Um pedacinho da dramaturgia e da fantasia, só pra nós.

Quando o mundo era apenas mitologia – nos registros da simbologia grega – a homossexualidade já era relevante para a sociedade. Ela sempre existiu na dinâmica humana, ao mesmo passo em que os heterossexuais ganhavam a contagem. Cada civilização lidou com o assunto como quis, e salvando-se raras exceções, a diferença sempre foi um problema de interpretação para a engrenagem social. O que não funciona como se espera, deve ter algum problema evidente. Como a compreensão é o caminho mais difícil, o ser humano geralmente apela para a ditadura, e logo arranja uma forma de varrer a “sujeira” para baixo do tapete.

Entretanto, os gays sempre estiveram ali. Na Itália a homossexualidade nem existiu demograficamente durante muito tempo, mas eles sempre estiveram ali. Até aquele 28 de Junho de 1969, eles eram o “assunto não mencionado”, que percorria os guetos e era agredido pela polícia e até pela população. De fato, o colorido das bandeiras que hoje são sustentadas nas grandes capitais do mundo, devem seu direito de andar nas ruas a esse dia. O dia em que a comunidade gay começou a lutar por um pequeno lugar nesse imenso mundo de molduras pré-fabricadas. Como são todas as grandes mudanças na humanidade, essa também não foi pacífica e nem tranquila.

Não é apenas uma questão de buscar por direitos civis, mas de buscar também o direito de ter uma alma, de merecer respeito e amor. Muitos passos precisam ser dados em alguma direção que determine a igualdade, mas uma igualdade que não se prenda apenas ao legislativo. O mundo precisa entender que a homossexualidade não é uma questão de escolha, e sim de condição definitiva, tão inerente ao instinto, ao espírito, à pele, quanto é a heterossexualidade. Um impulso que não se entende e nem se controla, porque é uma parte sem finitude do que se é. Sexualidade, afeto, não são escolhas que se possam tomar, e o levante ocorrido na frente do bar Stonewall Inn em Nova York naquele Junho de 69, foi o primeiro passo na direção dessa voz.

Esqueçam o fator carnavalesco das paradas de hoje em dia. O que vale é o direito de poder sair as ruas como se quer. O primeiro ato de Gay Pride começou a abrir os olhos da sociedade para a obrigação de lidar com o que não é fácil de digerir. A arte, como sempre, é pioneira nessa direção. Enquanto o cinema começou mais cedo a falar do amor homoafetivo, as séries de TV só deram seus passos mais representativos nos anos 90.

Abaixo, uma lista com alguns dos personagens mais relevantes nesse cenário de luta social e principalmente, interna. Hoje o Série Maníacos vai abrir um parêntese para falar de diversidade, e eu convido todos vocês a contemplarem algumas das criações que melhor comunicaram – e eventualmente educaram – o mundo a respeito do amor e do desejo que não se aplicam nas regras pré-estabelecidas.

Vamos a eles.

Santana – “Glee”

 

Vamos começar por uma série que está no ar e que fala amplamente sobre o assunto: Glee. O que faz com que Kurt não esteja presente nesse post, é o simples fato de que a luta dele foi menos interna que a de Santana. Ela é a convergência dos problemas sociais e pessoais que assolam a juventude nessa parte da vida em que ninguém explica os motivos que levam a essas diferenças.

Santana começou como uma bitch apenas, depois se apegou a um rótulo de bissexualidade que nunca lhe serviu. Essa é uma conhecida fuga dos homossexuais mais relutantes. Gostar de tudo delega certo charme a sua capacidade de domínio, mas geralmente significa muito mais escudo do que orientação. Em Glee temos os dois casos: a bissexualidade escudal e a bissexualidade genuína (defendida por Brittany).

Santana demorou três temporadas para assumir seu amor por uma outra menina. No fim das contas, acaba sendo o amor o responsável por trazer paz ao coração de quem deseja o mesmo sexo. Glee fez episódios maravilhosos nesse processo, fez a personagem cantar suas dores de forma belíssima, e tirou-a do armário com dores e delícias. Santana foi aceita pelos pais, e rejeitada pela avó. No final das contas, o que ela superou para si mesma é que fez a diferença.

Jack – “Dawson’s Creek”

 

No final da década de 90, quando a televisão ainda não tinha muita intimidade com o assunto, Kevin Williansom resolveu mostrar como se faz. Jack entrou na segunda temporada de Dawson’s Creek como interesse romântico de Joey. Aos poucos, a natureza sensível dele foi assumindo suas verdadeiras posições e iniciando uma abordagem do assunto que impressionou a crítica e a audiência, tamanha sua inteligência e liberdade.

Ao ser obrigado a escrever um poema sobre algo muito pessoal, Jack coloca suas dores no papel e se surpreende quando o sádico professor da matéria, o coloca para ler sua criação em voz alta. Isso deflagra uma série de eventos que levam Jack a precisar lidar definitivamente com sua natureza. A pacata Capeside sofre um baque, a revelação atinge todos os personagens e inaugura uma série de cenas que trouxeram um texto tão seguro acerca do assunto, que deu orgulho de ver.

Na cena acima, Jack fala para o pai sobre toda sua angústia em precisar vencer etapas ainda mais problemáticas do que a maioria dos adolescentes. Em outra sequência, ele conversa com um pretendente, que diz a ele – num dos diálogos mais preciosos da série – que ser gay não é o sexo, mas a ansiedade, o coração apertado, as mãos suando, na hora de pedir o telefone de alguém que você gosta.

Jack fez uma linda trajetória na série, foi responsável por uma dupla com Jen que comove até hoje, e teve um final digno de um protagonista. De todas as abordagens sobre a homossexualidade na TV, a de Dawson’s Creek é sem dúvida uma das mais especiais.

David – “Six Feet Under”

Antes de cortar pessoas em Dexter, Michael C. Hall estreou na TV na pele de David Fischer, um problemático agente funerário da série Six Feet Under. David não era o mais velho da família, mas com a morte do pai e com o irmão rebelde caindo no mundo, se viu obrigado a assumir os negócios e perpetuar legados. É claro que isso provocou um imenso ruído em sua vida pessoal, já que sua homossexualidade latente era um evidente problema para sua mãe religiosa e para ele mesmo, que tinha fortes crenças católicas.

Durante a primeira temporada da série, Allan Ball dá uma aula de como trabalhar as agonias e culpas de alguém que se recusa a se assumir. David sofreu muito, muito mesmo nesse primeiro ano. Sua angústia era tão evidente, sua tristeza era tão palpável, que chegava a dar um nó na garganta. Para homossexuais reprimidos em volta do globo, ele foi um acalento. A televisão, finalmente, servia como uma forma de ampliar a compreensão, de externalizar detalhes que ajudariam a esclarecer.

Da terceira temporada em diante, a série se dedicou a trabalhar os pormenores de uma relação gay comprometida. David e Keith não foram o casal mais fácil para plateias leigas. Entender a dinâmica do relacionamento homoafetivo pode chocar, mas ainda assim, a série conseguiu o seu intento maior: deixar claro que a verdade e força, tornam a saída do armário um processo de encontro com a verdadeira felicidade.

Kevin Walker“Brothers & Sisters” (Por Gabriel Tubbs)

Brothers & Sisters nos deu de presente um dos maiores personagens gays que a televisão americana já presenciou.  A série, que contava a história de uma família disfuncional que tinha péssima habilidade em guardar segredos, deixou muito claro que sair do armário não é o momento mais difícil da vida de um homossexual. É apenas o começo.

Kevin, que era o quarto dos 5 filhos de Nora, já começou a série como um personagem abertamente gay. Sua trajetória ao longo das 5 temporadas, no entanto, demonstrou que outras barreiras são ainda mais difíceis de ultrapassar. Mesmo tendo uma família que o apoiava por completo, Kevin era muito mal resolvido com sua sexualidade. A sorte dele foi poder encontrar o melhor marido que um homem poderia ter. Scotty, que não fazia mal aos olhos de ninguém, era também um parceiro paciente, honesto e muito compreensivo.

Tendo uma família e um marido tão presentes em sua vida, Kevin não teve escolha senão crescer. Aos poucos, o personagem foi se demonstrando mais confortável perante sua homossexualidade, dando ao seu intérprete Matthew Rhys oportunidades incríveis de brilhar na telinha.

Infelizmente a série terminou de forma brusca e inesperada. Mas Kevin deixou uma mensagem muito forte de que ser gay é uma luta diária e constante. E que é por isso que existem tantos homossexuais dentro do armário até hoje, o que é perfeitamente compreensível, uma vez que ainda vivemos em uma sociedade que entende como uma abominação algo que diz respeito apenas ao indivíduo.

Julian – “The Shield”

Quando a impressionante série policial The Shield estreou, ninguém achava que com tanto espaço para violência e testosterona, algum personagem gay fosse ter destaque. Estavam errados. No meio de todo o caos do subúrbio de Los Angeles, estava a equipe de Vic Mackey flertando com o crime, e sendo obrigada a lidar com um integrante indireto, o novato Julian.

Negro, sério, calado e extremamente religioso, Julian passou a primeira e segunda temporada da série num processo muito parecido com o de David. Infelizmente para ele, e felizmente para o nosso critério, o caso de Julian termina na direção oposta. O personagem existiu para mostrar aos reprimidos, o que acontece quando a decisão de sufocar sua identidade é tomada contra todo bom-senso.

Julian escolheu respeitar sua religião, casar-se e esquecer seus instintos naturais. Indo contra todas as nossas expectativas, o criador da série também escolheu não insistir em libertações. Julian entrou numa espiral de negação da qual não saiu mais. Terminou a série sofrendo, negando, fingindo e agonizando.

Walt – “The Carrie Diaries”

 

O motivo pelo qual Walt está nessa lista, ainda que ele faça parte de uma série que não tem tanta audiência, é porque esse personagem levantou uma discussão acerca do quanto se esconder pode afetar outras pessoas. No processo – sem malícia – de procurar a adequação, homossexuais relutantes acabam sempre se envolvendo com metades inocentes dessa dinâmica de negações. Para fingir a heterossexualidade é necessário mais que um rótulo. Precisa haver comportamento.

O caso de The Carrie Diaries, por causa de como a série é, foi mais suave. A relação entre Walt e Maggie obviamente provoca reações nela, mesmo que sua personalidade seja libertária. A mulher, de tão inteligente que seja, tem uma tendência a tentar feminilizar o homem. Gays enrustidos são alvos festejados, porque representam a porção de sensibilidade tão buscada e tão torpe na maioria dos heterossexuais. A mulher sempre acha que um homem pode ser sensível sem suspeitas. E ele pode, é claro. O problema são os casos omissos, que transformam essas expectativas em alvos fáceis para o julgamento precipitado.

Maggie se sente enganada ainda que ela também engane. No final das contas, esse é só mais um episódio de frustração que complica ainda mais a forma como as mulheres moldam o universo masculino. O medo de passar pelo que ela passou, transforma as mulheres em “caçadoras de heterossexualidade”. E o que simboliza a heterossexualidade sem suspeitas? O homem rude, rústico, infiel, inerte emocionalmente, distante… Walt pode não ser muito para o quão despercebida foi sua série, mas a razão de sua existência naquela dramaturgia, levanta muitas questões.

Vito – “The Sopranos”

 

Chegando em sua sexta temporada, eu, como fã de The Sopranos, sempre me perguntava: “Será que vão perder a chance de abordar a homossexualidade dentro desse contexto tão inadequado ao tema?”. Eis que nesse último ano, enfim, David Chase resolveu explorar a questão de uma das formas mais impressionantes que a televisão já viu.

O gordinho Vito Spatafore sempre foi o soldado mais fiel e produtivo de clã dos Soprano. Lucrava mais, não era viciado em drogas, não tinha amantes, mas durante anos, passou despercebido nesse sentido. Com sua vida heterossexual preparada e vivida, fazia como muitos que compartilham de seu estilo de vida: vivia seus desejos em segredo. Para nós, a homossexualidade dele foi revelada quando o namorado da princesinha Soprano o flagra fazendo sexo oral num vigia noturno. Para a máfia, Vito foi desmascarado ao ser flagrado numa boate gay em Nova York.

Com um membro ativo da família revelando esses traços, qual a única opção viável? Matá-lo. Matá-lo nem tanto por ser gay, mas por ter sido descoberto e colocado a esposa (as esposas eram sempre irmãs ou primas de alguém) numa situação de constrangimento. Sabendo disso, Vito faz o que tinha que fazer e foge. E é aí que a série começa a mostrar do que é capaz.

Vito consegue fugir a tempo de se afastar bastante e vai parar numa cidadezinha simpática que o acolhe totalmente. Ele conhece um homem adorável, lindo, a personificação da masculinidade, que se apaixona imediatamente por ele. Vito encontra segurança, amor e um novo emprego. Porém, os anos como pai de família, dentro do sistema de dinheiro fácil pesam sobre ele, e então nos deparamos com a força daquela dramaturgia.

O vídeo acima, infelizmente, não está legendado, mas nele podemos ver a primeira conversa de Tony com Melfi, sobre a homossexualidade de Vito. Na cena, Tony fala a respeito de como entende e enxerga a “prática” e o faz de maneira dura, porém, honesta. Com todos os seus primitivismos, Tony também era capaz de refletir. Ele sabia de todas as qualidades de Vito, ele ponderava sobre elas. Matar seria mesmo necessário? Reagir seria tão importante assim? O quão de respeito uma pessoa tão competente perde simplesmente por ser gay? Uma aula de texto, e um momento da série que esbanja relevância e inteligência.

Callie – “Grey’s Anatomy” (Por Gabriel Tubbs)

 

O processo de entendimento de Callie foi bastante completo no decorrer das temporadas de Grey’s Anatomy. Bissexual assumida, a ortopedista começou a série como hetero e foi se descobrindo com o passar do tempo. A começar com seu relacionamento com Erica Hahn, que foi acontecendo aos poucos e de uma forma muito suave para evitar grandes choques ao público. A autora que não deve ser nomeada queria explorar justamente isso na história: duas personagens se descobrindo juntas. Ela não quis incluir nenhuma outra lésbica já “pronta” para criar o drama gay. E isso funcionou muito bem até a demissão de Brooke Smith, que interpretava Erica.

Após a saída de Brooke, Callie engajou um relacionamento “casual” com Mark Sloan, o que fez a ortopedista entender que corta pros dois lados. O que só veio a calhar de forma perfeita com a chegada de Arizona Robins, que gerou um triângulo sexual tão intenso que resultou em uma gravidez (aliás, a Sofia é feia pra burro, diga-se de passagem). Outro fator que nos permitiu entender a maturidade de Callie perante sua identidade sexual foi a participação de seu pai católico, que quis “fazer o Feliciano” e curar a filha à base de exorcismo. A partir daí, o casal gay da série explorou outros fatores de um relacionamento, como a amputação da perna de Arizona e, no final da 9ª temporada, uma traição. Hoje, vemos em Calliope Ifigenia Torres uma mulher bem resolvida sexualmente que se conhece muito bem e se ama na cama e fora dela.

Para muita gente é difícil lidar com mudanças de comportamento tão drásticas. Entender a homossexualidade castiça, invicta, ainda é mais fácil do que entender aqueles que “mudam de lado”. Precisamos deixar claro, antes de tudo, que não existe mudança de lado. Os sentimentos de Callie se manifestam em mão dupla, e aceitar essa ambiguidade exige a mesma compreensão que exigiria a existência de uma uniteralidade.

David & Bryan – “The New Normal”

 

Esse casal lindo aparece aqui junto porque efetivamente, The New Normal era inteira um patrimônio da comunidade gay, e que foi possível porque lá atrás, em 1969, alguém começou a lutar por espaço. A série, injustamente acusada de caricata, incorpora uma noção de valor familiar que precisa ser muito projetada para uma sociedade que ainda argumenta contra os homossexuais, apoiada nesses conceitos cristalizados.

David e Bryan eram as duas faces da moeda, representavam os dois mundos distintos da expressão gay e faziam isso no meio de uma avalanche de cultura pop. Quanto mais liberdade, mais reafirmação do quanto a felicidade se encontra por meios bem particulares. The New Normal era sobre transgressão sim, mas era sobre a transgressão do didatismo social. Era sobre o casamento como instituição viva, mesmo que por meios menos convencionais.

Há alguns anos atrás, uma produção como The New Normal ou Will & Grace, jamais seria possível na televisão. Os muros de Stonewall precisaram ser sacudidos para que isso fosse possível nos dias de hoje. Uma produção assim tão livre, tão clara, tão dedicada ao mínimo. Talvez os heteros nunca entendam o valor de haver algo assim na programação, em meio a 99% de programas focados nos conflitos mais “naturais”. Mas para quem garimpa reflexos de si mesmos na ficção, aquilo ali era ouro. Era diamante.

Willow Rosenberg – “Buffy, The Vampire Slayer” (Por Luiz Gustavo Cristino)

 

Quando Joss Whedon decidiu transformar sua nerdzinha tímida em uma mulher segura suficiente para não pensar duas vezes ao se ver apaixonada por outra mulher, houve muitas reclamações do público de Buffy, The Vampire Slayer. Parte delas era uma reação natural dos shippers de Willow & Oz, o primeiro grande amor da personagem e seu único relacionamento heterossexual na série. Outra parte, ele declarava em entrevistas, era mais complicada. “Você transformou a Willow em sapatão!”, escreviam-lhe alguns fãs que ameaçavam boicotar o show, e cuja audiência, afirmou Whedon categoricamente, não faria falta.

No ano 2000, havia muitos personagens gays em séries de TV, mas boa parte deles só era aprovada ao custo do uso de estereótipos ou de sua assexualização. Foi nesse contexto que, em uma das apostas mais ousadas que Whedon já arriscou fazer, Willow & Tara transformaram-se no primeiro casal lésbico estável da história da TV aberta americana, impactando toda uma geração de espectadores e abrindo caminho para que inúmeras séries teen passassem a abordar o tema.

A verdade é que, independentemente de seu pioneirismo, a sexualidade da ruiva foi tratada de maneira primorosa durante sua jornada. A extremamente popular personagem foi escolhida a dedo para passar pelo processo de autodescoberta, que não poderia ter ficado em melhores mãos do que as da competentíssima Alyson Hannigan. Assim como sua religião – Willow era judia –, sua homossexualidade raramente ia para o primeiro plano, mesclando-se a toda a complexidade da bruxa adolescente.

Apesar disso, Whedon não se esqueceu de tratar com carinho a saída do armário da personagem, que teve um episódio (e apenas ele) dedicado especificamente à sua sexualidade. Em New Moon Rising, Willow precisou confrontá-la e perceber que não desejava mais Oz, e sim Tara, com quem já havia começado um relacionamento antes do retorno do ex-namorado a Sunnydale. Confusa, ela se abre para Buffy, em uma cena de uma beleza tão grande quanto sua simplicidade que pode ser considerada a saída do armário de Willow. Os demais personagens foram descobrindo pouco depois, de maneira rápida e bem humorada. Sem dramas, sem confrontos familiares, sem grandes consequências. Apenas parte de um grande processo que ocorreu no tempo certo para transformar Willow em uma das principais personagens-modelo para a geração LGBT no mundo das séries.

Quero terminar esse post fazendo um agradecimento especial ao site, que permite esse tipo de conteúdo, aos amigos Luiz Gustavo Cristino e Gabriel Tubbs (que mostraram que heteros e gays podem falar do assunto com a mesma propriedade) e a cada um de vocês que chegou até aqui, e leu. Se os protestantes do Stonewall brigavam por uma chance de se expressarem sem opressão, eu gostaria de sugerir uma luta pelo entendimento correto dos conceitos e nomenclaturas.

Não existe “opção sexual”, existe “orientação sexual”. E a “orientação” a que nos referimos não é a orientação de alguém ou de alguma coisa, é a orientação do desejo, do espírito, da essência. Aquela mesma intuição deleitosa que tira o ar de um rapaz quando olha nos olhos de uma moça, e que ele não sabe dizer de onde vem… Essa intuição aí mesmo, que às vezes também aparece no olhar de um rapaz, para o outro. Uma intuição do corpo, uma intuição do coração. Forte e quente, e igual para todos.

Que mais séries possam sortir a programação com diversidade e novas abordagens, porque quando a televisão começa a falar a respeito, é porque efetivas mudanças já podem ser reconhecidas e conquistadas.

What a surprise!

Who could foresee

I’d come to feel about you

What you felt about me?

Why only now when I see

That you’ve drifted away?

What a surprise…

What a cliche’…

Stephen Sondheim

*Para ouvir lendo esse post: Stonewall Celebration In Concert – Renato Russo.

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