitos construídos. O espectador é englobado na ação através da imagem e do som que explodem na projeção cristalina. A construção visual de Thanos também acaba sendo auxiliada por essa escolha. O trabalho de atuação de Brolin é transportado com perfeição. Cada piscada e movimento, dos poros as veias que saltam no pescoço, tudo é traduzido de forma tão crível e absurda, que o personagem vive nas telas.

Mesmo Brolin sendo o grande destaque, os outros nomes do inflado elenco correspondem a altura, principalmente os líderes dos respectivos núcleos temáticos do longa. Robert Downey Jr é indivisível de Tony Stark, que continua tão ácido e cínico como sempre, soltando tiradas em meio aos mais impróprios momentos. A interação dele com Tom Holland continua na dinâmica criada em “De Volta ao Lar” e o embate de personalidade com o Doutor Estranho de Benedict Cumberbatch é uma das melhores coisas do longa. Chris Hemwsorth e seu Thor conseguem um destaque positivo, num amalgama da persona clássica (dos dois primeiros longas solo) com a figura mais leve construída em “Ragnarok”, roubando a cena na metade final. Chris Pratt e toda a trupe de “Guardiões da Galáxia” são os grandes responsáveis pelo humor do longa, mesmo que Gamora (Zoe Saldana) e Nebula (Karen Gillan) carreguem grandes fatias de drama também.
Falando nele, o drama é um elemento bastante presente aqui. Com o destino do universo Marvel pendendo na balança a interação dos personagens é carregada de um senso de despedida até então diluído em outras obras. Relacionamentos também são colocados em evidência, como Visão (Paul Bettany) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) que tem um foco muito maior e mais desenvolvido aqui. Chris Evans, apesar do papel de destaque, está um pouco distante, assim como todo o núcleo que carrega consigo (Anthony Mackie, Scarlett Johansson e Sebastian Stan). No meio de tantos personagens, alguns tem poucos minutos de destaque ou servem como elementos de ajuda para outros, o que por si só não diminuem sua importância.

No entanto, se Guerra Infinita fosse uma joia (como as tão cobiçadas do título), seria uma gema com algumas falhas de lapidação. Algumas soluções perdem o impacto devido a algumas escolhas tomadas na sala dos escritores. Momentos de drama são atropelados por rompantes de comédia, não deixando espaço para o impacto se assentar na mente do espectador. O imediatismo da narrativa acaba atropelando alguns elementos ou cenas, que não estragam o resultado final, mas não deixam o filme atingir o nível de perfeição.
Vingadores: Guerra Infinita é a apoteose de uma era. É o filme que os fãs mereciam e uma obra de qualidade bastante superior ao que foi apresentado até então. Mesmo com alguns defeitos, o filme carrega um senso de mudança que deve confirmar a coragem do estúdio em seguir com a formulação de um panorama tão grandioso como o que foi feito até então. Não é perfeito, mas é ótimo naquilo que se propõe em fazer: jogar todas as emoções para o alto e deixar o público grudado na cadeira, numa verdadeira corrida emocional. Agora é esperar o derradeiro capítulo ano que vem e controlar a ansiedade pelo destino dos heróis mais bem-sucedidos do cinema.
> Live de Westworld com Carol Moreira, Mikannn e Michel Arouca!
PS: há somente uma cena pós-créditos no filme. E atentem para o pequeno detalhe após a mesma 🙂
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