A terceira parte da nova temporada de Twin Peaks é sem dúvida uma peça tipicamente Lynchiana e isso faz qualquer fã muito feliz. Da viagem espacial do Cooper “bom”, que trouxe mais uma vez pistas que esperamos conectar um dia, até o reaparecimento de Gordon e Albert, foi tudo milimetricamente pensado e impecável. David e Frost estão mais uma vez quebrando os limites da televisão, apostando em uma engenharia totalmente longe do que vem sendo produzido hoje pelos grandes canais; isso significa que eles estão realmente dispostos a desafiar a audiência, explorando caminhos que potencializam a nossa imaginação.

Vamos ao resumo.

O Cooper que estava preso na Black Lodge precisou atravessar o espaço até cair em uma estrutura que flutuava entre as estrelas, encontrou em seguida uma mulher sem olhos, que emitia sons incompreensíveis e que parecia tentar guiá-lo. Além da fotografia sensacional e da paleta de cores usada nessa tomada, é muito curioso perceber como o som vem sendo um personagem presente e importante nessa temporada. Vi muita gente reclamando da cenografia e dos efeitos digitais, mas a verdade é que o universo do Lynch tem regras próprias, é um desenho muito peculiar, que não busca ser uma representação precisa das coisas. Se pretende seguir com a série e não teve muito contato com a obra dele, é bom ir se acostumando.  

Cooper e a sua jornada para fora da Black Lodge

Atormentados pela urgência do tempo, que assumia a forma de uma assustadora batida, Cooper encara uma espécie de máquina, onde os números 15 e 3 depois aparecem gravados. Essa instalação mostra que em algum lugar do tempo e do espaço, as portas que conectam diversos mundos estão abertas. A escolha das 15 horas, vistas no painel do carro dirigido pelo Cooper mau, mostra que o desenho geométrico da teoria espaço-tempo, em que existe aquele sistema de coordenadas onde os eventos geralmente são representados por x, y e z, pode ter sido uma das referências. Coincidentemente, 315 é o número cravado na chave do quarto de Cooper no The Great Northern Hotel, que por sinal ele ainda tem guardada, como veremos adiante.

Cartão do quarto de Cooper no The Great Northern Hotel

Não é à toa que rapidamente percebemos que não existe apenas dois Coppers e sim três, sendo o último fabricado para burlar o processo de permuta que ocorreria entre o bom e o mau (como foi dito nos episódios anteriores). Em outras palavras, o Cooper mau sabia que naquela hora exata estaria voltando para a Black Lodge e que o Cooper bom possivelmente tomaria o seu lugar, então ele (não sabemos como ou com a ajuda de quem) criou o terceiro Cooper, que se chama Dougie. O Cooper bom acabou ocupando o lugar deste, fazendo com que o mau permanecesse no mesmo plano. Agora temos o bem e o mal bem próximos, a caçada pode começar.

A forma como Lynch conduziu essa sequência é de cair o queixo, usou a ausência dos sapatos para conectar os Coopers que estavam trocando de plano e o anel para simbolizar a “morte” de Dougie. É importante lembrar que as pessoas que geralmente utilizam o anel ficam sem sentir o braço esquerdo por um tempo. Isso acontece com Tereza Banks no filme Fire Walk with Me (morta um ano antes dos eventos em Twin Peaks), com Laura no mesmo filme, quando ela utiliza o anel dentro de um sonho e com o próprio Dougie. Na Black Lodge ele encontra Phillip Gerard, que logo percebe o engano: você foi fabricado com um propósito e eu acredito que agora ele foi realizado. Dougie, que ainda usava o anel, desaparece e se transforma em uma pequena esfera dourada. Lembrem também que em Fire Walk with Me o agente especial Chester Desmond (Chris Isaak), chamado para investigar a morte de Tereza Banks, desaparece logo após tocar no anel.

Outro detalhe importante é o fato de que quando o processo de troca está quase no fim, o Cooper mau vomita bastante garmonbozia (que é o alimento principal dos espíritos “malignos” que habitam a black lodge). Bob, por exemplo, era enviado pelo anão para recolher garmonbozia das vítimas que eram assassinadas. Garmonbozia é resumidamente a representação da dor e do sofrimento exalados por essas mulheres no momento do crime, o anão parece usar a mesa fórmica, como explicado no filme, para transformar esses sentimentos em uma espécie de creme de milho.

Cooper na cena do Cassino

Com o Cooper bom aqui perto da gente novamente, natural que ele se mostre completamente desconectado, não só do lugar que passa a ocupar (Dougie parece estar envolvido em situações nada legais), mas paralelamente do mundo que passa a fazer parte, visto que em 25 anos muita coisa mudou. Tivemos em seguida mais uma sequência na Delegacia em Twin Peaks, com Hawk tentando desvendar o enigma do tronco e Andy e Lucy tentando ajudá-lo, trazendo o humor característico dos personagens. Talvez a pista do chocolate colocada por Lucy faça algum sentido no futuro, prefiro acreditar no “tudo é possível” por enquanto. Rápida cena com Dr Jacoby pintando de dourado as pás que encomenda e logo vem a sequência hilária do Cooper bom no cassino, o melhor momento do episódio. Vamos aqui elogiar o trabalho que o Kyle MacLachlan está fazendo, nos colocando diante da peculiaridade do personagem que marcou a sua carreira e que só ele consegue dar vida. HELLLOOOOOOO é um forte candidato ao posto de grande meme nessa temporada.

Cooper seguindo aqueles sinais que flutuavam por cima das máquinas, ganhando toneladas de moedas, indica que talvez ela possa ter vindo para esse plano com uma ajuda das boas. O episódio termina com a esperada entrada do próprio David Lynch fazendo o divertido diretor do FBI Gordon Cole e Miguel Ferrer novamente na pele de Albert. Aqui o coração de todo mundo deve ter batido forte, são personagens muito queridos e que fazem toda diferença no universo de Twin Peaks. Olhar a forma como eles conduzem as investigações, fugindo totalmente do convencional, já é um deleite. Muito bom ver o caso da caixa de vidro sendo conectado a esse plot. Ele é apresentado pela agente Tamara Preston, interpretada por Chrysta Bell, cantora que já produziu um disco com Lynch e que parece ter conseguido um papel bem importante. Gordon após receber uma ligação com notícias de Cooper, o mau, que foi resgatado pela polícia, monta uma comitiva e programa sua ida para Dakota do Sul. Quero encerrar apontando a presença da foto de Franz Kafka ao fundo, na sala de Gordon e o telefone vermelho, um outro símbolo característico do fantástico universo simbólico de Lynch.

Apontamentos do log

  1. Já começam a circular algumas críticas com relação a abordagem dada as personagens femininas na série e a ausência de atores e atrizes negras. Acho que as duas críticas devem ser levadas a sério e debatidas com bastante cuidado. Não acho interessante deixar essas questões em segundo plano e apesar das justificativas dadas por alguns fãs, que acreditam que em nome da arte esse tipo de escolha é passível de naturalização, eu prefiro o caminho da crítica e acho que nos dois casos elas são legítimas.
  2. Excelente entrada da Nafessa Williams (Jade) na série, apesar da questão acima citada e do estereótipo fortemente colocado, que bom ter uma atriz negra na tela.
  3. Perceberam como o primeiro bloco, com Cooper no espaço, tem uma atmosfera muito parecida com Eraserhead, primeiro longa do Lynch e isso deixa tudo ainda melhor.
  4. Como continuamos percebendo, ver Fire Walk with Me parece ser essencial para entender os eventos da nova temporada.
  5. Será que iremos saber no futuro como o anel verde chegou nas mãos do Dougie?
  6. Repito, onde está Bob?
  7. Que maravilha o General Briggs flutuando no espaço.
  8. Acredito que a mãe drogada e o garoto que estavam na casa em frente a que o Cooper bom saiu com Jade possam ter algum destaque.
  9. Não deixem de seguir as playlists com as músicas que tocam no final de cada episódio, oficialmente parece que a trilha oficial só chegará nas lojas em setembro.
REVISÃO GERAL
Nota:
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twin-peaks-3x03-the-return-part-3A terceira parte da nova temporada de Twin Peaks é sem dúvida uma peça tipicamente Lynchiana e isso faz qualquer fã muito feliz. Da viagem espacial do Cooper “bom”, que trouxe mais uma vez pistas que esperamos conectar um dia, até o reaparecimento de Gordon e Albert, foi tudo milimetricamente pensado e impecável.