Um episódio que deixa claro quais os caminhos que The Middle deve trilhar em 2016.
Não é exagero nenhum. Esta primeira metade da sétima temporada de The Middle não só é uma das mais consistentes de toda a série, como também facilmente a coloca em destaque entre as comédias atuais. Apesar de seus números nunca terem alcançando patamares próximos à sua colega mais longeva de emissora (Modern Family), basta fazer uma consulta rápida nos posts de audiência do Série Maníacos para constatar a estabilidade que The Middle é capaz de entregar para a ABC, desde seu início.
É graças a esse público cativo que os nossos queridos produtores executivos, Eileen Heisler e DeAnn Heline, podem trazer para a série o tão alardeado “desenvolvimento de personagens”, tão comum em dramas, mas que nem sempre é observável em comédias – a menos que seja das grandes. E é justamente para o mesmo rumo dessas produções que Heisler e Heline estão conduzindo sua série, principalmente nas três últimas temporadas, ainda que mais visível neste sétimo ano. Se já é tarde demais para fazer de The Middle um grande hype, o mesmo não se pode dizer da possibilidade de elevar à potência máxima a experiência dos fieis membros do #TeamHeck. Nesse sentido, ‘The Rush’ pode passar despercebido pelos telespectadores aleatórios, que buscam apenas aquelas risadas momentâneas durante uma zapeada do controle remoto. Mas se você é fiel à série, fatalmente reconhecerá que esse episódio está repleto de momentos imprescindíveis para as ações e a evolução dos personagens até o fim da temporada.
O principal exemplo disso é o plot de Mike – o lindo do Neil Flynn que disputa pela primeira vez a categoria “Melhor Ator Coadjuvante” do Critics Choice Awards, cujos vencedores conheceremos no próximo domingo. Foi uma agradável surpresa ver esse justo reconhecimento, ainda mais em um momento tão importante para o personagem. Se nos últimos anos vimos poucos arcos desenvolvidos especificamente para o patriarca dos Heck, a 7ª temporada mostra que está disposta a corrigir esse problema.
Sabemos que Mike atravessa uma crise de meia idade e virou sócio de seu irmão Rusty num negócio de fraldas – sério, essa ideia é tão maravilhosa que já pensei em buscar investidores para replicá-la no Brasil. The Middle consegue conciliar perfeitamente o modelo de se fazer comédia na TV aberta, com situações que tem começo, meio e fim, no mesmo episódio, sem abandonar histórias pelo caminho. Ainda que o plot Mike Empreendedor não tenha sido destaque em toda a temporada, basta inserir menções nos episódios para nos passar a sensação de que os produtores e roteiristas estão atentos. É como se fosse um aviso para ficarmos de olho porque logo, logo o assunto pode pintar novamente.
Foi justamente o que aconteceu em ‘The Rush’, unindo dois personagens que possuem muita química entre si. Mike convida Axl para acompanhá-lo em uma feira qualquer, dessas do bebê e da gestante que a gente vive vendo por aí, porque o filho precisa aprender um pouco sobre negócios. Ao invés de seguir para o caminho tradicional, em que o pai ensina alguma coisa para o filho, o episódio resolveu fazer uma quebra e inverter essa lógica. Na feira do bebê e da gestante, Mike percebe que está desatualizado e isso pode impactar no sucesso de seu negócio, que precisa de presença nas redes sociais. Isso foi o suficiente para a série conciliar os dois plots de Mike este ano: empreendedorismo e crise de meia idade.
Levar Axl para a feira foi uma decisão tomada por um pai que entende como sua função passar adiante os conhecimentos que possui. Entretanto, acabou acontecendo o inverso. Axl cumpriu seu papel de inserir o pai no Twitter e também coube a ele apresentá-lo algumas regras básicas de sobrevivência na rede – que já não é mais chamada de worl wide web com tanta pompa e circunstância. Na rede do passarinho, Mike foi tão adolescente quanto Axl ao não deixar por baixo uma crítica feita por bigdwaine32. Aquela necessidade urgente de dar a última palavra e gritos como o “You just got Miked” o colocam no mesmo patamar de imaturidade de um adolescente qualquer. Explorar esses extremos, ressaltando as semelhanças dos comportamentos de pai e filho, foi uma decisão sábia do roteiro. Pensei que bigdwaine32 apareceria a qualquer momento na porta da casa dos Heck com um taco de baseball na mão, mas ele fez muito melhor ao divulgar o número do telefone fixo de Mike.
O senso de proteção, a ideia de preparar o filho para o mundo, também teve muito a ver com o plot de Frankie e Brick. Buscar a inserção do caçula e vê-lo vivendo de forma saudável na sociedade sempre foi uma tarefa árdua para Mike e Frankie. Provavelmente, eles nunca acreditaram que Brick teria capacidade para se virar sozinho. Por isso, ao chegar em casa depois de comprar calças por conta própria, sem que a peça fosse uma aberração fashion, uma luz acendeu na cabeça de Frankie. A síndrome do ninho vazio finalmente aflorou e a constatação de que em breve Brick seria o próximo a deixá-la foi o suficiente para que Frankie pudesse curtir sua fossa. Depois de muito choro, lamentação e a promessa de estar mais presente na vida do filho, Mama Heck seguiu em frente e percebeu o inevitável: pais preparam seus filhos para o mundo. Prova de que os Heck estão fazendo isso bem é o fato de Brick ter um amigo capaz de fazê-lo esquecer a existência de sua mãe no banco da frente.
Por fim, Sue na faculdade segue como um dos maiores acertos da série. Ainda que já tenhamos visto Axl em diversas situações no campus, a chegada da filha do meio cria uma gama diversa de possibilidades para a história. Uma delas, ainda que a mais óbvia, é Sue se candidatar para uma fraternidade porque não há nada mais Sue que Sue se candidatando para algo. Faculdade é aquele lugar mágico em que você está livre das amarras e pressões do Ensino Médio. Pelo menos a minha foi assim e a da Sue caminha na mesma direção. Tanto, que além de interagir de forma saudável com outros universitários, ela teve reconhecida uma de suas características mais singulares: ser feliz e positiva!
Cheguei a acreditar que Sue conseguiria entrar em uma das duas fraternidades que ela tanto amou, mas optar por esse caminho seria destratar muito a personagem. Primeiro porque ela já faz parte de um grupo tipo coral (lembra que foi justamente em algo assim que ela se candidatou no piloto?) e segundo porque combina mais com o histórico da série ser fiel à seus personagens – ainda que haja um deslize ou outro. Lembrei de um episódio de The Affair em que Noah argumenta que as personagens só pertencem ao autor durante um tempo da história e depois de certo ponto é apenas o destino agindo. Foi justamente isso o que aconteceu com Sue. Ainda bem que a amiga dona de um cachorro xará do Raj de The Big Bang Theory pode contar com uma profissional em rejeição para ajudá-la.
Semana que vem o querido Gustavo Nagipe está de volta às reviews de The Middle e eu o agradeço muito pelo carinho com que ele trata a série aqui no SM. Se ‘The Rush’ não será lembrado como um episódio memorável dessa temporada, certamente ele terá contribuído para a consolidação dos principais arcos deste ano. Fica pelo menos um importante ensinamento: “casamento nunca é a solução”.















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