O lado dark de Nancy Donahue.
Sinto-me um privilegiado quando consigo escrever sobre um episódio que traz, além da qualidade e do humor tradicionais, algo diferente do que estamos acostumados a ver, algo que foge da fórmula de The Middle que, ainda que seja sempre agradável, pode ser repetitiva em certos momentos.
A Very Donahue Vacation me deu essa alegria e nem se fez de rogado, cravou seu diferencial já no título, dando a uma personagem secundária um belíssimo espaço para brilhar. Sempre adorei Nancy Donahue, e fui um dos que caíram na gargalhada com ela no recente episódio do aniversário de Frankie, em que os roteiristas a presentearam com a melhor fala do episódio. “Não coma esse bolo, peguei o catálogo e passei cobertura nele!” Conversando com meu querido amigo e colega Thiago Lourenço, pontuei minha felicidade por te visto essa consideração com a vizinha dos Heck que nos acompanha há tanto tempo e merecia ser um pouco mais do que o Dedé para o Didi de Frankie.
Desta vez, Nancy Donahue transformou-se em Nancy Thorne por um dia, ficando toda trabalhada na Revenge e me deixando orgulhosíssimo daquele momento falsiane em que ela faz as pazes, abraça, mas depois taca Frankie na piscina. Fiquei com uma sensação de que a dúvida da nossa protagonista – Nancy me empurrou ou não? – foi um pouco forçada. É difícil não ser perceptível quando você é empurrado. Mas fui capaz de perdoar pela lição de vida: se Nancy Donahue tem um dark side, meu amô, não sou eu e nem você que podemos falar que não temos.
Todo o desenrolar do arco com os Donahues foi uma verdadeira aula de entretenimento, desde Nancy apontando seja lá o que for que Brick está fazendo de errado e conversando com ele – e amo que o episódio não fez questão nenhuma de nos dizer o que era! -, até a conversa entre Frankie e Sean que acabou dando muito mais certo do que eu imaginava e culminando no motivo da “briga” entre as duas amigas.
Vale a pena falar um pouco sobre Sean hippie, que nunca me agradou e sempre me pareceu um pouco demais para a série – e continua parecendo! Mas a mudança do personagem serviu tão bem ao propósito do episódio que me parece que isso tudo foi feito com o objetivo específico de chegarmos até aqui. E acabei me surpreendendo novamente, porque achei que Frankie ia se perder nos elogios que estava recebendo e acabar sendo convencida por Sean de que ele não deveria fazer medicina.
Mas, no fim das contas, nossa matriarca não só não perdeu o foco como também foi extremamente eficiente em sua missão, me deixando realmente orgulhoso do alto nível de sucesso da operação Sean. É bom ver Frankie conseguindo as coisas pra variar um pouco. Só dispensaria a chantagem da pirralhinha, que é um arco clichê demais e geralmente não leva a lugar nenhum, como não levou aqui. Mas não chegou a incomodar. Algo parecido com o que ocorreu com relação entre Axl e Brick, que desenvolveu um pouco a relação entre os irmãos (especialmente Brick e sua surpreendente habilidade com as garotas), mas foi um arco bastante secundário e de pouco impacto que não sinto que precisamos abordá-lo.
Quem precisa receber todo o nosso carinho nessa história é, claro, Mike, cuja trajetória vem sendo esculpida com precisão cirúrgica e é seguramente o dono da sétima temporada de The Middle. Vê-lo sendo atingido pelo crescimento da filha não é algo inédito e nem será a última vez que isso será abordado na série, mas a execução foi belíssima.
Sue foi quem mais me surpreendeu no episódio. Achei uma baita ousadia dizer “pai, não estou pedindo permissão, estou apenas comunicando”. Sapateou na cara do véio. Uma atitude que poderia não ter combinado com a personagem, mas que foi entregue por Eden Sher com um nível de “firmeza meiga” poderosíssimo, algo típico de quem faz seu trabalho com propriedade e compreende a garota que interpreta. A cereja do bolo, claro, foi a breve participação de Brad, sempre marcando presença na vida da amiga e nos divertindo no processo.
A percepção de que a filhinha se tornou mulher foi o momento “Sue olhou para as estrelas” ou “Axl me deu um garfo” do episódio, um ingrediente básico da receita de bolo que toda semana The Middle acaba seguindo. Gostei, me emocionei, mas não quero que The Middle se acomode no uso dessas cenas emocionantes de fim de episódio e espero que a série trabalhe para inovar sua estrutura agora que sabemos que a oitava temporada vem aí.
A única coisa que realmente fez falta foi um aprofundamento da história “Mike foi negligenciado”. Pitadas desse arco iam sempre sendo pulverizadas de leve ao longo dos 20 minutos. Os passeios turísticos programados (que eu também odeio e vivo enrolando pra matar nas viagens em família) e a constante sensação de que suas necessidades eram ofuscadas pelos Donahues me levaram a acreditar que o episódio estava nos levando a algum lugar, mas isso nem chegou a acontecer, e em algum nível isso me decepcionou um pouco.
Mas não se pode dizer que Mike não foi uma estrela. Foi ele o pilar de sustentação do episódio a partir do momento em que sentiu a necessidade e teve a ideia de ir a Kentucky, graças a um dinheirinho extra que o negócio de fraldas rendeu. Thiago comentou aqui que sente que esse negócio irá levá-los pro topo da pirâmide social americana ou deixá-los lascados de vez na pindaíba, mas eu creio que, ao menos por um bom tempo, a ideia vai ser basicamente essa: o negócio vai ajudar um pouquinho e permitir que a família faça algo diferente que renda um episódio, mas mantendo o status constante de Classe C. Talvez no final de tudo possamos testemunhar uma ascensão social dos Hecks, mas creio que essa história ficará de molho por um bom tempo.
Falando em final, precisamos falar sobre a conclusão do episódio. Se a série já não tivesse sido renovada, eu teria certeza absoluta de que estávamos em nossa última temporada de The Middle. O nível do tom de despedida da frase “e esta foi a nossa última viagem com os Donahues…” foi altíssimo, e passa até a impressão de que, por pressão da emissora, a série pode estar correndo o risco de durar mais do que o planejado por suas showrunners. Embora não queira ver The Middle acabando tão cedo (#10SeasonsAndAMovie), liguei meu alerta laranja de preocupação. Espero uma série redondinha e feita com todo o esmero e planejamento que The Middle merece. É isso, e somente isso, que permite a existência contínua de episódios interessantes como A Very Dohanue Vacation. Dedos cruzados.















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