Dona de Mim chegou ao fim depois de meses indecisa sobre qual história ela queria realmente contar. 

O que muitos chamam de “falta de criatividade”, na verdade, é um estilo. Rosane Svartman chegou ao horário das 19 com Totalmente Demais, e desde então ficou claro que ela gostava de criar histórias em que uma protagonista muito pobre ascendia socialmente através de algum tipo de talento. Esse talento geralmente era correspondente ao núcleo rico que essa protagonista ia sacudir quando trombasse com ele por alguma razão circunstancial. O mundo do entretenimento geralmente também era parte da receita. Sim, autores trabalham com receitas. 

Conforme os títulos foram passando, Rosane foi atribuindo outras características que entraram no DNA de sua obra, como as referências literárias, as interferências musicais e os núcleos ligados à periferia de grandes cidades. Em Totalmente Demais e Bom Sucesso ela ainda teve duas mocinhas brancas; mas as duas seguintes (Vai na Fé e Dona de Mim) já puderam ter protagonistas mais condizentes com o tipo de abordagem que Rosane ia descobrindo para si. 

Autores têm DNA definido. Um dos mais celebrados – Manoel Carlos – chegava ao ponto de nomear todas as suas protagonistas de Helena; colocar quase todas morando na mesma região; e ter em quase todas uma rivalidade mãe/filha. Sua fama de “autor elegante” bloqueava as críticas aos seus métodos recorrentes; mas ele, Rosane, Sílvio de Abreu, Glória Perez… e tantos outros, acabam sempre ficando na própria zona de reconhecimento. E o público, no fim das contas, quer isso mesmo. Os problemas de Dona de Mim, de fato, eram outros. 

Dessa vez a protagonista morava em São Cristóvão e tinha talento para o marketing. Sucesso em Bom Sucesso, Clara Moneke encarnou Leona, que começa a novela lidando com o trauma de ter perdido uma filha logo após o nascimento. Mesmo sofrendo essa dor duramente, Leona precisa trabalhar e prover para sua família. É isso que a faz parar na casa dos Boaz, uma família dona de uma fábrica de lingerie onde Leona trabalhava. Leona está lá para tentar cuidar de Sofia, uma órfã adotada pelo patriarca dos Boaz; e que vem a ter o mesmo nome e mesma idade que sua filha morta teria. 

Aqui começam as questões… Adotada por Abel, Sofia vive aprontando pegadinhas e aterrorizando babás, porque, numa casa cheia de adultos, ela não tem com quem se identificar. A ideia da autora é evidente: a chegada de Leona (uma mulher preta que poderia ser sua mãe) faz com que Sofia se conecte imediatamente com ela. As duas criam um laço de amizade que é bonito e carismático; e essa poderia ser uma boa oportunidade para discutir aspectos psicológicos interessantes; já que Leona projeta um afeto compensatório na menina, que poderia acabar não sendo saudável para nenhuma das duas. Sofia poderia ajudar Leona a tratar seu trauma; e Leona poderia ajudar Sofia a se ajustar ao mundo que já era dela. 

Rosane e sua equipe preferiram o caminho mais fácil. Embora tenha passado um bom tempo deixando claro que Sofia era muito amada pelo pai, pela avó e pelos irmãos; o texto volta e meia mudava de ideia e trabalhava com a noção de que Leona era a única pessoa capaz de cuidar bem da menina. Então, para conseguir justificar que Leona ficasse com ela, começou um massacre de todas as referências que a pobre criança já tinha e que eram bem estabelecidas pelo enredo. E é importante ressaltar: o trabalho da pequena Elis Cabral foi um dos mais sensíveis e competentes da novela. Ela foi um achado para dar conta daquela personagem tão cheia de turbulências na vida. 

O pai verdadeiro surgiu para causar mais trauma e terminou sendo assassinado; o pai verdadeiro morreu em seguida. Ela passou de mão em mão em decisões judiciais absolutamente malucas; e ainda tinha que lidar com um tio psicopata. Contudo, a coisa toda chegou a um certo requinte de crueldade quando a mãe da menina “ressuscitou” só para confirmar um abandono. A volta de Ellen foi um devaneio tão grande, que acabou de vez de sepultar a reputação da novela. 

A maior evidência de que os roteiristas não sabiam como resolver os pepinos em que se colocaram veio na decisão de quem deveria ficar com a protagonista no final. Leona passou a novela inteira vivendo uma tensão com relação ao ex, o policial certinho Marlon. Estava tão estabelecido que eles se amavam “para sempre”, que os autores inventaram um recurso bisonho que mostrava as “almas” de Leona e Marlon se encontrando quando eles estavam próximos. O problema é que se Sofia ficasse com Leona e Marlon seria o último degrau descido a caminho da completa maluquice, já que a menina tinha uma família que a amava e que foi quem a criou, no fim das contas. A solução foi abortar a missão “Marlon e Leona” e juntar a protagonista de novo com Samuel, irmão de Sofia. Dessa maneira, a menina poderia continuar sendo a “filha” dela sem que a situação fosse totalmente incoerente. 

Essas inconsistências também apareceram em outros setores da trama. Filipa – uma grande personagem que foi defendida brilhantemente por Claudia Abreu – perdeu seu prestígio junto ao público por conta dos romances com os dois homens responsáveis pela morte do marido. Ao invés de terem tido mais atenção para que os golpes e vilanias de Jacques fossem mais discretos; por metade da trama, Filipa presenciou vários deles, tornando sua aproximação com o ex-cunhado inadmissível. Também não houve cuidado ao fazer com que o envolvimento de Danilo com a morte de Abel fosse mais indireto. Do jeito que foi feito estava muito evidente que informar Jacques naquele momento sobre como tirar freios de um carro era o mesmo que encomendar um assassinato iminente. Filipa e Danilo eram um casal interessante, mas ela de novo foi rejeitada por ceder à atração por ele. Ainda bem que no final resolveu seguir sozinha. 

Mas, a novela teve seus acertos. O maior deles foi no núcleo Ryan/Kamilla. Desde o início da novela já sabíamos exatamente quem eram aqueles personagens; quais seriam suas tensões e onde a trama queria chegar. Kami surgiu como uma mulher em busca de uma relação afetiva e em busca de notoriedade; e assim permaneceu até o final. Sua maior tensão era a história mal resolvida com Ryan, pai de seu filho e presidiário. A trajetória de redenção dele veio junto com o amadurecimento forçado dela (no bem conduzido plot do estupro); e ambos se reencontraram calmamente, no tempo certo, de maneira natural. 

Ryan foi um personagem com um enredo extremamente seguro. A saída da cadeia; a busca por um trabalho; os problemas com o movimento; a necessidade de aprender a ser pai; e o problema de ver a mulher que amava junto de seu melhor amigo de infância, que ainda por cima era policial. Tanto L7nnon; quanto Giovana Lancellotti e Humberto Morais entenderam e defenderam seus personagens perfeitamente; e ainda tiveram a seu favor o compromisso dos roteiristas em não esquecer de seus pontos de apoio. O núcleo da academia, das batalhas de rap e até a rotina profissional de Marlon nunca foram esquecidos. 

O texto de Rosane e sua equipe é geralmente inspirado; e nos proporcionou um desempenho irretocável de Suely Franco e Tony Ramos, por exemplo. Suely, aliás, teve uma das mais lindas performances de 2025. Entre os filhos de Abel, cada um desempenhou bem sua função, mas Bel Lima foi atrapalhada por aquele enredo completamente estapafúrdio do bebê. É difícil entender a necessidade dos autores de novela de sempre inserirem elementos do sexo oposto nas relações homoafetivas. De um jeito ou de outro, sempre acontece. Mas, Bel, Rafa Vitti e Juan Paiva deram conta do recado. 

Infelizmente, mais uma vez, tivemos que lidar com um vilão e sua namorada/esposa/peguete submissa e feita por uma atriz preta. Foi assim com Sheron Menezes em Bom Sucesso, com Clara Moneke em Vai na Fé e agora com Aline Borges. Sheron e Clara acabaram pegando protagonistas depois; então, vamos torcer para Aline, porque ela merece ser recompensada por aquela personagem, que não fez nenhum sentido do começo ao fim. Já Marcelo Novaes fez o que pôde com o vilão rasteiro e pouco inspirado criado pelos autores da novela. 

Dona de Mim não foi uma novela ruim, mas foi uma novela confusa. Com seus mais de 200 capítulos, precisou vender a própria coerência para preencher o tempo; e acabou maximizando a saturação dos maneirismos de Rosane (os momentos cantados pelo elenco precisam ou acabar ou melhorar muito). Mas, é extremamente importante reforçar que ela é uma autora brilhante, que nunca vem para o horário sem algo importante e relevante para dizer; que se cerca de gente que pode contribuir; e que dá os créditos por isso. Ela é uma autora necessária e celebrada entre os que entendem desse riscado. 

Talvez Dona de Mim tenha sido um erro de cálculo já na sua premissa central. E era notório que tudo parecia já ter sido criado de maneira confusa. Quando aquela abertura hedionda e totalmente fora do clima surgiu na tela, todos nós previmos: é, algo está fora do lugar. 

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