E chegamos no top dez dos melhores filmes do ano que passou. Entre eles estão concorrentes e campeões do Oscar e algumas outras surpresas. 2018 foi o ano em que os filmes estrangeiros (aqueles produzidos fora do eixo hollywoodiano) comprovaram sua larga vantagem em qualidade e narrativa e ganharam o devido reconhecimento do grande público, seja nos cinemas ou nas plataformas de streaming.
Os critérios de inclusão foram a data de lançamento no país de origem, não sendo válidas a data de lançamento nacional ou estreia em festivais. Você pode conferir a primeira parte aqui.
- Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Na década de 70 um policial negro consegue se infiltrar na Klu Klux Klan usando um amigo branco para ser a personificação da voz no telefone. A premissa insólita do novo filme de Spike Lee pode parecer um filme de ação, mas usa da comédia de absurdo para escancarar que em questão de preconceito racial, quarenta anos depois, as coisas não mudaram nada nos EUA (e em outros países também). Bebendo da fonte dos blaxploitations do período, Lee cria uma pedrada narrativa que destrói todos os tetos de vidro que encontra pela frente, numa crítica ferrenha ao governo americano pós Trump. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes é uma obra que faz rir na mesma proporção com que lhe causa indignação, usando o passado para exemplificar o presente.

Amor de mãe é uma constante universal. E o cinema já bebeu dessa fonte das mais diversas maneiras (do drama ao terror), mas o exemplar brasileiro nessa lista é um exemplo do mais belos sobre essa temática. Irene é uma dona de casa que vê seu filho receber uma oportunidade no estrangeiro, fazendo com que ela entre num dilema de escolher ver seu filho feliz ou a sua própria felicidade. É tocante o modo como Gustavo Pizzi e Karina Teles trabalham todas as nuances num roteiro que acerta em cheio o público. Teles trafega do amável ao odiável, mostrando todas as faces do que é ser mãe, além de desmontar emocionalmente o espectador no final da projeção. Um dos melhores filmes brasileiros do ano (e com certeza uma melhor indicação ao Oscar do que o escolhido oficial).
- Cafarnaum (Capharnaüm)

O vencedor do Prêmio do Júri de Cannes e finalista do Oscar de filme Estrangeiro é um desses filmes que aqui e acolá aparecem na produção cinematográfica e arrebata tudo por onde passa. Ao escolher não atores para o seu longa, a diretora Nadine Labaki conseguiu ainda mais veracidade na história de Zain, um garoto que faz o possível e o impossível para sobreviver nas ruas do Líbano. No meio do percurso o filme vai colocando uma lente sobre as constantes mazelas que assolam grande parte da população mundial, indo da pobreza extrema ao controle de natalidade, passando pela imigração ilegal e condições e exploração de mão de obra. As atuações de Zain Al Rafeea e Yordanos Shiferaw são os pontos mais fortes da produção, principalmente o garoto estreante que dá um banho em muito veterano. Revoltante, emocionante e principalmente real, é uma obra que vai mexer com você, para o bem ou para o mal.

O cinema, como papel social, vai dando cada vez mais espaço para que diversas histórias sejam exploradas. Mesmo com a polêmica em torno da escalação principal (um homem interpretando um personagem trans), “Girl” não falha em mostrar toda a beleza e brutalidade necessárias à sua trama. Lara é uma garota de 15 anos, nascida no corpo de um garoto, que sonha em ser bailarina profissional. Mesmo vivendo num ambiente acolhedor (familiares, médicos, colegas), ela ainda passa por uma problemática que não é tão física, mas que com certeza parte desse princípio. A atuação de Victor Polster (hipnotizante no papel) é de uma sinceridade e entrega ímpar, mostrando toda a inquietação psicológica que a jornada do balé e da redesignação sexual pedem, num trabalho esmerado de direção de Lukas Dhont. Bonito e implacável.
- Assunto de Família (Manbiki Kazoku)

Poucos filmes conseguem inverter expectativas como “Assunto de Família”. O longa de Hirokazu Koreeda parte de um pressuposto básico e vai se desenvolvendo em uma longa e corajosa série de acontecimentos que joga o espectador numa montanha russa de emoções. Uma família de trambiqueiros “acolhe” uma garota esquecida fora de casa numa noite fria e a partir de então vamos explorando os diversos pontos desse núcleo familiar desajustado, de maneiras emocionantes e surpreendentes. E é nesse conceito de “o que é família” que o filme vai se alicerçando para usar a emoção como um cimento essencial para o drama familiar ganhar contornos definidos e chegar em seu clímax simples, mas poderoso. Mais um finalista do Oscar de Filme Estrangeiro que entra nessa lista e um dos melhores exemplares do cinema oriental do ano que passou.

Alfonso Cuarón não é um diretor de esforços fáceis. Ele já provou anteriormente que sabe trabalhar tanto técnica, quanto narrativa de modo a maximizar a experiência cinematográfica. Mas é em “Roma” que ele consegue aliar os dois num drama épico biográfico que abarca grandes partes da história mexicana de modo singelo e emocionante. A história de Cleo, uma empregada de origem indígena que trabalha para uma família classe média alta do México não só expõe as entranhas das relações socias mexicanas, como as cicatrizes deixadas por turbulentos acontecimentos do país. Além disso, coloca duas mulheres (Yalitza Aparicio, deslumbrante em seu papel de estreia, e Marina de Tavira) como pontos motores da narrativa e com isso trata de diversos temas atuais num contexto histórico passado. Mas grande parte do buzz sobre o filme se encontra no fato de ser uma obra Netflix que atingiu um alcance que muitas no modelo cinematográfico invejam, sendo inclusive uma dos francas favoritas no circuito de premiações. Polêmicas a parte, é um filme mais do que recomendado para você adicionar na watchlist.

Algumas obras fílmicas transcendem a classificação de gênero, aparentando ser uma coisa para no final se revelar outras ou várias. “Lazzaro Felice” é um exemplo perfeito dessa constatação. O filme dirigido pela italiana Alice Rohrwacher se vende como um estranho estudo da vida no campo na Itália e vai se revelando como uma fábula adulta sobre a redenção e a inocência. O trabalho de construção de narrativa é simples e efetivo, mas não coloca o espectador numa posição menor, deixando espaço para que ele tire suas próprias conclusões. Os destaques vão para Alba Rohrwacher e Adriano Tardiolo, com seus expressivos olhos esverdeados. Exploração de mão de obra e relações interpessoais, temas tão espinhosos são colocados de maneira engenhosa e criativa, deixando ao final a sensação estranha de ter acompanhado algo santificado, como uma liturgia simbólica que ganha forma na tela. Leve e triste em igual capacidade.
- Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse)

Adaptações (principalmente no contexto cinematográfico atual) são uma faca de dois gumes. Felizmente “Homem-Aranha no Aranhaverso” desponta como um dos exemplos a seguir daqui em diante. Desde seu visual deslumbrante (que simula as interações das HQs nas telas, com balões e onomatopeias, numa junção de técnicas de animação) até a efetividade da narrativa, que une o passado, presente e futuro do aracnídeo, tudo funciona num conjunto bem trabalhado e bem dirigido. Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e animação ganhadora do Oscar não só cumpre essas responsabilidades como as extrapola. Uma carta de amor aos quadrinhos e um dos melhores filmes do personagem, o filme consegue misturar aventura, comédia e emoção de maneira habilidosa, indo além das referências e consegue criar um clássico instantâneo dos filmes de heróis.
- A Favorita (The Favourite)

Filmes de período (ou de época) são geralmente encaixados em padrões narrativos e técnicos que engessam a trama em algo que não é desinteressante, mas não inova. Yorgos Lanthimos não só inova como cria uma das melhores obras de seu currículo, num filme que explora seu trio de protagonistas de maneira soberba e precisa. Centrado na figura da Rainha Ana e de suas duas mulheres de confiança, o longa dá espaço para as atuações de Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman (ganhadora do Oscar pelo papel) explodirem na tela com sensualidade e repulsa. Tudo isso emoldurado pelo uso de ângulos de câmera e lentes que dão ainda mais vazão pra claustrofobia crescente, num inteligente contraste com a iluminação natural dos ambientes rebuscados. Um perfeito jogo de poder e uma deliciosa mistura de luxúria, loucura e humilhações tornam esse filme imperdível.
- Hereditário (Hereditary)

Poucos gêneros mexem mais com o imaginário humano do que o horror. Do susto elegante ao gore extremo, o gênero engloba inúmeras maneiras de se tratar os mais diversos temores humanos. Mas “Hereditário” é um exemplar especial, daqueles que cria um medo que vai se infiltrando durante a exibição e floresce de maneira não a apavorar, mas de abismar com suas decisões. Com o primeiro longa de seu currículo, Ari Aster cria uma história que vai buscar no núcleo familiar as origens do mal. Seria o mal algo passado entre as gerações? A pergunta recebe as mais inesperadas respostas aqui. O diretor cria a sensação de pavor subvertendo signos do gênero, seja fugindo da trilha sonora que entrega a existência dos jump scares (aqui quase inexistentes) ou usando uma fotografia clara e expositiva (ao invés de esconder tudo em sombras). E mesmo assim, o filme não se priva de momentos chocantes (uma das cenas vai ficar marcada na sua cabeça por um bom tempo). O elenco se entrega com garra nos papeis dos arquétipos familiares, encabeçados por Toni Collette e Gabryel Byrne. Alex Wolff e Milly Shapiro completam o quarteto assombrado pelos twists completamente insanos do roteiro. Assustador e surpreendente, “Hereditário” é um daqueles exemplares que renovam o gênero ao mesmo tempo que imprime suas próprias melhorias. Como numa árvore genealógica onde cada geração é mais poderosa do que a anterior.
Menção Honrosa – Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War)

O último exemplar dos “heróis mais poderosos da Terra” (antes do vindouro Ultimato) é um filme que quebra expectativas por colocar o vilão no papel principal. Sendo citado (direta ou indiretamente) por grande parte do MCU, Thanos finalmente se apresenta como uma ameaça grandiosa digna de todo o temor acumulado. Além de ter uma das melhores sequências de lutas da Marvel nos cinemas e coesão na participação dos personagens (além de um visual de captura de movimentos primoroso), o filme perde um pouco da força das suas decisões finais ao necessitar do próximo volume para concluir seus atos. A escolha de eliminar heróis perde o peso dramático quando vários deles já possuem sequências confirmadas. Mas tirando isso, o filme é uma divertida e emocionante viagem rumo a conclusão de dez anos de histórias interligadas.
E os integrantes do Lounge Cinemaníacos no Telegram (link abaixo) também deram seu voto e os dez melhores filmes de 2018 na opinião deles são:
1 – Em Chamas (Beoning)
2 – Assunto de Família (Manbiki Kazoku)
3 – Infiltrado na Klan (BlackKklansman)
4 – Guerra Fria (Zimna Wojna)
5 – Roma
6 – Oitava Série (Eight Grade)
7 – Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-Man: Into the Spider-Verse)
8 – A Favorita (The Favourite)
9 – Ponto Cego (Blindspotting)
10 – Lazzaro Felice
Concorda? Discorda? Quais filmes você acha que deveriam estar no top 10 e não estão? Comente!
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