
Downton Abbey e um conto de morte.
Spoilers Abaixo:
E is que os roteiristas de The New Normal chegaram até um impasse: falar de morte. Um impasse provocado por eles mesmos, já que não precisavam falar disso agora se não quisessem. Porém, se pararmos para pensar bem, falar da morte de um sonho como o de ter um filho não seria possível para a série em nenhuma instância, já que matar Shania ou o próprio filho do casal estaria fora de cogitação. Então, encomendar um filhote era a forma mais acertada de conseguir seguir com a ideia. É o plot delivery. Quer falar de morte sem matar os seus? Crie outros datados para morrer.
O que salva a série da crítica ao providencialismo é seu humor sempre afiado e suas referências cada vez mais deliciosas. Ela consegue o equilíbrio perfeito entre todo seu universo armado – como Shania ia conseguir roupas de época tão perfeitas no mundo real? – e a verdade de suas motivações e direcionamentos.
Shania continua diva, sendo a criança que foge da realidade das maneiras mais lindas do mundo. Não adorá-la é praticamente impossível. Através dela, o roteiro ainda aproveita para homenagear o mundo televisivo-pop-contemporâneo, que serve como um importante ponto de conexão conosco. Shania resolveu ser Maggie Smith essa semana, nos presentando com um tiquinho de Harry Potter e Mudança de Hábito, e um montão de uma ótima imitação da personagem da atriz em Downton Abbey.
E são ousados, porque Maggie ganha prêmios e é unanimidade entre os fãs da série inglesa. Mas, ser sincero é importante, e eu amei a piada sobre Maggie fazer sempre o mesmo personagem: britânica esnobe. Ri mais alto ainda quando Clay entrou em cena e confundiu a fantasia de Maggie Smith com uma fantasia de Sharon Osbourne. E quando a gargalhada quase estava acabando, ele convence a filha a fazer algo mais moderno e sugere Taylor Swift, a celebridade mais gongada dos últimos tempos.
A história também resolveu dar um pouco de atenção à Goldie. Os pormenores da gravidez dela são pouco explorados, o que não é uma coisa ruim, mesmo porque, quando resolvem explorar é de maneira divertida. Como foi agora, com a libido hipersensível provocando alucinações muito interessantes para o público-alvo. Isso acabou dando abertura para outro bom personagem: Clay, que tem uma burrice delicada, que nos lembra Brittany, e que acaba soando sempre charmosa e carismática.
E tem a questão da morte… O curioso é que durou pouco. O cachorro morreu e cumpriu sua missão narrativa pra lá do meio do episódio. O clímax se providenciou quando Goldie foi parar no hospital, e então a iminência da perda encontrou seu sentido. Não havia oportunidade melhor para trazer de volta o padre que nos encantou no episódio sobre o batismo. É importante não abandonar o desafio verbal e a análise, e a série continua fazendo isso.
O melhor sobre The New Normal é o conhecimento exato de quando falar sério sem ser sério. Usar as melhores metáforas – e mais cretinas – para chegar onde quer. Tudo para ouvirmos encantados, um diálogo que se coloca claro e imediatamente identificável. Quem nunca teve medo de perder um amor? E o quão superficiais sempre fomos em pensar que um mundo sem dor seria ideal? A dor permite e alegria de não sentí-la. Não se ama sem se expôr a dor. E The New Normal sabe fazer uma bagunça narrativa para alcançar essa máxima, nos divertindo no processo, e nos arrasando com constatações tão bem colocadas.
Não há nada mais apaziguador do que saber que as possibilidades de que essa série tenha encontrado sua base imutável, são muitas. 16 episódios e podemos avaliar que essa é uma produção consolidada e não um fogo-de-palha narrativo, que se faz genial no conceito, mas não se segura na prática. The New Normal se segura de tantos jeitos que mal posso me conter. É um presente pra alma, exibido por 21 minutos, que fazem a diferença pra toda uma vida.
Anormal Point: Como o mundo Gleek lida com o episódio insinuando que Cory não sabe chorar? E como não amar eles fazerem isso tão descaradamente, usando um personagem de Sing que se chama Flynn?












