Governar sem ordem e sem progresso.

Quando a equipe executiva de The Walking Dead anunciou a chegada do Governador ao mundo da série, houve muito burburinho e muita expectativa. Quem não acompanhou os quadrinhos pode não ter entendido o que significava aquele momento, mas o personagem se tornou um dos ícones da mitologia do programa por conta de sua transgressão e seu destino. O fator “adaptação”, contudo, têm movimentos de liberdade que precisam ser respeitados, então, o Governador da série manteve a transgressão e flexibilizou o destino.

No final da terceira temporada ele foi poupado. O antagonismo com Rick ganhou uma importância muito grande para os roteiristas, que mesmo sabendo que um longo hiato separava a saída do personagem do retorno para uma nova temporada, prefeririam adiar mais ainda esse callback. The Walking Dead, com isso, mantém sua estrutura de cartas marcadas, fazendo duas temporadas em uma, deixando muito claro pro público que as transformações da série parecem acontecer a passos largos, mas na verdade se movem no modo mais lento.

Estamos na quarta temporada e até agora passamos por apenas dois grandes cenários: a fazenda e a prisão. E nos dois casos, houve uma impressionante resistência para abandoná-los. Se formos pensar em coesão dramatúrgica, essa permanência é um anseio dos personagens, mas em termos práticos não funciona. Eles saíram da fazenda por causa disso e sairão da prisão provavelmente pela mesma razão. O porto é uma solução sonhada, mas frágil, sobretudo num mundo onde o agrupamento de vivos atrai o agrupamento de mortos. Claro que esse paradoxo é rico se colocado em perspectiva, o problema é que os adiamentos na narrativa de The Walking Dead nunca parecem contextualizados e sim, técnicos. Não abandonar a fazenda representava menos gastos, não abandonar a prisão compensa os gastos de chegar até ela, elegantizar o roteiro também é uma forma de justificar a falta de ação com investimento intelectual… Enfim, a série parece estar sempre se compensando e consegue com isso não ir a lugar nenhum.

Internment foi um episódio que gritou a agonia daquele presídio da mesma maneira que agonizavam os internos de Hershel. Intencionalmente ou não, os roteiristas deram o recado definitivo: precisamos sair daqui, esse cenário está doente, essa é uma abordagem decadente da vida dessas pessoas. E embora tudo devesse ruir de uma vez por todas, Rick e os sobreviventes continuam remendando cercas e ignorando a verdade. Ele e nós, que chegamos ao quinto episódio da temporada lidando com uma doença que deveria ser um aspecto da história e não centro criativo dela. Temos a impressão que dois episódios seriam suficientes para lidar com aquilo, mas passamos cinco deles fazendo isso, para que outro adiamento de confronto ocupasse metade deste ano.

Curiosamente, esse foi um dos episódios mais ativos da temporada, com um bom número de mortes e alguma ação. Não foi uma ação que se comprometeu com mudanças definitivas, mas melhor ver personagens avulsos morrendo do que não morrer personagem nenhum (precisamos admitir que essa é uma série onde ataques e mortes são parte da gênese). De certa forma, focar a ação na Ala Hershel foi uma decisão acertada para acabar com esse extensivo plot da contaminação. Uma das maiores qualidades de The Walking Dead sempre foi essa: a eterna sensação de suspensão, de perigo iminente, que faz com que o simples ato de dormir seja perigosíssimo, já que alguém pode morrer em silêncio durante a noite, virar zumbi e te comer antes do amanhecer.

Demos adeus a um monte de personagens dos quais não vamos sentir falta, mas teria sido mais inteligente manter alguns deles e transformá-los em regulares. Fazer isso é uma forma de redirecionar os fãs caso perdas mais sentidas sejam necessárias. E perdas sentidas devem estar nos espreitando nas próximas semanas, quando o retorno do Governador provavelmente se dará através da dor e do sangue. Mesmo com minhas reservas, curti as transformações sequenciais dos zumbis, curti a movimentação na Ala Hershel e torci mesmo pelo sujeito. Mais do que tentar ser bom refletindo no silêncio, The Walking Dead precisa entender o quanto é boa no caos. Seus personagens se saem melhor no impulso, na força, no selvagem a que são obrigados. É assim que eles se expressam melhor.

Pouco se falou de Carol, porque provavelmente será Daryl o mais incomodado com a decisão de deixá-la. O raciocínio de Rick sobre o assunto ainda parece distorcido pra mim, mas a concordância de Maggie soa como uma aprovação definitiva. Algo me diz que Michonne deve ser o foco na semana que vem, assim como seria com Andrea se ainda estivesse viva, já que o Governador tem uma ligação “especial” com ela e sanar a sede de sangue dos fãs significa mais do que matar alguns zumbis.

Matar zumbis, inclusive, precisa parar de ser o despiste para justificar a falta de ordem e progresso que travou essa trama desde o ano passado. The Walking Dead é uma série onde se mata zumbis, mas eles não podem ser o trunfo que “salva” o episódio da mesmice. Eles tem que ser o bônus e não o ônus. Essa parece, aliás, ser a forma como tratam o Governador. Sua primeira aparição foi afetada, sem contexto, servindo a um cliffhanger que provavelmente significa uma próxima semana voltada a mostrar seus passos até aqui. Ou seja, mais adiamentos… Mais confusão entre reflexão e tédio, entre ação e oportunismo, entre respeito pelos personagens e medo de perdê-los. E nós aqui do nosso lado… confusos entre entender falhas e mesmo assim, sendo incapazes de resistir ao processo. Somos espectadores doentes também… Igualmente ansiosos por uma vacina.

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