O series finale é a meta que The Vampire Diaries precisava.

Welcome to the Jungle, everybody! Não àquela selva de pedra que os Guns N’Roses descrevem em uma de suas mais memoráveis canções, mas uma outra, nova, recheada de incoerências e razões tolas para fazer tudo parecer grande e importante, mas que, mesmo assim, não deixa de se identificar com um de seus versos: “I wanna watch you bleed / Eu quero ver você sangrar”. Não, não os personagens, mas nós mesmos, o público. Para aqueles que se identificaram com o episódio e deram nota máxima no IMDB: acalmem-se! Não irei generalizar, já que nem tudo foi ruim, mas já afirmo de antemão que faltou pouco pra ser. Em um contexto amplo de 42 minutos, posso dizer, sem dúvida, que não tive sono, não pausei o episódio para conferir as redes sociais, e até gostei de acompanhar a fuga de Stefan, mas faz tempo que TVD não se preocupa mais em esconder suas incongruências de roteiro, que estão cada vez mais latentes.

Começamos, pois, pelo desencadeamento de acontecimentos que levou à liberação de todas as almas presas à pedra Phoenix. Nesse ponto, assim como disse na semana passada, já parto do pressuposto de que não há sentido algum em criar uma caçadora imortal para uma pedra mortal. Poderia haver argumentos de que Rayna, embora se divulgasse aos quatro cantos sua imortalidade, nunca de fato teve essa regalia, mas nem assim é fácil de acreditar que os responsáveis pelo ritual do sacrifício deram a bobeira de deixar um brecha na onipotência da pedra ao permitir que a magia de uma bruxa poderia colocar tudo a perder? Gente, Rayna está há tempos capturando vampiros, perdendo anos e anos de muito sexo, drogas e rock’n roll, pra chegar um herege qualquer chorando sangue e liberar todos os vampiros mais fodásticos e temidos de todo o universo? De verdade? Todo esse trabalho pra terminar com Rayna amarrada numa cadeira cenográfica, se debatendo com as tais vozes esquizofrênicas e com ares de “parece que o jogo virou não é mexmo?”. Era só isso que a vilã que até o todo poderoso Julian temia tinha a oferecer? Parece que sim, parece que não, parece é nada… a intenção não é fazer sentido, mas anunciar que “OS MAIORES VILÕES QUE ESSE MUNDO JÁ VIU TÃO CHEGANDO GALERA! ACREDITEM EM MIM, PELO AMOR DE DEUS! VAI SER GRANDE! VAI SER ÉPICO! OLHA ELA! Continuemos aos acontecimentos, então.

Stefan acorda, acorda em meio ao fogo, com ferimentos, pessoas gritando, cuidados médicos, perguntas de rotina, até que surge a palavra “herói”. Aí eu pensei: “Opa, espera, a missão de Stefan no mundo prisão deve estar relacionada às inúmeras vezes em que ele quis proteger todos e se absteve de se colocar em primeiro lugar. Deve ser isso, sigamos”. Não, não era! Logo Rayna tratou de explicar que todo mundo estava livre e que as almas poderiam entrar em qualquer corpo. Mas ao que parece ela não explicou só pra gente não, ela explicou pro Stefan também! De onde Stefan deduziu, com tanta sagacidade, que o fato de se ver no espelho como outra pessoa significava não estar no mundo prisão? Poderia ser um teste, uma missão, qualquer coisa, mas não, pra Stefan foi um click de que aquilo não era o seu maior pesadelo. Antes de se ver no espelho, ele estava proferindo altas ironias sobre a razão daquilo tudo estar acontecendo e fazendo questão de inserir a palavra “vampiro” a cada duas palavras que dizia à socorrista, ou seja, ele de fato acreditava estar no inferno, então porque não se manteve assim? O que o levou a ter certeza que aquilo não era só mais um teste? Não fizeram questão de explicar, já que havia algo maior a ser divulgado: STEFAN TEM TRÊS DIAS DE VIDA! E AGORA? TÁ APODRECENDO, SALVA ELE DAMON!

Em meio a tudo isso, tínhamos o “pior dos piores vampiros” – como bem enfatizou Rayna na singeleza de um grito desesperado do roteiro em se fazer temível e crível – adentrando o corpo de Stefan. Em alguns poucos momentos, comecei a questionar se de fato era tão aparente para um ex-prisioneiro da pedra Phoenix o fato dele não estar mais inserido naquele universo paralelo em que ele esteve por anos a fio. Do que pudemos depreender do inferno de Damon, era perceptível, pela repetição, que nada daquilo é real, mas, a medida que ele vencia etapas, um novo acontecimento surgia, e o looping acabava se tornando menos automático, mais real e o inseria de tal forma no contexto da pedra, que era difícil separar a ficção da prisão com a realidade já fantástica da série. Foi este, inclusive, o artifício usado por TVD quando Damon finalmente conseguiu sair da pedra: a total ausência de distinção entre o pesadelo e o real, já que, naquela ocasião, ele fez uma verdadeira chacina ao atacar todos seus aliados. Então porque, mais uma vez, não fizeram questão de evidenciar todas essas turbulências de universos e tornaram a descoberta de tal falo pelo serial killer um pouco mais elaborada? Ele não tinha dúvidas, apenas certezas: estava livre e não abandonaria aquele corpo. A impressão que passou é que existe uma espécie de estágio probatório ao entrar na pedra Phoenix, em que o vampiro já sai pós-graduado em todas as implicações, explicações e condições da quebra do contrato. “SAÍÍÍÍ, AGORA DEIXA EU SER MUITO MAL.”

“Se o episódio não foi de todo ruim, cadê a parte boa, Bruno?”. A parte boa disso tudo, mesmo sabendo que não há qualquer chance de Stefan apodrecer naquele corpo, ou do tal serial killer durar mais que três dias, é poder se entregar aos acontecimentos que levarão a tudo isso. Mesmo sabendo, desde sempre, que Stefan não morreria naquela nevasca, foi bacana de acompanhar a saga de Damon em busca do irmão, ou descobrir quais meios ele iria se valer pra encontrá-lo, ou acompanhar os sempre pontuais, mas profundos diálogos que a série nos oferece. Aliás, o quão grande TVD se tornaria se seu roteiro acompanhasse a qualidade de seu texto? A essa altura do campeonato, com anúncios extraoficiais de encerramento da série na próxima temporada, não há mais sentido se agarrar no óbvio, mas sim aproveitar o interstício dos acontecimentos, o entretenimento evidente que ele proporciona, mas sem se abster de perceber todos os seus contrassensos, sobretudo nesse momento, em que a série os tem utilizado não em prol dos acontecimentos, mas para preencher lacunas e criar situações que não se justificam pelo plot, mas pela conveniência de estarem ali. O óbvio já é óbvio há muito tempo e só deixou de ser insignificante porque o roteiro já não se sustenta como antes, ou não compensa como antes.

Na falta de caminhos a seguir, TVD começou a andar em círculos e a desconstruir antigas verdades absolutas e, talvez, o caminho do fim seja o mais interessante e o único a se seguir. A série precisava de uma meta, e um series finale planejado pode ser, enfim, a solução.

P.S.1: Rayna está toda esbaforida quebrando o pescoço de Valerie e o que Alaric decide fazer? Se movimentar em câmera lenta até o dardo tranquilizante. Parabéns, ação tão frutífera quanto foram seus casamentos.

P.S.2: Alaric pediu Caroline em casamento. Tá explicado porque ela fugiu com as meninas!

P.S.3: Gosto de acompanhar a sagacidade de pensamentos de TVD: Tatuagem de âncora = Trabalhar na Marinha = Stefan tá no corpo do viciado fugitivo = Que q ta acoteseno?

P.S.4: Se eu estou morrendo de frio dentro de um carro, é lógico que se me der vontade de vomitar eu vou abrir a porta e me atirar no gelo. Não posso sujar o carro!

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