“O mundo não é gay”, by Ryan Murphy.

Spoilers Abaixo:

Mesmo que você não seja homossexual, se tiver o mínimo contato com a categoria, deve saber que a expressão “o mundo é gay” virou uma filosofia de vida para alguns. E a explicação é muito simples: os gays têm acesso a uma camada oculta da natureza humana, e o contato sexual casual com homens de reputação ilibada dá uma sensação de poder, de conhecimento, que às vezes acaba subindo à cabeça. Daí a leviandade de tomar esse conceito de “o mundo é gay” como via de regra, agindo como se tudo e todos fossem passíveis de conversão.

Não deixa de ser uma espécie de preconceito. Os gays reclamam que os héteros não acreditam no “amor homossexual”, e os héteros reclamam que os gays não acreditam em heterossexualidade. Os dois lados numa via cega, incapazes de aceitar a complexidade humana completamente. Incapazes de combater o preconceito com uma simples olhadela no panorama da questão, e não só do lado que se está dentro.

Nesse episódio de The New Normal, a intenção foi mostrar que o mundo dos gays não é só sobre ser gay. Ser gay não é uma profissão, é só um detalhe. No final das contas, os gays vivem os mesmos pormenores que qualquer pessoa desse mundo, e lidam com os dramas e alegrias dos que lhes cercam, e que ainda bem, não são sempre todos gays.

Para provar esse conceito, nada melhor que falar sobre um dos principais problemas vividos num relacionamento: a sogra. Porque sim, meu povo, sogras serão sempre um problema, em qualquer esfera da sexualidade. E a de Bryan é como qualquer outra. Uma mãe ávida por proteger e homenagear sua cria. A questão é que em cada sogra se reflete na imagem da nossa própria mãe, e se as coisas não vão bem com nossa mãe, a situação com a sogra pode ser ricocheteada.

Frances, a sogra, não é de todo mal. Seu comportamento com David é natural, e competir pela atenção dele não deveria ser um problema. Porém, Bryan tem sérios problemas familiares, e a presença superprotetora de Frances traz esses sentimentos à tona. Tirando os ótimos momentos de humor, o que fica é aquela fantástica cena na cozinha, quando os dois se confrontam, se analisam, e reforçam a noção de que a homossexualidade é um detalhe ridículo da personalidade de cada um. No fundo, sofremos e amamos igualzinho a qualquer pessoa. E odiamos e amamos nossas sogras… As responsáveis por colocarem no mundo a nossa referência de amor.

Agrada-me cada vez mais que The New Normal não seja nem uma bandeira e nem uma cartilha.

Eu já ficaria feliz com esse plot, mas aí me mandam o primeiro orgasmo de Nana, que por Deus, é uma força da natureza toda vez que está em cena. Cada diálogo dela é recheado com ótimas referências, tiradas inteligentes e surtos analíticos. Mas fico tão contente que ela esteja sendo respeitada em suas convicções. E que ainda não tenha percebido que, de alguma forma, a proximidade com Bryan e David tem alterado o modo como ela enxerga o mundo.

Eu vou ficar até chato se começar a transcrever tudo que me fascinou nesse episódio, mas ver, em uma série considerada “uma série gay”, a questão do sexo na terceira idade ser tratada com tanto respeito e humor, é de encher o coração de orgulho. E se destacarmos o diálogo entre Nana e David no consultório, e o diálogo entre ela e Frances na praça, vamos ver que The New Normal não está aqui pra carimbar uma categoria. Essa série tem muito que dizer. Sobre tudo. Não só sobre ser gay.

O que mais gosto é que embora haja exagero e caricatura, a série se preocupa em fazer os personagens olharem pra dentro de si mesmos. Nana falou pela primeira vez do quanto à luta por seus ideais anulou seu campo de possibilidades. Ela se fragilizou, foi humilhada por um gordinho-sexy, percebeu que usar o que uma pessoa é contra ela, deixa marcas. Ela foi explorada em 21 minutos de episódio, o que muita série de uma hora não consegue explorar de seu personagem em uma temporada.

Enfim, mais uma semana de puro amor por The New Normal. E embora a review dê muita atenção aos aspectos conceituais da série (se eu estiver aborrecendo, dêem um toque), vale lembrar que tudo isso é feito com muito humor e sagacidade. Ou seja, quer coisa melhor que falar de coisa séria do jeito engraçado?

Renovem logo essa delícia, pra eu poder festejar o resto do ano.

Pérolas From Nana: “Nenhuma mulher toca na minha vagina, nem eu mesma”

Pérolas From Nana 2: “Não falo da minha vida sexual com um homem que é atraído pelos próprios genitais”

Anormal Moment: Culpemos Tyra Banks!

PS Normal: Não ia ser coisa linda de viver se no fim das contas, o esperma fosse do Bryan?

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