Raio Negro encerra sua primeira temporada mostrando que pode ser muito mais do que uma série de heróis da CW.
Baseada na HQ de mesmo nome, Raio Negro é a mais nova das séries adaptadas da DC Comics pela CW e conta a história de Jefferson Pierce, diretor de uma escola e super-herói aposentado (Raio Negro), que precisa voltar a ativa quando um surto de drogas invade Garfield High, colocando em risco a segurança de sua comunidade, assim como de suas duas filhas, Jennifer e Anissa, bem como sua ex-mulher, Christine Adams. Com treze episódios e sem nenhuma conexão presencial com qualquer outra produção do Arrowverse, Black Lightning apresentou uma trama bem politizada, mas sei deixar de lado a alma de uma adaptação de super-heróis.
Jefferson, aposentado após ter seu casamento arruinado pela vida como super-herói, encontrou na escola e no serviço como diretor o tipo de heroísmo que o manteria vivo por mais tempo, além de oferecer um exemplo melhor para as duas filhas, a adolescente Jennifer e a estudante de medicina, Anissa. Contudo, quando Latavius “Lala” Johnson sequestra uma de suas filhas e começa a vender drogas no entorno da escola, oferecendo um grande risco para os alunos de Jefferson, o herói volta a ativa. E com isso vários outros problemas surgem para a família Pierce. Ah, é bom lembrar que as duas filhas de Jefferson também descobrem superpoderes.
Raio Negro, assim como Supergirl, não se envergonha de colocar no manto a discussão a respeito da sociedade norte americana e todos os seus problemas. Enquanto Supergirl debate a posição do imigrante e o empoderamento feminino dentro dos Estados Unidos, Raio Negro fala, principalmente, sobre a segregação racial e a marginalização do negro em um país altamente racista. Com um elenco majoritariamente negro, a série conseguiu se destacar exatamente por não abusar de clichês e estereótipos que a comunidade negra usualmente é atribuída. E a maneira que a série lida com seus personagens, de maneira tão acertada e pontual, é mérito do time de produção, composto por uma equipe diversificada e com relação íntima com o núcleo desenvolvido.
Obviamente por estar em um canal menor e competindo orçamento com outras três produções do mesmo gênero e que exigem um investimento maior, alguns detalhes de Raio Negro terminaram sem um refinamento melhor. Por um bom tempo a série terminou se escondendo da ação. Seu começo foi muito modorrento, com longas passagens em que Jefferson nem ao menos coloca a roupa de Raio Negro. Contudo a produção conseguiu trabalhar seu roteiro mais fechado e intimista de forma a conduzir seus personagens para ótimas interações. A família é o núcleo mais importante da série e em nenhum momento é deixada de lado, nem mesmo quando estamos acompanhando o vilão da série, Tobias Whale.

Por se tratar de uma série ao redor de um herói aposentado, não somos levados a acompanhar uma história de origem com Raio Negro. A população e os bandidos da cidade já conhecem o herói pelo nome. Logo, para respeitar a fórmula valorizada pelo canal, Black Lightning usou Anissa, a Thunder, como heroína em treinamento. Diferente da proposta de produções como Arrow, Flash e Supergirl, Raio Negro abordou a transformação de Anissa sem abusar dos clichês. Sozinha ela descobre seu potencial e como seus poderes funcionam. E respeitando o uniforme de origem da personagem na nona arte, a série até colocou Thunder para agir como vigilante antes de descobrir a identidade do pai como Raio Negro – e ele a dela. E é com Anissa, a primeira heroína negra e lésbica da TV, que Raio Negro não se acovardou ao trabalhar diversas temáticas relevantes e de peso. É Thunder quem aparece, uniformizada, e destrói uma estátua de um general racista, homenageado pela cidade em uma praça. Claro que ainda temos Jennifer, a filha mais nova, que descobre seus poderes mais para o final da temporada e termina relutante em abraçar a realidade da família, mas esta é uma discussão para a segunda temporada.
Também tivemos a inclusão da figura paterna em Gambi, o homem que acolhe Jefferson após a morte do pai do então garoto e depois passa a trabalhar como suporte do herói. Sim, todo super-herói precisa de um membro da família (às vezes todos) morrendo como combustível para a transformação. E é exatamente por isso que a dinâmica familiar de um pai e um mãe com duas filhas com poderes em que uma delas está operando como heroína ao lado do pai, que Raio Negro consegue se distanciar de suas amigas de casa. Existe uma compreensão muito grande de uma dinâmica familiar que se completa, apesar de nem sempre concordar e Gambi é parte integral deste núcleo.
Quando entramos na trama centra e nos vilões, temos quatro principais antagonistas: Tobias Whale, responsável pela morte do pai do Jefferson (um jornalista que revela a corrupção do então político); Lady Eve, uma misteriosa dona de funerária; Lala, traficante que trabalha para Tobias; e o último, introduzido na reta final da temporada, Martin Proctor, chefe de um braço do governo que trabalha com experimentos capazes de dar poderes para jovens e adolescentes – é por causa da vacina ministrada por eles no passado que Jefferson ganhou seus poderes. Cada um destes vilões apresenta um tipo de desafio diferente para Raio Negro. E todos funcionam muito bem, com destaque especial para Tobias. Martin, por outro lado, assume a função de um supremacista racial e político, gritando sem pudor o seu desejo de “Fazer a América ótima de novo”, frase popularizada por Donald Trump.
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Black Lightning conseguiu com seus treze episódios construir uma temporada bem estruturada. Apesar de alguns efeitos enferrujados, a história é envolvente. O ritmo é bem rápido, mesmo com a existência de muitos diálogos – o que pode dar a falsa impressão de que nada acontece – ledo engano, metade da temporada e uma grande jogadora é morta de maneira surpreendente. Contudo, indo contra outras produções do gênero, a série não se envergonha ao matar ou mudar completamente seus personagens. Existe muita alma em Raio Negro e a produção consegue se destacar, mesmo não reinventando a roda dos super-heróis da televisão, como Legion fez no FX. Você tem a corrupção policial e a maneira que a população enxerga um homem negro quando este é acusado de um crime, além de outras características tão importantes socialmente. A energia da série é forte o bastante para destacar como uma relação familiar pode elevar o gênero que já aparenta desgaste em suas histórias de origem. Raio Negro tem sim alguns defeitos, como na parte técnica e também na superexposição de sua trama, principalmente nos primeiros episódios, mas consegue superar as expectativas em várias outras instâncias.
Easter eggs e outras informações
– Raio Negro foi criado em 1977 e teve seu debut na revista Black Lightning #1. Criado por Tony Isabella o personagem nasceu como uma forma de resposta para Luke Cage, da Marvel, de 1972.
– Na loja do Gambi é possível ver ‘Desde 1977’, uma referência a data de criação do Raio Negro.
– As filhas do Jefferson ‘Raio Negro’ Pierce também trabalharam como heroínas na nona arte, através dos nomes Thunder e Lightning.
– Quem também aparece na série, rapidamente, é Grace Choi, como namorada da Anissa. Na nona arte ela é parte do grupo Outsiders, ao lado de Thunder.
– No primeiro encontro de Grace e Anissa, Grace está lendo uma revista em quadrinho dos Outsiders, grupo que ambas participam nas páginas.
– O primeiro uniforme que Thunder usa é bem similar a versão inicial dos quadrinhos, com cabelo loiro e cores azuladas.
– E por falar em uniforme, no primeiro episódio é possível ver a roupa clássica do Raio Negro, em uma fita de segurança.
– A série fez menção a outras duas heroínas da DC, Supergirl e Vixen – ambas com séries em exibição.
– Tobias tem uma segurança chamada Syonide, que também tem uma contraparte nos quadrinhos. A diferença é que Syonide de Black Lightning é, originalmente, um homem, apesar de também existir uma versão mulher, mas em The Flash. Também existe uma terceira versão da Syonide, que desenvolveu um breve romance com Fauna Faust, filha de Felix Faust e que terminou morta pelo Eradicator.















