O auge do remake de Vale Tudo chegou nas últimas duas semanas; e confirmou de uma vez por todas que Bella Campos segura de pé a obra de onde saíram suas maiores críticas. 

Quando fãs de Manuela Dias aparecem nos posts que criticam a autora, a defesa está quase sempre acompanhada da série Justiça como argumento. O ambicioso projeto de contar uma história diferente a cada dia da semana e fazer com que elas se cruzassem em algum ponto, foi “vestido” com uma estética cinematográfica e com o compromisso de uma dramaturgia ousada. Todas as histórias mostrariam pessoas comuns indo em busca de justiça depois de algum evento traumático em suas vidas. 

Vamos excetuar aqui a segunda temporada da série; possivelmente uma das piores coisas que a televisão produziu nos últimos tempos (junto com Os Outros 2); e considerar apenas o grande sucesso que o primeiro ano teve. Lá na época em que foi lançada, Justiça teve uma resposta quase unânime de espectadores e críticos. As tramas, contudo, já demonstravam o conflito constante da obra de Manuela, entre o querer ser complexo e a falta de controle narrativo em nome disso. 

Duas tramas representaram bem isso. Na história protagonizada por Debora Bloch, Manuela achou que seria verossímil uma mãe completamente devotada à filha e sem nenhum perfil de negligência, ter um caso com o assassino dela. A justiça em si é feita indiretamente, quando um acidente dá a oportunidade de vingança para aquela mãe. A outra história é mais problemática ainda, com a personagem de Jessica Ellen sendo presa injustamente por ser preta, mas depois da passagem de tempo, tendo sua trama se tornando a trama de vingança da amiga branca. 

Grande parte das histórias de Justiça tinha como centro a transformação do “homem comum” em um agente de vingança e morte. Mais tarde, em Amor de Mãe, a autora repetiu essa premissa com a personagem de Adriana Esteves; e, novamente, atropelou parte do processo natural das coisas, mutilando a personagem para que ela chegasse no ponto de subversão que a autora precisava que ela chegasse. Embora não tivesse controle sobre os problemas da pandemia, ela tinha controle sobre a qualidade do texto; e nem sempre – na ansiedade para chocar com as “decisões humanas” de personagens que não foram preparados para atravessar certas fronteiras – exerceu esse privilégio. 

Em Vale Tudo os problemas se repetiram; numa escala sem a estética, mas ainda pautados no mesmo fetiche pelo que a autora considera como “imperfeição”. Na hora de olhar para a história da mãe honesta em batalha com a filha desonesta, Manuela Dias esqueceu de exercitar os dois lados igualmente e jogou em cima de Fátima, Marco Aurélio e Odete (os três grandes vilões) toda o investimento em maldade e carisma, causando a negligência problemática do protagonismo de Raquel e o esvaziamento de grandes coadjuvantes. Cresceu apenas quem foi “premiado” com alguma subversão, tal qual vimos acontecer com Consuelo, Leila e até Celina. 

Não que o conceito de “honestidade” seja o mesmo de 30 anos atrás; ou mesmo que ele precise ser defendido ardentemente como forma de superioridade moral. Mas, dentro do gênero teledramatúrgico, o equilíbrio entre os polos é uma maneira de manter coesa a história que o público se dedicou a acompanhar. Atualmente, o remake de Vale Tudo está se sustentando em pilares controversos.

Duas semanas atrás, a novela alcançou seu primeiro ponto crítico de tensão. A trama da maionese estragada, infelizmente, foi desastrosa. Na primeira versão, ela se encerrava com uma jogada de manipulação brilhante de Odete após ser flagrada como mandante. Manuela Dias, contudo, estava mais preocupada em fazer um samba factual para ainda manter os personagens precisando se deslocar presencialmente de um restaurante para o outro. O tal apagão foi um festival de furos, e no fim das contas, roubou a cena do plot. O embate entre Raquel e Odete, outra vez, serviu para Odete dizer mais meia dúzia de frases de impacto que a internet ama. 

Logo em seguida, começou a queda de Fátima. E foi aí que se consagrou a evidência maior sobre esse remake: além de ser levemente inspirado no original, ele não foi feito para ser bom, ele foi feito para se comunicar com as redes, com a urgência vigente na linguagem visual da juventude conectada… e ninguém na TV representa mais esse universo do que a versão 2025 de Maria de Fátima. Odete tem um alvo parecido, mas que atinge mais os fãs das vilãs brancas, ricas e levemente jocosas; metralhadoras de frases de efeito; eternizadas pelos memes. 

Mas, ainda que Debora Bloch seja esse coringa, está no protagonismo de Bella Campos a verdadeira pilastra que segura essa novela de pé desde que ela estreou. E que fique claro: isso não significa que a abordagem de Bella para a personagem seja boa ou tenha “provado o contrário” para os críticos. A atriz ainda tem claras dificuldades de sair do território de clichês em que sua personagem foi construída, mas seria loucura não admitir que nada sustenta a relevância desse remake tão definitivamente quanto ela. 

Nas sequências em que Fátima foi desmascarada, Bella ainda tropeçava. A emoção parecia bombeada, sem construção; e toda vez que ia da dor para a afronta, ela o fazia sem nenhuma sutileza. Mas, essa é a Fátima de 2025, rainha isolada da superficialidade vigente. A conquista de Bella não está exatamente em convencer pelas vias naturais da emoção, mas em surgir como única capaz de ter conseguido criar uma relação genuína com o público; seja ela de admiração ou repulsa (mais admiração que repulsa). Incapaz de criar mocinhos interessantes ao redor de Fátima, a autora facilitou a soberania da vilã, tornando essa vilã a única coisa interessante. Como ela segura a novela e Afonso não funciona, a queda da personagem nos afetou num lugar diferente do passado. Nem ligamos para a queda da Raquel, mas queríamos evitar a queda da Fátima. 

Não se enganem… isso que acabei de dizer não nos mostra que  Manuela Dias queria evidenciar a moral flexível do público. Foi tudo completamente acidental. As estruturas em que Vale Tudo se apoia sempre estiveram frouxas, mas, quando o público abraçou Fátima, Odete e Marco Aurélio, não havia outro caminho senão garantir que o teto jamais caísse por causa deles. Eles dominam a relação do público com a novela; e Fátima é a principal via de interlocução. 

O que aconteceu no final da semana só reforça tudo isso. Raquel perde tudo quando deveria estar ascendendo; apenas para servir de canal para que Celina seja redimida. Sim, porque era interessante subverter Celina; porque era necessário derrubar também quem é honesto; numa interpretação bisonha em torno de combater o maniqueísmo usando a terrível noção de white savior para isso. No seu fetiche para descrever o que considera “complexo”, a autora atropelou a protagonista no meio de sua ascensão, enfraquecendo-a mais uma vez, adiando-a mais uma vez… e por menos de cinco dias. Em menos de uma semana, tudo volta a ser o que era antes; e o plot serve apenas para redimir a branca privilegiada e fazer a protagonista preta que havia finalmente ascendido, sentir-me mais uma vez humilhada. 

Estranhamente, Manuela Dias continuou presa ao argumento da série Justiça. Personagens traindo seus princípios criativos apenas pelo valor do choque; personagens pretos negligenciados e vilões redimidos e destacados. 


A queda de Fátima no Teatro Municipal passou por uma adaptação bastante correta. Na primeira versão a Fátima espera a Ópera começar, sai para ir ao banheiro, tira os sapatos e se joga da escada. Fazer isso dessa vez seria complicado, porque há uma sistema de segurança mais sofisticado. Ela, então, finge um desmaio no topo da escada. Foi um acerto. 


A dupla Consuelo e Odete me intriga. Sabemos que Consuelo se juntar com a vilã não seria legal para a personagem, mas toda vez que Odete elogia a competência da secretária eu fico contente. 

Chegamos ao ponto do affair entre Odete e César. Na primeira versão Odete também se apaixona por ele e também demora um pouco para descobrir que ele era o amante da Fátima. Isso poderia ter sido consertado agora, já que dificilmente Odete se envolveria com qualquer pessoa sem fazer uma varredura na vida do sujeito antes. 

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