Fargo sempre foi uma série imprevisível. Desde sua temporada de estreia, quando tínhamos certeza de que a história estaria seguindo certo rumo, o roteiro vinha e nos levava para outra direção. Mesmo quando algo já é de se esperar, elas não acontecem no momento em que esperamos. O fato é que de uma forma ou de outra, Fargo nunca cansa de surpreender.
Da abertura ao encerramento, tivemos alguns dos melhores ingredientes do que a série tem a oferecer: tensões, suspense, trilha sonora que envolve o espectador, boa história e excelentes atuações, além de uma morte para nos deixar chocados (voltaremos a ela mais pra frente). Tudo isso é possível graças à excelente direção de Dearbhla Walsh, ela é uma diretora muito boa. Ela já havia dirigido o episódio anterior e tinha acertado muito, mas em The Lord of No Mercy ela se superou. Muito da tensão proveniente no episódio se dá graças ao seu trabalho, pela forma como ela usa os enquadramentos, acerta nos cortes para o ritmo das cenas. Mesmo em situações clichês como a tensão de uma fresta aberta funciona. E é curioso como ela busca ângulos diferentes para a filmagem, nos tirando um pouco do lugar comum. Do plano detalhe do objeto que Varga cutuca os dentes aos planos mais gerais, há um bom domínio de cena. O que nos leva a outra característica da direção de Walsh: ela transita muito bem entre os extremos. Ela mostra desde algo nojento como os dentes de Varga sangrando, passando por toda organização e simetria de Dollard (quase como um T.O.C.), até momentos de ternura entre Ray e Nikki, e tudo isso de forma muito natural.
As tensões foram muito bem trabalhadas neste episódio. Uma das principais delas é que o Pedro finalmente conhece o Lobo. E que cena. Bom ver que Gloria não se intimida pelo vilão, ao contrário. As caras lançadas pela personagem de Carrie Coon ao Varga foram impagáveis. Os dois personagens são perfeitos como antagonistas, pois ambos são “invisíveis” dentro de um mundo cada vez digitalizado. E como Varga consegue muita vantagem em cima dos outros devido ao que as pessoas postam sobre si mesmas nas redes sociais, Gloria deverá dar ainda algum trabalho para ele. Ela é uma variável dentro da equação, já que em um primeiro momento ele não sabe nada sobre a “chefe” de polícia. A determinação dela em resolver o caso, mesmo passando por cima de seu superior, deverá ser o principal motor até o final da temporada.

Claro que as tensões funcionam também devido ao ótimo roteiro de Noah Hawley, que demonstra total contole sobre sua criação. E sua principal arma é a capacidade de pegar o público de surpresa, como dito no parágrafo de abertura. Todos imaginávamos que Ray e Emmit eventualmente brigariam. Todos imaginávamos que eventualmente um acabaria matando o outro. O que eu não imaginava (e nesse momento só posso falar por mim mesmo) é que isto aconteceria já neste episódio e nem da forma como foi conduzido. A morte de Ray foi um acidente estúpido em um momento em que os dois estavam quase fazendo as pazes, e que choca o espectador não pela ação em si, mas pela forma como aconteceu. Eu me peguei pensando “É sério isso que eu estou vendo?, é assim que esse personagem vai morrer?”. Claro que a morte de Ray nos leva a todo um lugar novo dentro da série, abre um leque de possibilidades, que se depender do ritmo que Hawley adotou para série a partir de agora, deverão ser exploradas imadiatamente.
Em The Lord of No Mercy a trilha sonora também se destaca. Na ágil montagem do momento que Ray pega a arma no início do episódio, a trilha começa com sons de batidas que a princípio parecem na porta, mas vão acelerando até se tornarem musicais, acompanhando o ritmo da cena. A sinfonia 23 de Beethoven também foi uma ótima sacada, ajudando a dar o contraste em relação a imagem que estávamos vendo. Jeff Russo sabe fazer excelentes escolhas, e seu trabalho já merece destaque desde a temporada anterior.
Apresentando o melhor episódio da temporada até aqui, Fargo consegue mudar as diretrizes com os acontecimentos dos episódios, e fazer o público se questionar o que virá em seguida. Logo deveremos chegar ao clímax da temporada, mesmo que já não saibamos mais o que esperar dele.
Em tempo 1: Emmit procurou a ajuda de Varga após matar Ray, algo que me lembrou o Lester na primeira temporada, recorrendo ao Malvo após matar a esposa.
Em tempo 2: Nikki é astuta. Pelo pouco que ela ouviu da conversa entre Sy e os capangas, já deduziu algumas coisas importantes sobre os negócios de Emmit, e pretende usar na hora certa.
Em tempo 3: Falando em Nikki, a personagem deverá ter ainda mais importância no restante da temporada. Não só por ser usada como bode expiatório, mas também porque não tenho dúvidas de que ela entrará numa jornada de vingança pelo que aconteceu ao Ray.
Em tempo 4: Varga citou Hitler (ou melhor, 24 deles para ser mais exato) e no momento que ele procura a Gloria no computador, é possível ver um retrato de um oficial, fardado de uniforme. Será que ele tem alguma relação com a cena de abertura da temporada, com o caso das identidades trocadas na Berlim Oriental?















