Manuela Dias começa a preparar o terreno para voltar à estaca zero.

Uma das maiores características das telenovelas – talvez a mais importante – seja o maniqueísmo. A palavra, que costuma ser rejeitada como se enfraquecesse o discurso, representa o folhetim em essência e sua ideia é distribuída entre personagens e estereótipos como uma maneira segura de comunicar ao espectador quem vai sofrer e vencer; e quem vai trair e cair. 

O maniqueísmo é onde se estabelecem as bases de um folhetim. E vejam bem, estamos falando de FOLHETIM; onde a linguagem busca uma simplicidade bem-vinda; que não é o mesmo que ser pequeno e sim reconhecer a natureza do gênero e seu público-alvo. A novela é feita de vilões, mocinhos, coadjuvantes morais, coadjuvantes cômicos, laços familiares e romances. Eventualmente, autores subvertem essas características misturando-as (fazendo vilões cômicos ou mocinhos egoístas). Contudo, no final das contas, a obrigação de cumprir a cartilha maniqueísta sempre fala mais alto. 

Manuela Dias é uma autora que gosta de ver-se como uma rebelde. Famosa depois da série Justiça, ela ficou conhecida como uma autora disposta a mostrar a humanidade de seus personagens em suas formas mais complexas. Justiça era essencialmente sobre isso, e apresentava personagens que sofriam como mocinhos, mas voltavam para se vingar como se fossem vilões. Na linguagem seriada essa não é uma interpretaç ão muito direta, mas no miolo o objetivo é esse. Para Manuela Dias o maniqueísmo é um recurso castrador. 

O exagero – como sempre – é inimigo da fluidez e Justiça mostrou seus problemas ainda na primeira temporada, com três histórias que não se sustentavam nas plataformas em que tinham sido criadas. As protagonizadas por Débora Bloch e Jessica Ellen beirando o absurdo. Algum tempo depois, em Amor de Mãe, a autora voltou a trabalhar personagens ambíguos, mas esqueceu que em novela as exigências são outras e após ser atropelada pela pandemia, correu com a vilanização crua de quem havia sido excessivamente justificada. Mais uma vez, a autora se perdia nos processos entre rejeitar o maniqueismo e ao mesmo tempo precisar dele. 

Vale Tudo é o apogeu dessa confusão. Na semana passada (uma semana de transição), Odete e Fátima se enfrentaram por causa das redes sociais da nova Roitman. A internet se compadeceu… Fátima tem sido a mina de ouro da empresa, justamente porque, enquanto é só uma influencer deslumbrada, se enquadra nas expectativas comerciais da obra. Com Afonso sendo um personagem apático, a torcida dos fatymores é contrária ao curso para onde a novela deveria ir em se tratando de um remake. A versão influencer da vilã teve que ser tirada de cena, porque sua queda do cavalo está prestes a começar. Mas, contudo, me parece ser tarde demais para que ela seja antipatizada como era esperado. De fato, ninguém mais quer vê-la perder. 

Odete é a mesma coisa. Os capítulos passados mostraram toda a armação para derrubar a Paladar; e a semana vigente vai explorar esse enredo na contramão de mais expectativas. Com a novela entrando no último terço, vilões começam a cair e errar. Na primeira versão, o plano de Odete dava errado, ela era desmascarada, se safava da denúncia manipulando Raquel de novo, mas, no fim, era esbofeteada e humilhada. Raquel sofria algumas consequências, mas, naquele ponto da trama, era hora de crescer a protagonista e fazê-la forte, combativa. 

Manuela Dias tem uma ideia diferente para o remake. O envenenamento da maionese pode não dar certo, mas ainda assim Raquel vai perder tudo novamente e voltar a vender sanduíche na praia. Saberemos como isso vai se desenrolar (e por quanto tempo) durante a semana, mas, já podemos dizer que o recurso parece uma tentativa desesperada de dar um reboot no que já foi feito e tentar recuperar a relevância da protagonista e a torcida para sua vitória derradeira. Todo o caminho até aqui foi tão deformado pelas liberdades na adaptação, que Odete acabou mais aceita que a heroina, mais querida que odiada. 

Houve uma sequência emblemática para entendermos isso; com Marco Aurélio e Leila; que mostrou a personagem cobrando dele que ele a deixasse existir como individual e não só como esposa dele. Alexandre Nero tem tanto carisma que a feição vilanesca do personagem entra em “modo charme” com apenas uma palavra sendo dita; e o casal cúmplice de crimes de corrupção, ganha os corações da audiência. A cena entre eles foi escrita com esmero; foi dirigida, editada e sonorizada com o carinho de quem dá força para o casal principal. Só que eles não são o casal principal; e isso diz muito sobre o interesse de quem escreve as trajetórias desses personagens. 

Não adianta elenco e autora irem para a imprensa dizer que a culpa do desajuste de expectativas é nossa. Essa novela se escreve com a mesma ótica que critica. Os mocinhos se afundam em inexpressividade e os vilões exigem o mesmo que a Leila estava exigindo: brilho. 

Mais uma vez vou precisar dizer que Odete foi o grande destaque da semana. A forma como ela manipula Mário Sérgio e Valter é maravilhosa. Ainda acho que as mudanças em Mário Sérgio foram um surto, mas a essa altura o surto é o padrão normativo da novela. 

Aldeíde e André finalmente engataram seu romance. Embora Aldeíde nem pareça que ganhou uma herança milionária (na primeira versão era ela quem queria ser famosa e “influencer”), o investimento no casal dá ao menos algo para os dois atores fazerem. 

A lista de falhas e negligências no remake é extensa, mas algumas delas são assustadoras. Marco Aurélio passou semanas sem mencionar Sarita; Raquel fez discurso contra mentira e pediu para Consuelo mentir; Sardinha teve uma namorada por duas cenas e nunca tinha sequer mencionado ela; a Tomorrow não se decide se tá indo bem ou indo mal; Fátima tem quase um milhão de seguidores, mas ninguém reconhece ela na rua; Odete não ama o filho, não sente falta do filho, mas escondeu o filho numa cabana no Rio de Janeiro ao invés de mandar ele para Austrália… É tudo inacreditável. 

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