Através de acertos e erros, avanços e tropeços, Girls se entrega ao exagero.
Eu ainda não tenho muito bem definido em minha mente o que eu estou pensando dessa terceira temporada de Girls. A repaginada visual e narrativa trouxe um suspiro renovador para a série, no entanto o principal, que é o desenvolvimento dos personagens e as relações estabelecidas entre eles estão sendo apresentados de forma acentuadamente irregular. Talvez, a maior prova da irregularidade seja o fato de que o último episódio, Only Child, facilmente conseguiu se tornar o melhor da temporada, mesmo mantendo Shoshanna e Jessa em um limbo e impedindo que Hannah consiga sair do ciclo de falsas esperanças (algo que, depois de ter sido mastigado do piloto até então, revelou-se um claro lugar comum narrativo). Infelizmente, Free Snacks não foi capaz de quebrar essa irregularidade e puxou o nível de qualidade desse início do 3º ano para baixo.
Se há uma certeza sobre a nova temporada de Girls é a de que ela foi pensada e está sendo executada como resultado das pressões da crítica, do público e da própria HBO para segurar a audiência e o apoio da impressa estadunidense. O saldo dessas pressões, no entanto, está girando em torno da exacerbação de seu universo. Apesar de ainda entregar momentos emocionalmente genuínos, a série insiste em fugir do núcleo principal de personagens e acrescenta novos elementos chamativos e visualmente exagerados para tentar combater o esgotamento e a preguiça narrativa. Para corroborar o estacionamento textual, Jessa continua a esmo e o que vimos da garota foi uma cena curta e insípida em que ela vende uma roupa de bebê.
Dunham e o time de roteiristas aparentemente também não conseguem decidir o que fazer com Shoshanna. Ela, que sempre foi a mais engraçada do quarteto, permaneceu em quinto plano durante os cinco episódios anteriores e, neste, quando vimos a personagem ganhar mais tempo de tela, Shosh foi transformada em uma fábrica de momentos cômicos completamente distanciada de sua natureza. Quando ela decidiu firmar uma relação com Ray, apesar da falta de ambições e de estabilidade do mesmo, foi pela existência de um sentimento, do bom trato dele quanto a ela. Shosh começar o relacionamento com o cara mais burro que ela conheceu na vida, ficar falando durante o sexo e mantendo um olhar completamente distante e descompromissado durante o ato, para mim, é uma descaracterização pesada da personagem. E é uma pena que essa descaracterização tenha ocorrido no mesmo episódio em que ela compara o momento contemporâneo da vida dela e a de Ray e percebe que ele conseguiu crescer em relação a quando o namoro acabou, enquanto a vida dela está uma verdadeira bagunça.
Por outro lado, a relação entre Marnie e Ray se desenvolveu. Apesar de o pareamento ter sido iniciado somente semana passada, a química entre os dois é notável. Gostei muito de ver Ray ligando para Marnie e fingindo que não queria conversar com ela e não se importava com o que ela estava fazendo. Melhor ainda foi ele indo a casa dela para assistir The Real Housewives of Beverly Hills. No entanto, eu não sei muito bem o que ocorreu, se foi culpa dos atores, da direção ou do roteiro, mas a discussão no restaurante foi completa e desnecessariamente exagerada. Não só pelo fato de eles já começarem a discutir gritando, mas também pela superficialidade da razão e do substrato da discordância.
As peripécias de Hannah continuaram e, dessa vez, vimos nossa protagonista se aventurando na GQ, em meio à chefe com óculos três vezes maior que o ideal, ao cara que odeia a cara dela, ao cara que gosta da cara dela e à garota legal. Esse foi um plot sofrível em termos de humor, como geralmente é o caso com Hannah, nessa terceira temporada, no entanto houve, pelo menos, a entrega de um belo momento. Quando Hannah percebe que os outros três redatores eram escritores e que, para não ter que voltar para as casas dos pais ou passar fome e ficar sem um teto, assumiram um trabalho de publicidade, Lena Dunham entregou uma atuação certeira, expondo a amargura e a quebra das grandes esperanças que ela tinha, após ser confrontada com seu possível futuro.
Para coroar a inconstância narrativa, tivemos o absoluto esquecimento sobre a expulsão de Caroline da casa de Hannah-Adam. Depois de insinuar um conflito entre o casal ao fim de Only Child, isso foi jogado para debaixo do tapete e, em troca, ganhamos o rapaz em busca de um emprego. E é isso: através de acertos e erros, avanços e tropeços, Girls vai entregando sua terceira temporada, com um saldo pendendo para o negativo, mas ainda acredito na série, porque seus problemas podem ser contornados.
















