Uma série de rubricas.

Quando eu escrevo uma peça eu escrevo muito, uso a minha própria formatação e nela, o ideal para uma apresentação de 60 minutos de teatro é que o texto tenha até 35 páginas. É como eu me guio. Três blocos de 10 páginas e uma hora de espetáculo garantido. Para alcançar essas 30 páginas há de se ter uma maioria brutal de diálogos, já que as rubricas (indicações de direção, movimentação e atuação) são a menor parte desse processo. Com roteiros esse material chega a 80 ou 100 laudas, dependendo da duração do filme/episódio. Em sua maioria, novamente, preenchido de diálogos. Isso, é claro, se o roteiro não for de um episódio de The Walking Dead, quando tudo que não é dito tem sempre muito mais valor para o roteirista.

Imagino que o roteiro de um episódio como esse que vimos nesse retorno tenha 20 páginas. 15 de rubricas e 5 de diálogos. Essencialmente, After foi um episódio que retomou o ritmo contemplativo e filosófico da dramaturgia de The Walking Dead, privilegiando os silêncios e os impulsos internos dos personagens, nos levando de volta para uma série de dúvidas e desconfianças: Será mesmo que o programa está disposto a não entender seus 16 milhões de espectadores como confirmações de plena qualidade?

Mas aí entramos numa estrada bifurcada bastante perigosa… Acho que pela primeira vez não podemos culpar a série por ter diminuído o ritmo. Enquanto em muitos momentos ela rejeitou o ritmo dos HQ’s para dar vazão à suas analogias, justamente nesse, quando voltamos de um momento de grande catarse e movimentação, ela resolve ser fiel ao que a inspirou, entregando um episódio quase totalmente transposto dos quadrinhos, que segue categoricamente a cartilha de suas intenções. O resultado é um beco sem saída… Como criticar o show por ter voltado a filosofar se isso é exatamente o que a história original faz quando chega nesse momento?

Não vamos criticar cegamente então… Vamos nos ater aos fatos e esperar que os próximos episódios provem que apenas respiramos por necessidade nessa semana. Dentro do ritmo de uma dramaturgia, grandes eventos são realmente precedidos de certa calmaria. A cobrança com The Walking Dead é o excesso de calmarias ANTES dos grandes eventos. Num mundo construído em bases de extrema tensão, os roteiristas conseguem o feito de tornarem a história um tratado de exploração dos impulsos emocionais dos personagens. Isso, nas doses certas, pode tornar a série um verdadeiro fenômeno de crítica. Porém, infelizmente, não é isso que acontece. Se a cada 1 episódio movimentado tivermos que esperar 8 de observações filosóficas, não vamos recuperar nossa fé no show.

Dois pontos de vista foram privilegiados nesse retorno: o de Michonne e o de Carl. Com Rick sendo apenas um espasmo do homem que foi antes, a tragédia da prisão leva Carl a assumir sua porção adolescente mais irritante: aquela que culpa os outros daquilo que ela não pode controlar. Podemos culpar Robert Kirkman pelas neuroses do garoto, já que ele mesmo escreveu a adaptação para esse episódio. As cenas da série e dos quadrinhos se fundem quase que perfeitamente, cumprindo um papel que apesar de chato é necessário. Carl se manteve relativamente neutro no que dizia respeito ao julgamento sobre o pai e se havia um momento dele explodir, era esse.

Posso ter minhas reservas quanto ao ritmo desse momento, mas o que a série consegue é sempre me fisgar pela perspectiva desse mundo tão terrível. The Walking Dead funciona imensamente bem para pessoas que vivem se colocando no lugar das outras. Quando Carl entrou naquele quarto cheio de livros, discos e filmes, eu imediatamente fui transportado para o tipo de divagação que sempre torna essa mitologia devastadora: aquelas foram pessoas que tinham sonhos, gostos, amores e que ou estão entregues à fuga ou perambulam sem consciência em busca de carne. A existência sob esses termos é definitivamente sufocante.

Michonne também teve tempo de lamentar o que perdeu. Quando fez dois novos “seguranças”, foi levada a relembrar um pedaço do que fora sua vida antes do apocalipse. Infelizmente, ao invés de optar por um flashback, o roteiro quis fazê-lo mixado a um pesadelo, afrouxando um pouco a complexidade desse recurso. Michonne é uma personagem com personalidade muito marcada, muito situada na obscuridade, sem que o programa tenha se preocupado muito em nos dizer por quê. O fato é que ao mesmo tempo, isso acaba aproximando-a do mesmo instinto que domina os ambulantes que ela decapita. A cena da walker tão parecida com ela foi quase um desenho dessa intenção para o espectador. O controle que ela perde na cena da floresta é o apogeu dessa consciência sobre si mesma: ali está ela, caminhando na floresta ao lado dos walkers, como se fosse um deles. 

O momento em que o reencontro entre Rick, Carl e Michonne acontece sob meias circunstâncias, sem aparecer na tela plenamente, confirma o constante potencial que a série tem para fazer com que nos importemos com ela. Esse foi um retorno estratégico, preguiçoso para o público leigo e fidelíssimo para os oriundos dos quadrinhos. Da parte de quem realmente se entrega a The Walking Dead, fica difícil criticar. After foi um episódio de respeito ao universo que explora, mas cheio dos vícios de linguagem que tanto ameaçam a integridade do show.  

Wrong Bite: Fico incomodado com as cenas de Michonne caminhando tão ilesa entre os walkers apenas por ter dois numa coleira. Corrijam-me se estiver errado, mas não seria possível então andar no meio de uma horda apenas mantendo-se próximo dos infectados? Numa das sequências da floresta ela está caminhando lado a lado dos walkers e seus “seguranças” estão a uns dois passos de distância dela. Explicações? 

Right Bite: A cabeça transformada de Hershel logo na abertura: assombroso.

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